Retrospectiva 2020 / Perspectiva 2021: olhando para trás e forjando o futuro – Parte 2

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Por Artur Mascarenhas em dezembro 9, 2020

Seguimos com nossa série de posts em que 17 cientistas comportamentais brasileiros responderam a nossas perguntas.

O primeiro post da série trouxe a pergunta “Qual foi sua leitura favorita em 2020?“.

A pergunta de hoje é: Como você avalia a aplicação dos conhecimento das Ciências Comportamentais no Brasil e no mundo em 2020?

(respostas apresentadas em ordem aleatória)

Guilherme Lichand – Movva

O conhecimento (e sua aplicação) avançou, sobretudo com o estudo RCTs to Scale: Comprehensive Evidence From Two Nudge Units (2020), de Stefano DellaVigna e Elizabeth Linos.

Guilherme Lima – Ponto Futuro

Foi sem dúvida um ano marcante. No Brasil, surpreendeu positivamente o número e diversidade de iniciativas de aplicação, discussão e disseminação de ciência comportamental em políticas públicas. Pela primeira vez, vi um anúncio de vagas requerendo uma pós-graduação na área – o que não deixa de ser um marco importante. No plano global, foi um ano onde as dores do crescimento do campo ficaram evidentes. O papel ainda não totalmente claro de cientistas comportamentais na definição da resposta à COVID-19 no Reino Unido forçou e acelerou uma discussão importante e necessário sobre a humildade epistemológica e os limites do campo.

Rafael Jordão – Consultor independente

Confusa, que diga o BIT. A pandemia acabou fazendo algumas responsabilidades caírem nas ciências comportamentais como se essa fosse uma tábua de salvação. O ato de usar máscaras, se isolar e se higienizar são, de fato, questões comportamentais que influenciam e auxiliam no combate ao Coronavírus, porém é difícil ter respostas prontas para problemas novos. Como influenciar o comportamento em nível mundial?

Carlos Mauro – CLOO Behavioral Insights Unit

No Brasil, tenho visto com satisfação e atenção aquilo que algumas organizações têm feito. Existem projetos interessantes que têm estimulado o crescimento do interesse nas Ciências Comportamentais. 2020 parece-me ter também ficado marcado pelo grande aumento de pessoas interessadas pela compreensão e aplicação das Ciências Comportamentais. No mundo, parece-me claro que as aplicações das Ciências Comportamentais já são uma realidade inevitável e sustentável. Penso que organizações como IDB (BID), World Bank, OECD, entre outras, têm desenvolvido cada vez mais projetos em áreas cada vez mais diversas. BIT; Ideas 42, Busara, entre outras organizações, vêm também expandindo seus mercados e suas áreas de atuação. Entretanto, chamo a atenção para o contexto Holandês que tem muitas empresas de aplicação das Ciências Comportamentais, assim como excelentes centros de pesquisa e ensino. Para os brasileiros interessados, é um excelente contexto científico e profissional. Somam-se a esse cenário as iniciativas governamentais que pouco a pouco vão surgindo em mais países europeus, mas também na Ásia e em algumas experiências pontuais na América Latina. O movimento de expansão em 2020 pareceu-me largo e inequívoco.

Rafaela Bastos – NudgeRio

Não tenho conseguido acompanhar como eu gostaria, tampouco acho que possa dar uma opinião com esta visada tão ampla. Mas, a partir da perspectiva da vivência que tenho realizado na área, vejo cada vez mais pessoas e instituições abordando temas e propondo aplicações dos conhecimentos das Ciências Comportamentais. E neste momento tão importante de reconhecimento da sua aplicabilidade também devemos estar atentos e sermos responsáveis com a forma como aplicamos os conhecimentos. 

Particularmente na gestão pública, noto que é desafiadora a aplicação da teoria na prática e não se trata da obrigatoriedade de saber tudo e todos os conceitos. A teoria não vai dar conta de todas as nossas experiências, mas para que as proposições em ambiente acadêmico sejam aplicáveis é preciso estreitarmos mais as parcerias e projetos de extensão com instituições acadêmicas e avaliarmos o que temos desbravado na gestão pública. Este caminho nos ajuda a solidificar ou criar novos campos e perspectivas analíticas para compreendermos a nossa de aplicação, produção do conhecimento e como temos conseguido realizar projetos e intervenções na área. 

Anderson Mattozinhos – Geekonomics.com.br

Em 2020, tivemos um aumento da visibilidade da área o que serviu para aumentar e muito a oferta de serviços baseados em insights comportamentais. Não foi um ano fácil, no entanto. Tivemos um aumento das críticas, com ápice, a meu ver, com o equívoco na condução da pandemia pelo Reino Unido, justificado por orientações de cientistas comportamentais. Claro que isso foi amenizado com a carta publicada com mobilização de muitos dos expoentes da área, mas acredito que deixou ainda alguma desconfiança na área. Tivemos ainda as duras críticas em relação à ergodicidade e uso de modelos estatísticos de maneira indiscriminada em produções científicas, que acho ser um dever de casa necessário e uma evolução aos estudos futuros na área. A fundamentação estatística precisará ter mais atenção e entendimento por parte dos pesquisadores.

No Brasil, tivemos uma proliferação do uso de insights num movimento muito parecido com o que aconteceu no mundo (acho). No entanto, ainda percebo que a área ainda é bem incipiente no país. Percebo que há uma evolução e foco maior na área no Brasil para aplicação de insights e experimentos na gestão pública e para criação de políticas públicas. No mercado privado ainda vejo alguma limitação, mas com alguns players já buscando pessoas para integrarem equipes e formando mão-de-obra própria ou criando departamentos internos dedicados à Economia e Ciências Comportamentais.

Flora Pfeifer – Movva

Podemos dizer que 2020 foi um ano atípico. As mudanças exigidas em razão da pandemia evidenciaram a relevância de se estudar comportamentos e a área ganhou destaque na mídia e em centros de governo pelo mundo. Por outro lado, a necessidade por respostas práticas a certas perguntas mostrou suas limitações e os caminhos que ainda devem ser seguidos. Algumas pautas que vi crescerem foram a defesa por sludge audits, em especial, visando reduzir disparidades sociais, a necessidade de ampliar a diversidade das amostras e replicações em contextos non-WEIRD e o esforço para consolidar estudos em análises mais amplas para ver o real impacto das aplicações de ciências comportamentais (vide paper da Linos e DellaVigna publicado esse ano) – assuntos de suma importância.  

No Brasil, o campo ganhou força, ainda que de maneira tímida. Observei crescentes esforços de aplicação dos insights comportamentais no setor público. O meio online permitiu uma mobilização maior em eventos da comunidade, bem como a conexão com atores internacionais, aumentando a visibilidade do tema. 

Roberta Muramatsu – Universidade Presbiteriana Mackenzie

Não tenho muito como avaliar como anda a aplicação da economia comportamental no Brasil e no mundo, mas posso fazer um relato sobre minha experiência como professora. Muita gente tem se interessado pelas lições que podemos tirar da BE para repensar questões como a corrupção, a defesa da concorrência, enfrentamento da pandemia, etc.  Eu mesma tenho sido procurada por pessoas que querem compreender todas as questões difíceis. Sempre digo que a economia comportamental não tem como lidar com tudo, mas oferece um chamado a nossa humildade intelectual. Precisamos integrar as perspectivas analíticas, rever conceitos, teorias e metodologias. Como Hayek já destacou, nosso conhecimento é local, disperso, dependente do seu tempo e contexto, por isso é falível (e potencialmente refutável, algo fundamental, eu acredito). Neste último ano, vejo alunos de graduação e mestrado trabalhando questões como insights comportamentais para compreender o comportamento financeiro das pessoas no contexto de pandemia como, por exemplo, um projeto de dissertação sobre a influência das redes sociais no comportamento dos novos investidores no mercado de ações. Muita gente também tem pensado a beça sobre insights comportamentais para a política pública em tempos de pandemia. Este é um tema que me atrai muito. Várias pessoas estão gente estudando isso fora do Brasil e torço para que mais gente por aqui também embarque nisso. Queria conversar e quem sabe fazer pesquisa com pesquisadores e gestores de saúde pública. Sinto que temos muito terreno para desbravar. Para mim,  também é importante estudar as falhas de governo interpretadas pelas “lentes comportamentais”.

Vera Rita Mello Ferreira – Vértice Psi –

Estou na área desde 1994, então dá para imaginar a minha empolgação agora, não é? Tudo isso que o pessoal vem fazendo, mais concretamente, tanto em esferas municipal quanto federal é MUITO legal!!!

Além disso, destaco as diversas conferências, materiais didáticos, relatórios sobre aplicações de insights comportamentais e vários trabalhos com instituições governamentais. O interesse sé cresce!

Vejo cada vez mais pessoas querendo conhecer a área e começando a pensar sobre como aplicar fora de marketing. Um exemplo é o crescimento nas aplicações em educação financeira.

Cesar Rocha – Universidade de São Paulo

Situações de crise escancaram as mazelas de qualquer sociedade, e a pandemia da Covid-19 não foi exceção. Se eu tivesse de destacar algo nesse ano, certamente seria o papel das ciências comportamentais no enfrentamento à emergência viral. Para o bem ou para o mal, as ciências comportamentais estiveram no foco em momentos diversos. Desde em iniciativas conjuntas de pesquisadores de múltiplos centros como, por exemplo, o estudo “Using social and behavioural science to support COVID-19 pandemic response” (Van Bavel et al., 2020), até decisões políticas controversas, supostamente informadas por ciências comportamentais, e a subsequente reação da sociedade civil, vide o caso das medidas inicialmente adotadas pelo governo britânico, e o recuo subsequente. Avalio que as ciências comportamentais em 2020 estiveram onde deveriam estar: onde quer que haja comportamento – e quando se trata do comportamento de bilhões de indivíduos, os centros de poder e dos processos de tomada de decisão são lugares importantes a ocupar.

Fabio Ismerim – Cogitus Intelligence

No Brasil é ainda incipiente de uma maneira geral, mas caminhando pra frente. Por conta do baixo desenvolvimento do país em P&D, ainda nem começamos a engatinhar quando se trata de utilizar as Ciências Comportamentais como ferramenta para solução de problemas em média e larga escala, se compararmos a Europa e América do Norte. O ano de 2020, por conta da pandemia, retardou ainda mais os possíveis avanços que poderíamos ter aqui e lá fora, ainda que tenhamos visto um ou outro “case” por aqui.

Juliana Brescianini – The World Bank

Ninguém esperava de 2020 tantas surpresas e aprendizados. A pandemia veio de forma repentina e mudou nossas vidas para sempre. Tivemos de nos adaptar sem planejamento e responder às novas demandas de forma rápida e certeira. Sem dúvidas, as reflexões para lidar com a pandemia, colocou o uso das ciências comportamentais em destaque, pois diversas soluções e/ou medidas de prevenção se baseiam no comportamento das pessoas. Colocou-se o usuário/as pessoas no centro das decisões em busca de soluções mais eficazes. Fiquei satisfeita e animada em perceber o crescimento do debate em relação à necessidade de diagnosticar corretamente o problema, da necessidade de identificar as barreiras para o comportamento esperado (e mapear os vieses e heurísticas envolvidos) para então partir para as possíveis soluções, partindo das experiências de outros pelo mundo e em evidências, mantendo um processo contínuo de avaliação e adaptação, em busca de impactos positivos e mais permanentes.

Carol Franceschini – Banking Standards Board

Não tenho como avaliar a aplicação de EC no Brasil pois estou morando fora do país há anos. Apenas escuto as notícias de longe, mas minha impressão é de que muitas novas iniciativas estão ‘pipocando’ pelo país. Como um nudge – que na essência significa pequenas mudanças causando grandes impactos – me parece que o que ocorre no Brasil hoje em dia tem sido um pequeno mas influente grupo de pensadores e pesquisadores têm causado um grande impacto. Mas, repito, essa é uma impressão de quem tem observado de fora. No mundo, ou mais exatamente em países mais desenvolvidos como o Reino Unido, alguns países europeus e em parte nos EUA, cada vez mais eu vejo a EC influenciado a formulação de políticas públicas, o que para mim é um movimento essencial! A grande ironia da EC é que a ciência onde ela parece exercer a menor influência até hoje é a própria Economia. Talvez o ditado ‘casa de ferreiro, espeto de pau’ ajude a descrever isso. EC influenciou a Psicologia, Administração, Neurociências, Finanças, Programação, Marketing, etc, mas economistas têm uma tendência a olhar EC como sendo uma ‘filha rebelde’. Quando vejo EC entrando com tudo no panteão máximo dos economistas- política pública e social, análise macroeconômica etc – fico cheia de esperanças de que a tal filha rebelde está definindo novas fronteiras para o futuro.

Flávia Ávila – InBehavior Lab

A pandemia trouxe muitas dificuldades, mas também trouxe uma aproximação muito especial com diversos pesquisadores internacionais, com a proliferação de webinars e tantos outros eventos remotos, proporcionando uma troca bem mais rica entre pesquisadores brasileiros e lá de fora, o que com certeza será muito valioso para a área de aplicação aqui no Brasil.

Aqui no Brasil, a área ganhou bastante espaço com iniciativas de educação e formação voltadas para aplicações para políticas públicas. Acredito que 2020 foi um momento de propagação da área e fortalecimento de parcerias que possam expandir cada vez mais a pesquisa em 2021, muito prejudicadas pela pandemia, com tudo que pôde ser discutido nesse ano.

Gabriel Inchausti – InBehavior Lab

Acredito que o aumento da oferta acadêmica para estudar no campo é testemunha do crescente interesse de encontrar ferramentas “não tradicionais” no desafio das políticas (sejam públicas ou privadas). 

Acredito esse ser um grande avanço, mas deve vir da mão da curiosidade por entender a origem do comportamento e de pensar no verdadeiro bem-estar do indivíduo. 

Como professores, podemos propor nudges para que os alunos não usem o celular na aula, mas também podemos tentar melhorar nossa didática e fazer da aula algo mais relevante e mais divertida (um caminho é mais fácil que o outro)… Vale policiarmos para que o enfoque comportamental não acabe nos dando licença para deixar de procurar entender o que as pessoas realmente querem.

Antonio Claret – Escola Nacional de Administração Pública (ENAP)

A tônica de 2020 foi dada pela pandemia da COVID-19. Primeiro, com o bombardeio sofrido pelo posicionamento inicial do governo britânico, alegando evidências científicas sobre fadiga comportamental para adiar a adoção de medidas rígidas de distanciamento, e a carta aberta assinada por 681 cientistas comportamentais, criticando essa suposta evidência. Nos meses seguintes, o que se viu foi um esforço global de entender como as ciências comportamentais poderiam ajudar a lidar com os múltiplos desafios comportamentais impostos pela pandemia: hábitos de higiene, etiqueta respiratória, aderência ao distanciamento social, efetividade da comunicação sobre evidências científicas e o problema das fake news, crenças e atitudes sobre o esperado processo de vacinação, etc. O resultado foi uma aceleração da produção científica e da publicação de guias por universidades, agências e organismos internacionais, como a OMS, que tem dado uma grande visibilidade à contribuição que o nosso campo pode oferecer no contexto da pandemia. 

Tainá Pacheco – (011).lab – Prefeitura de São Paulo

O campo se envolveu em algumas polêmicas esse ano. A gestão da crise sanitária na Inglaterra mostrou que as ciências comportamentais não são uma bala de prata para todos os problemas, e sim que precisam sempre estar alinhadas com conhecimentos e aplicações de outras áreas. As análises do comportamento devem existir para somar, e não para substituir. Ao mesmo tempo, em muitos lugares ficou clara a importância dessa integração e de com as ciências comportamentais podem ajudar em momentos de crise.

Um exemplo foi um experimento realizado aqui no Brasil, que buscou entender se uma comunicação direta com a(o) cidadã(o) conseguiria deixar a população mais informada sobre as medidas de prevenção ao contágio e mudar o comportamento em relação à prevenção ao COVID-19. Os resultados indicaram que os SMS são uma ferramenta efetiva, e muito barata, para informar a população. E vimos que a melhora na informação pode ter efeito em comportamentos como uso de máscara. Essas evidências possibilitam conseguir financiamento externo para envio de mensagens para quase 3 milhões de pessoas na cidade de São Paulo. Essa aplicação de ciências comportamentais vai ser suficiente para lidar com a pandemia? Não, mas com certeza ajuda quando aliada de outras ações da Secretaria de Saúde, por exemplo.

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