Retrospectiva 2020 / Perspectiva 2021: olhando para trás e forjando o futuro – Parte 3

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Por Artur Mascarenhas em dezembro 12, 2020

Um dos hot topics das ciências comportamentais em 2020 e que, com certeza, adentrará 2021 é a chamada ciência “WEIRD”, sigla utilizada para se referir a povos de países Western (ocidentais), Educated (com alta escolaridade), Industrialized (industrializados), Rich (ricos) & Democratic (democráticos). Os críticos desse tópico alegam que, embora menos 15% da população mundial tenha essas características, mais de 80% dos experimentos da área são baseados em experimentos com esse tipo de população e, portanto, têm baixa validade externa – ou seja, não seriam aplicáveis no “mundo real”.

Dessa forma, seguimos nossa série retrospectiva, perguntando a 17 cientistas comportamentais brasileiros: Como tornar as ciencias comportamentais menos WEIRD em 2021?

O primeiro post da série trouxe a pergunta “Qual foi sua leitura favorita em 2020?“.

O segundo post trouxe a pergunta: “Como você avalia a aplicação dos conhecimento das Ciências Comportamentais no Brasil e no mundo em 2020?

(respostas apresentadas em ordem aleatória)

Rafaela Bastos – NudgeRio

Esse é outro grande desafio, confio muito na gestão do conhecimento na área, na divulgação de estudos e na produção de seminários e grupos de discussão para este ponto. É extremamente necessária a atenção à replicação de estudos realizados em contexto WEIRD, porque podem impactar na validade externa e interna das intervenções. E este é um cuidado que os cientistas comportamentais devem estar atentos na formulação das arquiteturas de escolhas e desenhos de abordagens. Incluir um momento de alinhamento de visões sobre o problema estudado, realizar um piloto ou fazer trabalhos de campo são boas opções, mas restrições de projeto, como tempo e orçamento, podem não permití-los e então o perfil analítico do profissional vai ser fundamental. Nestes casos, delinear uma robusta análise de contexto e identificar critérios de similaridade deverá ser fruto de reflexões e da provocação de perguntas assertivas durante o projeto para a abordagem dos experimentos,  a fim de que possamos caminhar na identificação de intervenções com maiores possibilidades de aplicação e replicação para a nossa realidade socioeconômica. 

Antonio Claret – Escola Nacional de Administração Pública (ENAP)

Fomentando a cooperação horizontal entre países em desenvolvimento, tanto para incentivar a produção teórica inserida no contexto desses países quanto para o intercâmbio de práticas de aplicação de insights comportamentais em políticas públicas.

Cesar Rocha – Universidade de São Paulo

Expandindo-as, tanto quando o possível, a audiências não-WEIRD. Só essas audiências saberão por quais fins, e também com quais meios, uma ciência comportamental menos WEIRD deveria operar. Creio que iniciativas de divulgação científica podem ajudar bastante.

Gabriel Inchausti – InBehavior Lab

Relaciono a pergunta com o desafio da replicabilidade das descobertas do nosso campo de estudo. 

Se conseguirmos olhar para as conclusões de um paper como um ponto a ser desafiado e refutado com novos papers teríamos um interessante caminho de evolução: questionar conclusões, instrumentos e replicar muito… acredito que isso seria uma forma de fazer mais robusto o nosso entendimento do comportamento humano.

Carlos Mauro – CLOO Behavioral Insights Unit

Desde há alguns anos, tem havido esforços importantes no sentido de tornar as ciências comportamentais menos WEIRD. Muitas questões são importantes, mas destaco, no contexto desta publicação, dois elementos: (i) a necessária cooperação/ parceria entre laboratórios, empresas e pesquisadores — essa cooperação é muito importante para que estudos originais e replicações sejam operacionalizadas em contextos culturais diferentes; (ii) procurar deixar de lado alguma de nossa vaidade — quando participamos de estudos com muitos autores, temos necessariamente de aceitar ser apenas mais um em um conjunto 20, 30, 40 autores, ou até com mais de 50, como nesta replicação na qual estive envolvido “Registered Replication Report: Rand, Greene & Nowak (2012)”. Para além das necessárias competências científicas e das motivações éticas, é preciso cooperar e muitas vezes aceitar um papel coadjuvante.

Carol Franceschini – Banking Standards Board

Novamente, só posso falar de minha própria observação, fora do Brasil. O tema da inclusão e diversidade tem se tornado menos marginal e cada vez mais central nas conversas e literatura que tenho contato. Acho que a grande mudança de tom tem sido no sentido de que inclusão não se justifica (apenas) por argumentos Morais do tipo ‘essa é a coisa justa a fazer pelos outros’, mas por argumentos ligados a própria competitividade e sobrevivência das empresas e da ciência comportamental. Em termos de competitividade, vários estudos têm demonstrado que diversidade é fundamental para a inovação e para evitar diversas formas de ‘cegueiras’ que podem acontecer quando decisões são tomadas por um grupo homogêneo de pessoas. Nesse ano, um grande banco de investimentos americano publicou um estudo demonstrando que os fundos de investimento com mais diversidade de gênero produziram retornos e/ou evitaram perdas de forma muito mais eficiente do que fundos administrados exclusivamente por homens, brancos, educados em universidades de prestígio (weirds). A maior dificuldade nesse sentido, pelo menos no setor financeiro (mas não apenas) e entender como identificar, atrair e reter diversidade. Muito do sistema de recrutamento e progressão de carreira ainda está baseado em concepções ‘weird’ de comportamento e desempenho. Esse é um grande desafio em que a EC tem muito a contribuir

Rafael Jordão – Consultor independente

O uso da tecnologia pode ser uma forma para acessar outro lado do planeta. Porém em locais de baixa renda ainda dependemos de cientistas visitarem os locais para isso, e não sabemos quando esse trânsito entre países voltará ao fluxo normal. Portanto ainda fico com a tecnologia e pontes entre diferentes universidades ao redor do mundo.

Guilherme Lichand – Movva

Acho essa pergunta um pouco ignorante (com todo o respeito) a respeito das pesquisas em Behavioral Development. Cito, por exemplo, estudos bastante comportamentais no Malawi e Costa do Marfim. Aqui o mais recente.

Outros estudos relevantes:

Juliana Brescianini – The World Bank

A desigualdade está no cerne dos grandes desafios globais e, assim se apresenta também no contexto das ciências comportamentais. Já sabemos que o contexto importa e muito! Dessa forma, a generalização de resultados de pesquisa pode ser realmente perigoso. A fim de podermos ampliar o alcance dos resultados das pesquisas da nossa área, é necessário ampliar os estudos (e replicações) nos contextos não-WEIRD, de forma sistemática e contínua. É necessário integrar variados métodos de pesquisa e aplica-las nas mais diversas populações, e de forma interdisciplinar. Pesquisadores têm de questionar continuamente seus próprios vieses e crenças e exercitar, cada vez mais, a empatia, incentivando a replicação de estudo em contextos variados e com populações diferentes.

Tainá Pacheco – (011).lab – Prefeitura de São Paulo

Democratizando a prática. Da minha perspectiva de setor público, acredito que seja importante ter pessoas com formação e histórias de vida múltiplas nas equipes que aplicam ciências comportamentais. Apenas a diversidade conseguirá trazer novos pontos de vista e tirar o viés existente nas soluções WEIRD.

Flora Pfeifer – Movva

Penso que uma iniciativa em rede para unir unidades e organizações de ciências comportamentais do sul global seria extremamente útil. Unir esforços para compartilhar aprendizados e desafios, replicar experimentos de campo e aumentar a visibilidade do que está sendo feito nestes contextos. Temos experiências riquíssimas em locais como África do Sul, Índia e Peru, cujas aplicações certamente assemelham-se a desafios no Brasil, mas há pouca  atividades de disseminação e comunicação de tais esforços (pelo menos a meu ver). Eventos que reunam essas unidades, atuação em rede para disseminar aprendizados e eventualmente esforços coordenados de experimentos de campo – esses são os caminhos, a meu ver.  

Guilherme Lima – Ponto Futuro

 Acho que um ponto importante nessa discussão é qualificar o quão “weird” o Brasil realmente é. Um artigo recente sugere que sim, somos razoavelmente “weird”. Mas, a questão de fundo para mim é: como os elementos de contexto dos problemas brasileiros afetam a efetividade de intervenções comportamentais testadas em outras sociedades? A única forma de saber é testar e pesquisar e pesquisar e testar. Acho que já está claro para todos com alguma experiência de campo no Brasil, que, por mais inteligente que o conceito de normas sociais seja, no Brasil ele funciona pouco ou nada, pelo menos nos desenhos aplicados em países anglo-saxões ou nórdicos. Por outro lado, minha experiência indica que intervenções baseadas em princípios de reciprocidade podem ser um caminho interessante aqui. Em resumo, mais do que tentar estabelecer verdades universais sobre grandes populações (que são heterogêneas, em todo o caso) devemos procurar entender melhor o contexto em que estamos inseridos.

Fabio Ismerim – Cogitus Intelligence

Divulgação científica aos moldes de Carl Sagan: cada vez mais acessível, participativa e levá-la para fora da academia sem deixar o rigor científico de lado.

Roberta Muramatsu – Universidade Presbiteriana Mackenzie

Acho importante destacar mais que as behavioral sciences não são panaceia e vieram para ficar porque expandem nossa compreensão de problemas multifacetados. Porém, acho que já estamos no momento  de fazermos também leituras críticas de algumas propostas de intervenções. O próprio Sunstein tem tentado incorporar críticas aos nudges. Acho fundamental reconhecer em 2021 os alcances mas TAMBEM AS LIMITAÇÕES das ciencias comportamentais. Precisamos avançar as pesquisas aplicadas inter e multidisciplinares e deixar cada vez mais claro que as ciencias comportamentais sáo mais evolucionárias do que revolucionárias. Mais complementaridade do que rivalidade.

Anderson Mattozinhos – Geekonomics.com.br

As Ciências como um todo precisam adequar a linguagem e forma de trabalho. Leio muita pesquisa em que a preocupação principal é com a forma do trabalho, o rigor técnico e formatação de evidências. Não há no entanto um link com aplicações práticas. Penso que esta deveria ser uma preocupação dos pesquisadores: deixar claro onde a descoberta quer chegar, o que investiga, com qual motivo e como isso pode ser aplicado na prática.

Há uma tendência de simplificação dos artigos científicos publicados, isso é bom, mas a academia precisa entender que simplificação não é apenas reduzir o tamanho das publicações, nem transferir os dados para o anexo. Precisa haver maior clareza dos achados e de suas aplicações.

Outro ponto que pode tornar as Ciências Comportamentais menos weird é ampliar o campo de estudo. Temos muitos problemas estruturais no país e no mundo que podem ser resolvidos com a ajuda das Ciências Comportamentais, mas temos visto que o interesse incial se concentrou em fazer as pessoas pagarem impostos em dia, doar mais órgãos e incrementar suas poupanças. Vemos ainda pouca inserção das metodologias e conhecimentos das Ciências Comportamentais para ajudar no combate à pobreza, desmatamento, educação de baixa qualidade e metodologias mais eficazes de ensino, etc.

Flávia Ávila – InBehavior Lab

Está acontecendo um intercâmbio saudável entre pesquisadores, órgãos internacionais e centros de pesquisa, proporcionando que agentes locais liderem os experimentos – pessoas que têm contato mais direto com o campo onde será implementada aquela intervencao falando uma linguagem simples, clara e que conseguem interpretar os dados do jeito que eles vem da ponta. Um exemplo dessa importância é a etapa experimental de determinar os indicadores a serem analisados: isso é necessario que seja feito com quem está na ponta, até para poder criar uma matriz de mitigação de riscos para se alguma coisa acontecer, ter mais agilidade na resposta.

Nao vejo outra solução a não ser pegar pessoas experientes nessa area, que consigam fazer esse elo da ponta. Vejo um grande movimento na América Latina nesse sentido, pessoas se juntando para atacar esses pontos e tornar as ciências comportamentais menos “weird” e acredito muito nesse poder de grupo para realizar essa transformação na próxima década.

Vera Rita Mello Ferreira – Vértice Psi

Aqui no Brasil a gente nem é tudo isso, né… mas teria que fazer um trabalho de raiz – oferecer mais oportunidades de educação desde o início, abrir mais para quem não é ‘weird’ – só nesse sentido! – e ter uma perspectiva mais inclusiva.

Também é importante investir mais em linhas de pesquisa na academia – preparando professores para isso antes – e acolher agendas/pautas nessa direção, fora do ‘weird’, no setor público e no debate da sociedade como um todo, assim como premiações e visibilidade (redes sociais, cursos, eventos etc.) podem ser incentivos úteis.

Por fim, também trocar mais com outros países/pesquisadores, mais trocas com América Latina, por exemplo, que está aqui ao lado, além de outros, como países lusófonos, etc.

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