Perfil oculto e assimetria de informação

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Por Artur Mascarenhas em fevereiro 18, 2021

É notório como as tomadas de decisão têm caráter de grupo: nas organizações, por exemplo, é comum a formação de comitês para que se discuta um determinado assunto. Também é bastante utilizada a figura do conselho administrativo – grupo formado por diversos indivíduos, cuja função é analisar informações, tomar decisões ou dar suporte aos executivos para suas decisões. Mesmo decisões aparentemente individuais podem ter caráter social: pense em quantas vezes você pediu uma opinião para sua família ou seus amigos sobre suas decisões, seja mudança de casa, mudança de emprego ou até mesmo que roupa vestir.

Não obstante a essa ubiquidade das decisões em grupo, muito do que se estuda em tomada de decisão refere-se a processos cognitivos individuais, desde pesquisas descritivas como sistema dual, heurísicas, vieses, Teoria do Prospecto, etc., voltadas para mostrar como o indivíduo toma decisões até ferramentas como arquitetura de escolhas, nudges, boosts, budges e outros tipos de intervenções voltadas para melhorar a tomada de decisão.

Uma vez que se entende como o indivíduo toma decisões e o que afeta sua qualidade, espera-se que, ao tomar decisões em grupo, a qualidade da decisão do grupo – o que quer que isso signifique – seja superior, ou, ao menos, similar à qualidade da decisão individual. Porém isso nem sempre acontece.

Duas cabeças pensam melhor do que uma?

Um dos vários motivos pelos quais isso pode ocorrer foi observado em 1985 por Stasser e Titus em seu trabalho “Pooling of Unshared Information in Group Decision Making: Biased Information Sampling During Discussion”. A dupla observou que o processo decisório de grupo é significativamente influenciado pela distribuição de informação relevante à decisão antes da discussão do grupo, ou seja, o fato de uma informação ser conhecida por mais membros do grupo do que outras faz com que essa informação “compartilhada” tenha relativamente mais peso na decisão final do que as informações “não-compartilhadas”.

Explico: vamos supor que uma empresa deva decidir entre ampliar sua fábrica atual (estratégia A) ou construir uma nova planta (estratégia B) e que, para a estratégia A, existam sete informações favoráveis a sua adoção (definidos como a1, a2,… a7) e quatro informações favoráveis a B (definidos como b1, b2, b3, b4). Dessa forma, Stasser e Titus identificaram quatro tipos distintos de distribuição dessas informações antes da discussão em grupo:

(Fonte: Stasser & Titus, 1985)

No caso 1, não existe assimetria na distribuição de toda informação disponível, de forma que todas as informações são compartilhadas entre os membros. Nesse caso, todos os membros conhecem as sete informações a favor de A e as quatro informações a favor de B. Dessa maneira, é esperado que todos os membros prefiram A antes da tomada de decisão em grupo e o grupo chegaria rapidamente a um consenso.

Nos casos 2 e 3, parte das informações sobre A e B são do tipo “não-compartilhada”. De qualquer maneira, cada membro já possui mais informações pró-A do que pró-B, estabelecendo que suas preferências iniciais sejam a favor de A. Dessa forma, é esperado que a decisão final ainda seja favorável à estratégia A.

Já o caso 4 é um caso extremo: toda informação pró-B é compartilhada, porém seis informações pró-A não são compartilhadas pelo grupo anteriormente à tomada de decisão em grupo. Dessa maneira, a preferência individual antes da interação e troca de informação do grupo é por B, o que representaria uma decisão sub-ótima. Por meio da troca de informações seria possível reverter essa preferência inicial uma vez que os membros do grupo poderiam compartilhar as sete informações pró-A, porém isso nem sempre acontece. A esse tipo de situação particular, Stasser (1988) denominou o termo “perfil oculto” (“hidden profile”, em tradução livre).

Onde há pessoas, há vieses

              A descoberta do “paradigma do perfil oculto” gerou decadas de pesquisa e dezenas de estudos empíricos voltados à replicação desse fenômeno e à tentativa de solucionar esse problema. Um dos estudos mais conhecidos na literatura de perfil oculto é o Modelo de Assimetria de Informações, criado por Brodbeck e colegas em 2007, em seu trabalho “Group decision making under conditions of distribuited knowledge: the information asymetries model”, em que apresentam um modelo teórico visando representar e expandir a explicação sobre os vieses da tomada de decisão em grupo em situações de perfil oculto.  O Modelo de Assimetrias de Informação está representado abaixo:

(Fonte: Brodbeck et al., 2007)

Dessa forma, as possíveis assimetrias no processamento da informação durante a tomada de decisão em grupo são de suma importância para que se possa atingir a melhor decisão. Nesse aspecto, Brodbeck et al. identificaram três categorias distintas de vieses, conforme apresentado abaixo:

(Fonte: Brodbeck et al., 2007)

Dentro dos processos de grupo, define-se como foco na negociação um padrão de interação social interno em que se observa a existência de uma influência normativa em seus membros, a fim de levar indivíduos que discordem da posição dominante no grupo à conformidade por essa posição, motivados pelo desejo de ganhar aprovação social ou evitar a rejeição de seus pares.

Ainda nos processos de grupo, define-se os vieses de discussão como os vieses que ocorrem durante a avaliação das informações discutidas durante a tomada de decisão em grupo. O viés de amostragem refere-se ao fato de que as informações “compartilhadas” têm uma vantagem probabilística de serem mais mencionadas, uma vez que são conhecidas por mais membros do grupo. Já o viés de repetição evidencia que, uma vez mencionada, uma informação “compartilhada” é repetida proporcionalmente mais vezes do que uma informação “não-compartilhada”.

Dentro dos processos individuais, pode-se observar os vieses de avaliação, definidos como maneiras pelas quais indivíduos interpretam e avaliam as informações discutidas na tomada de decisão em grupo. Para Brodbeck et al. (2007),  são importantes por dois motivos: eles podem explicar porque, às vezes, grupos falham em situações de perfil oculto, mesmo quando toda informação relevante é discutida e, também, contribuem para os vieses de discussão de grupo citados anteriormente. Os vieses de avaliação que favorecem as informações “compartilhadas” podem ser observados quando os membros do grupo as julgam como mais relevantes, uma vez que podem ser socialmente validadas, do que as informações “não-compartilhadas”.

E agora? O que fazer?

A partir da observação desses vieses individuais e de grupo, é possível encontrar diversas prescrições na literatura de perfil oculto, como estimular que os membros do grupo não revelem sua preferência individual antes de que toda informação seja discutida ou estabelecer a crítica (e não a conformidade) como norma social do grupo.

Curiosamente, embora a literatura de perfil oculto trate de vieses – tanto individuais quanto em grupo – em raríssimas ocasiões faz referência à literatura de heurísticas e vieses, da escola de Kahneman & Tversky, como seria de se esperar, até mesmo, para a utilização de ferramentas dessa literatura para mitigar os vieses envolvidos nesse tipo de situação. O leitor ou a leitora mais atentos talvez tenham feito rápidas associações entre os vieses discutidos por Brodbeck et al. (2007) e os vieses conhecidos pela literatura de Heurísticas e Vieses. Porém, aparentemente – e ironicamente – essas literaturas não se comunicam.

Por que isso acontece é uma longa discussão e fica para uma próxima oportunidade falarmos sobre isso. O que é importante entender até aqui é que decisões em grupo, embora comportem fenômenos da tomada de decisão individual, não são simplesmente uma agregação deles e sim o estabelecimento de uma nova dinâmica, cuja qualidade da decisão pode ser influenciada por diversos fenômenos individuais e sociais, como, por exemplo, a distribuição de informações entre seus membros.

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