Retrospectiva 2020 / Perspectiva 2021: olhando para trás e forjando o futuro – Parte 4

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Por Artur Mascarenhas em dezembro 16, 2020

Chegamos à parte final de nossa série de posts com a opinião de 17 cientistas comportamentais fazendo uma retrospectiva sobre a atuação da área em 2020. Agora, é hora de olhar para frente e perguntar para nossos convidados: “O que podemos esperar das ciências comportamentais no ano de 2021?”

Rafaela Bastos – NudgeRio

Minhas expectativas são as melhores, bem positivas. Eu espero que possamos contribuir, principalmente na gestão pública, área na qual atuo, com o fato de que os insights comportamentais não servem apenas a problemas de origem comportamental. Talvez, os nudges nos enviesam a esta postura, mas  os dados comportamentais, a compreensão do processo decisório e a indicação dos incentivos corretos possam ser partes fundamentais para a integração de políticas públicas, a eficiência, efetividade e eficácia da gestão pública e na interface da agenda pública – pautada pelos cidadãos – com os programas de governo. 

Guilherme Lima – Ponto Futuro

No plano global, uma consequência da repercussão das polêmicas da Covid-19 será uma maior auto-regulação do campo, com entidades globais propondo códigos de ética e melhores práticas para a aplicação de insights comportamentais em contextos públicos e privados. Uma primeira iniciativa, na qual pretendo me registrar é a GAABS – Global Association of Applied Behavioural Scientists. Um outro movimento que eu espero que ocorra cada vez mais forte é a aproximação do campo de Data Science/Analytics com a Ciência Comportamental. Acredito que cada vez mais os data geeks, ou quem os contrata, vão buscar conhecer os porquês e os elemento de contexto em torno dos algoritmos, e na colaboração entre os campo existe um potencial de criação de valor imenso. No Brasil, minhas ambições são mais modestas, mas meu desejo para o Papai Noel, quando ele sair do isolamento social é de que mais e mais altos executivos e formuladores de políticas públicas percebam o valor dos insights comportamentais e aceitem o risco de experimentar. Ainda não temos em nenhuma empresa brasileira (que eu conheça) a figura do “Chief Behavioural Officer” e embora tenhamos nudge units em diferentes órgão públicos, a participação de cientistas comportamentais no enfrentamento à pandemia ficou entre modesto e inexistente. Quem sabe na retrospectiva de 2021 tenhamos boas histórias para contar sobre como o campo avançou no próximo ano…. 

Flávia Ávila – InBehavior Lab

Tivemos na pandemia uma grande oportunidade de observar diversos comportamentos. Também houve a oportunidade de ensinar o tema em locais em que não tínhamos tanto acesso e que fez uma transformação cultural nesses locais, que fez sentido para as pessoas e, quando faz sentido para as pessoas, elas mesmas conseguem, de forma autonom,a criar centros de aplicação nessa área.

Muitas pessoas conheceram e aprenderam mais sobre esse tema em 2020 e que podem ser propagadores dessa tema de forma robusta e séria. Vamos juntar as mãos, com vida nova e vamos pensar na próxima década. Só assim, atingiremos um ponto de virada como ciência que faz diferença ao redor do mundo.

Cesar Rocha – Universidade de São Paulo

Muito se tem falado sobre “novo normal” e “mundo pós-pandemia”. A adaptação a novas circunstâncias sempre exige esforços de organização pessoal e autorregulação, nem sempre óbvias e diante das quais muitos apresentam grande dificuldade. Para piorar, nossa habilidade em antever futuros possíveis é estreita, dada a incontrolabilidade inerente ao problema. Acredito que um papel importante das ciências comportamentais na promoção do bem-estar estará diretamente relacionado a como tais ciências poderiam proporcionar uma adaptação mais facilitada, ou pelo menos o menos dolorosa o possível, às novas circunstâncias – sejam elas quais forem. Muito já foi feito: cada um de nós possivelmente recorreu a “insights” comportamentais, advertidamente ou não, na adaptação de rotinas de trabalho e na programação do lazer. Ainda assim, e a depender de quão vultosas sejam as mudanças no pós-pandemia, há uma rota considerável pela frente em 2021: minha esperança é que os insights comportamentais possam torná-la menos árdua para o maior número possível de pessoas.

Rafael Jordão – Consultor independente

Acredito que podemos ter muitas pesquisas que se relacionam com a pandemia. Ego-Depletion, Comportamento de Manada, Viés da Confirmação. Para citar poucos, que são campos que podemos testar já agora durante a pandemia.

Vera Rita Mello Ferreira – Vértice Psi

Crescimento, maior relevância, mais contribuições – o Brasil e o mundo precisam muito desses estudos!!!

Roberta Muramatsu – Universidade Presbiteriana Mackenzie

Quero esperar mais trabalhos no Brasil sobre aplicações de economia comportamental para temas de política pública relevantes. Já temos muita gente boa na área de marketing, coach, finanças. Torço para ver mais alunos e professores trabalhando na área de saúde, antitruste (e várias areas de law and economics), public economics (administração pública, inclusive), políticas de educação, estudos sobre comportamento eleitoral, etc

Carlos Mauro – CLOO Behavioral Insights Unit

Acredito que vão ocorrer em três movimentos: (i) aumento significativo da consciência da sociedade sobre o potencial positivo das aplicações das Ciências Comportamentais (governos, empresas, 3º setor); (ii) aumento da oferta de formações executivas; (iii) ligeiro aumento na discussão sobre nudges x sludges – esse aumento poderá ser maior, caso algum evento crítico negativo aconteça.

Gostaria de ver um aumento na oferta de formação científica stricto sensu no Brasil e em Portugal, associando-a a uma maior produção científica de excelente qualidade. Porém, infelizmente, não me parece que acontecerá em 2021. Existem, para já, movimentos de base para que essa oferta torne-se viável nos próximos anos.

Parece-me, finalmente, que iniciativas como esta, de reunir profissionais das Ciências Comportamentais e fomentar o diálogo, poderão abrir caminhos para um contexto colaborativo e/ou cooperativo entre organizações que, mesmo sendo total ou ou parcialmente concorrentes/ complementares, têm a necessidade e o desejo de que as boas práticas científicas e de negócios sejam o padrão em nosso contexto brasileiro.

Gabriel Inchausti – InBehavior Lab

Pensando nos practicantes, o meu wishlist teria tres “velhos conhecidos”: (1) rigor para conhecer as limitações da evidência que temos na mão, (2) humildade para não tentar impor narrativas criativas ou confortáveis nesses dados, e (3) curiosidade que permita nos continuar aprendendo de por que as pessoas fazemos algo… no final, um pouco mais do foco no comportamento e seu vínculo com o bem-estar individual… vale aceitar o convite de Richard Thaler: nudge for good.

Tainá Pacheco – (011).lab – Prefeitura de São Paulo

Falo sempre de uma perspectiva de políticas públicas. No mundo as ciências comportamentais estão em um momento de assentar o conhecimento, isto é, já desenvolveram muitas soluções e conseguem dizer com mais clareza o que funciona e o que não funciona. Ao mesmo tempo, devem explorar mais as questões de resultados heterogêneos, já que grupos diferentes respondem também de maneira diferente à estímulos (por exemplo pessoas jurídica versus pessoa física para pagamento de impostos, diferentes idades para serviços de saúde, gênero…). Acho que isso ficou bem claro nas intervenções de COVID. Os avanços tecnológicos permitem que os governos usem as segmentações, já tão utilizadas no marketing do setor privado, a seu favor.

No Brasil o campo ainda é bastante embrionário, mas vem crescendo. Vejo que a tendência é o estabelecimento de uma rede interna de ciências governamentais em governo que possa servir como apoio e treinar governos que desejam iniciar projetos nessa área. Com o início dos mandatos de prefeituras no ano de 2021 há uma janela de oportunidade excelente para que as novas gestões se aproximem do tema e possam testar a implementação de algumas ações sem a pressão eleitoral.

Antonio Claret – Escola Nacional de Administração Pública (ENAP)

Um maior engajamento com temas sistêmicos, que envolvam problemas de ação coletiva, como nos ensinou a crise sanitária global que atravessamos. Quem sabe possamos contribuir de uma forma mais efetiva para a compreensão e o enfrentamento de desafios planetários como o aquecimento global, o aumento das desigualdades e o esgotamento dos recursos naturais? A aplicação das ciências comportamentais à Agenda 2030, já ensaiada pela ONU, pode ser retomada com mais vigor, caso as perspectivas por uma retomada do multilateralismo se concretizem.

Fabio Ismerim – Cogitus Intelligence

Viveremos por um bom tempo essa pandemia, isso por si só já deixa o amanhã menos perceptível e claro. Acredito que duas disciplinas que são a base para o entendimento humano sairão mais robustas deste processo: a Psicologia e Neurociência. Avanços científicos nestas duas disciplinas ainda vão contribuir muito para outras áreas como Economia, Economia Comportamental, Ciências Sociais entre outras.

Outras duas disciplinas que precisam fazer parte da “caixa de ferramentas” de um cientista comportamental, são: Biologia e Causalidade. A primeira já está ganhando um bom espaço dentro da área comportamental, com psicólogos, filósofos e neurocientistas se juntando a biólogos evolucionistas e geneticistas com o mesmo objetivo: entender e prever o comportamento humano e a sinergia entre as duas áreas; já a Causalidade está um pouco mais distante dos cientistas comportamentais, ainda que Inferência Causal seja uma ciência secular. Não há como falar de comportamento, intervenções e predições comportamentais sem abordar a ciência da Causalidade. Espero que em 2021 esse movimento se acelere, uma vez que seja inexorável, e estejamos falando um pouco menos sobre Nudges.

Carol Franceschini – Banking Standards Board

Pensar sobre 2021 está cada vez mais difícil, quanto mais nos aproximamos da virada do ano, mas obscuro parece ficar o horizonte. Eu diria que a EC estará sujeita aos mesmos desafios de muitos outros setores, em tentar construir uma nova forma de pensar relações de trabalho, relações de consumo, decisões de investimento e endividamento dentro de um cenário pós-COVID. Não faz sentido ficar repetindo o termo ‘novo normal’ porque o que está vindo não é o velho ‘normal’, mas uma nova estrutura de relações. Quanto mais ficarmos tentando recuperar o ‘velho normal’ mais tempo perdemos, que poderia ser melhor usado para testar e inovar. Algumas áreas me chamam bastante a atenção no futuro da EC: Uma delas seria entender melhor as diferenças de comportamento quando as relações entre pessoas ocorre ao vivo ou virtualmente, e incorporar essas diferenças na forma como desenvolvemos experimentos (on-line ou ao vivo) e tiramos conclusões desses estudos. Hoje em dia parece ainda haver uma premissa de que tanto faz se uma pessoa toma decisões em um ou outro meio, como se as preferências permanecessem estáveis independente do ambiente decisório. Isso é ridículo na minha opinião. A outra frente de interesse seria em relação a Inteligência Artificial e o impacto que algoritmos tem causado nas decisões individuais e no sistema social como um todo. Acho que as eleições pelo mundo tem mostrado o quanto a mídia social e os algoritmos tem afetado a organização de nossa sociedade e temos que entender melhor esses movimentos, pois eles não vão desaparecer no futuro.

Anderson Mattozinhos – Geekonomics.com.br

Acredito que em 2021 a área terá ainda mais visibilidade e isso certamente fará com que o labo bom e o ruimda área estejam mais em evidência. A popularização é benéfica na medida que transfere parte dos esforços para consolidar a área para pesquisas mais complexas. Será preciso cada vez menos esforço de convencimento de a área é importante na produção de conhecimento científico.

Mas a maior popularidade, aumenta também a quantidade de aventureiros na área que se travestem de cientistas comportamentais, se autonomeiam especialistas em behavioural insights e saem por aí com seus manuais de heurísticas e vieses acreditando que são axiomas inquestionáveis e aplicáveis a todo tipo de contexto ou situação.

Nas palavras do Rory Sutherland: “Ciências Sociais não é ciência da generalização, mas sim a ciência da exceção.” Neste ponto, a aplicação dos insights deve ser implementada não cegamente, mas sim acompanhada de uma “retaguarda” adequada que servirá para medir, acompanhar os resultados e calibrar os achados de acordo com a realidade, o contexto, a cultura e as pessoas onde o uso está inserido.

Guilherme Lichand – Movva

Estudos que ajudem a entender determinantes da persistência ou não dos efeitos dos nudges, e estudos que ajudem a entender de forma mais profunda seus efeitos sobre bem-estar.

Sobre esse último ponto, nudges não impõem escolhas, independentemente do que desejam os nudgers, mas sim tentam aproximar as escolas feitas pelo indivíduo daquelas que teriam sido feitas por um indivíduo sem as limitações cognitivas de codificação, processamento e decodificação, realocando sua atenção.

Diante disso, a discussão crítica não é se os objetivos dos nudgers são os mesmos dos indivíduos, mas se os nudges de fato aproximam as escolhas dos indivíduos daquelas de um indivíduo sem essas limitações. Benkert e Netzer (2019) fazem esse ponto muito claramente, comparando processos decisórios extremos. Para sujeitos que consideram apenas um pequeno conjunto de alternativas, e escolhem de maneira ótima dentro desse conjunto limitado, nudges podem apenas melhorar seu bem-estar (não há como escolherem alternativa pior). Para outros que seguem um processo de satisficing, avaliando alternativas sequencialmente até encontrar alguma que esteja acima de um mínimo aceitável, nudges podem piorar seu bem-estar, caso a alternativa destacada seja aceitável, mas abaixo daquela que o indivíduo escolheria na arquitetura original. Quais tipos de processos escolhas são mais comuns na prática? Como indivíduos caracterizados por diferentes processos de escolha respondem a diferentes nudges?

Ainda sabemos muito pouco sobre isso, o que tem consequências para a interpretação dos efeitos dos nudges e para o desenho ótima de políticas que incorporam nudges na caixinha de ferramentas.

Flora Pfeifer – Movva

Imagino que em 2021 veremos uma consolidação dos conhecimentos gerados neste ano em razão da pandemia e seus comportamentos. Também receberão destaque projetos em temas relacionados, como vacinação, violência doméstica, evasão escolar e facilidade no acesso a serviços públicos (anti-sludge).  Além disso, acho que projetos na área de saúde preventiva receberão mais atenção (ansiosa para ver os resultados do trabalho do Sunstein na Organização Mundial da Saúde). 

Penso também que continuarão os esforços em redes pelo meio virtual, propiciando trocas internacionais e ampliando o acesso à informação, o que favorece a aplicação dos insights em novos contextos. 

Por fim, acho que começaremos a prestar mais atenção a efeitos heterogênoes elaborar intervenções que funcionam melhor para cada tipo de perfil, não só prototipando soluções únicas que tem resultados melhores na média. Essa segmentação tende a aumentar a eficiência das intervenções comportamentais.

Juliana Brescianini – The World Bank

Se há algo que o ano de 2020 nos confirmou, é que o futuro é realmente incerto… No entanto, nos demonstrou também a importância da resiliência e adaptabilidade. Espero que em 2021, continuemos focados no nas pessoas, no usuário e no contexto; que, como indivíduos e cientistas comportamentais, exercemos a empatia, ampliemos a curiosidade e a capacidade de realizar pequenas mudanças com grande impacto. Espero que possamos ampliar e democratizar o uso das ciências comportamentais no contexto público e privado, quando possível, com o padrão ouro dos estudos (RCTs, testes controlados e randomizados), mas também de formas menos amplas mas ainda capazes de mensurar o impacto das intervenções empiricamente. Espero que a utilização das técnicas de Design Thinking se ampliem no setor público e na área do desenvolvimento, culminando na combinação dessas técnicas com as metodologias de uso de insights comportamentais em políticas públicas. Que ampliemos o uso dos Nudges e a redução dos Sludges, eticamente, para simplificar o caminho ao comportamento esperado. À medida que nos aproximamos da vacina contra a Covid-19, nos preparamos para voltar a algum tipo de normalidade, qualquer que seja ela, para a retomada da economia e das nossas vidas. Espero e acredito genuinamente que as ciências comportamentais terão um papel cada vez mais importante nessa retomada.

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