Retrospectiva 2020 / Perspectiva 2021: olhando para trás e forjando o futuro

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Por Artur Mascarenhas em dezembro 7, 2020

À medida que nos aproximamos de virar a folhinha do calendário, é natural sentir a necessidade de  refletir o quanto caminhamos na área da Ciência Comportamental no ano que termina e vislumbrar caminhos para o ano que vem.

Para isso, convidamos diversos pesquisadores e praticantes de ciências comportamentais para refletir sobre alguns pontos de destaque na produção e atuação das ciências comportamentais durante o ano de 2020, além de um exercício de perspectiva sobre o que está por vir no ano que vem.

As respostas serão apresentadas em uma série de 4 posts em que nossos 17 convidados apresentarão seus insights, para que possamos saber um pouco mais de seus pontos de vista sobre passado, presente e futuro na área.

No primeiro post, convidamos nossos participantes a listarem suas leituras favoritas durante 2020.

(respostas serão apresentadas de forma aleatória)

Flora Pfeifer – Movva

Gostei muito do livro do Hallsworth e da Kirkman Behavioural Insights, lançado em setembro. Eles trazem descrições detalhadas sobre o trabalho realizado no Behavioural Insights Team, no Reino Unido. Foi super interessante saber mais sobre como a agenda de insighst comportamentais adentrou o setor público, uma vez que a organização foi pioneira no tema, e como foi a tomada de certas decisões estratégicas que moldaram os caminhos da área. Além disso, trazem reflexões e discussões de ponta sobre as limitações e as próximas “grandes perguntas” para o campo. Um must-read para qualquer um que queira aplicar ciências comportamentais em organizações e, em especial, no setor público!  

Guilherme Lichand – Movva

Modeling Imprecision in Perception, Valuation, and Choice (Woodford, 2020)

O Michael Woodford tem liderado uma agenda de formalização de vieses de percepção, codificação e decodificação que tem potencial de gerar um arcabouço analítico integrado — inédito até aqui — para estudar vieses comportamentais, suas implicações, e o papel de diferentes intervenções. Esse modelo resolve uma série de puzzles (como aversão ao risco mesmo quando os stakes são muito baixos) e prevê uma série de novos fatos estilizados (como efeitos de contraste, que aparecem em modelos de salience, mas com estrutura bastante ad hoc).

Antonio Claret – Escola Nacional de Administração Pública (ENAP)

Gostei muito do livro Behavioral Insights de Hallsworth & Kirkman. Além de ser uma excelente introdução ao campo, apresenta algumas dos principais questionamentos metodológicos e éticos feitos à abordagem comportamental e aponta linhas interessantes de desenvolvimento futuro. Os autores sugerem como abordagens como design thinking e sistemas adaptativos complexos (complex adaptive systems) podem contribuir para pensarmos em intervenções sobre problemas que se situam para além da análise de comportamentos individuais isolados.

Guilherme Lima – Ponto Futuro

Confesso que esse ano, em modo sobrevivência, não possibilitou leituras tão profundas, infelizmente. Em termos de livros, tenho ficado mais naqueles que discutem aplicações práticas e em escala de insights comportamentais. O Behavioural Business do Richard Chattaway é o destaque do ano, mas o que li na virada de 2019 para 2020, Alchemy, do Rory Sutherland é brilhante. Com relação a artigos, destaco dois mais próximos da minha área de interesse em bem-estar subjetivo: um de um grupo de pesquisadores irlandeses sobre a aplicação do Daily Reconstruction Method para avaliar as atividades que geraram mais ou menos bem-estar durante o lockdown, e um paper liderado pelo Richard Layard empregando métricas de bem-estar como a “métrica-alvo” para avaliar o ponto ótimo para a liberação do lockdown no Reino Unido, pesando os custos e benefícios de cada alternativa (p.ex. convertendo os custos de saúde e econômicos em bem-estar)

Tainá Pacheco – (011).lab – Prefeitura de São Paulo

Inside the Nudge Unit: How Small Changes Can Make a Big Difference, David Halpern.

Como sou consultora para o setor público, e no momento, discutimos como institucionalizar e expandir os projetos de ciências comportamentais no governo, ler esse livro me ajudou a enxergar com mais clareza os passos que podemos dar. David Halpern conta como foi a criação da “nudge unit” britânica, discute os desafios políticos de implementar algo inovador e apresenta diversos projetos que podem ser utilizados por outros governos. Acho que é leitura obrigatória para quem trabalha com ciências comportamentais no setor público.

Gabriel Inchausti – InBehavior Lab

A pandemia pegou a nossa agenda e um dos artigos que eu me achei usando com mais frequência foi Nudging in Public Health Lifestyle Interventions: A Systematic Literature Review and Metasynthesis (Ledderer et al., 2020). Tem uma revisão bibliográfica que achei válida para enquadrar alguns aportes.

Mesmo assim, vale o toque que tivemos nos primeiros dias da pandemia para relembrarmos que cada ferramenta tem seu tempo e não devemos achar que tudo é para ser resolvido como um problema exclusivamente comportamental.

Por outro lado, e já mais perto das minhas áreas de interesse, deveria marcar duas leituras que foram bem provocadoras para mim:

Culture and student achievement: The intertwined roles of patience and risk-taking (Hanushek et al., 2020) , que trabalhara com a pesquisa global de preferências analisando o efeito da ansiedade nos resultados académicos.

Measuring time preferences (Cohen et al., 2020) apresenta um maravilhoso resumo de onde esta hoje nosso entendimento das preferências de tempo.

Rafael Jordão – Consultor independente

O melhor livro que li este ano foi Rationality for Mortals do Gerd Gigerenzer. Ele faz um contraponto ao trabalho do Kahneman de forma muito lúcida e abre nossa cabeça para uma abordagem não diferente, mas interessante. Os capítulos relacionados à estatística valem o livro. Recomendo fortemente a leitura. Fazendo um jabá, gostei de ter feito o e-book introdutório de economia comportamental para leigos, portanto gostei dele também.

Flávia Ávila – InBehavior Lab

Uma leitura que foi, para mim, um pouco diferente, até do ponto de vista de algumas questões-chaves em ciências comportamentais e nudges, mas com algumas reflexões que concordo foi The Power of Experiments, do Michael Luca e do Max Bazerman.

Juliana Brescianini – The World Bank

Pergunta difícil essa.. Vou citar um guia que não é novo, mas que eu só li em 2020: A User’s Guide to Debiasing. Além de atemporal, me parece bastante oportuno no momento de incerteza que a Pandemia nos apresenta hoje. O guia tenta direcionar o leitor a melhorar a tomada de decisão, promovendo uma discussão sobre vieses e suas origens, navegando pelo entendimento sobre a condições envolvidas nas decisões e então, apresenta algumas técnicas para desenviesar o processo de tomada e decisão, de um ponto de vista pessoal/individual ou por meio de mudanças no ambiente, tudo com embasamento científico e evidência. O guia é de fácil leitura e proporciona técnicas de aplicação simples. Vale a leitura e vale ainda experimentar algumas da técnicas recomendadas.

Carol Franceschini – Banking Standards Board

Minhas leituras favoritas não são livros lançados nesse ano, apenas livros que li em 2020: Narrative Economics, do Robert Schiller – renovou minha admiração por esse brilhante economista que sempre está a frente do tempo e pensando ‘fora da caixinha’. Ele nunca da respostas prontas, na verdade ele tende a trazer mais perguntas do que respostas e terminamos a leitura com uma curiosidade renovado sobre o mundo. Outra leitura: Taking the Floor, de Daniel Beunza. Não seria um livro exatamente de economia comportamental (ele se baseia em um método de pesquisa que vem da Antropologia chamado Etnografia), mas há pontos claros de contato. Estudou o ambiente de um banco de investimento e descreveu como o ambiente social e físico determina a dinâmica comportamental nesse mercado. Lindo estudo! Eu escrevi um post no LinkedIn sobre minhas reflexões sobre esse livro.

Rafaela Bastos – NudgeRio

Tenho optado por leituras que me instrumentalizam na análise do contexto das intervenções, assim, ultimamente revisito a produção de conhecimentos geográficos que envolvam a temática do comportamento, como a Geografia dos Corpos. Mas, duas leituras que gostei muito e são específicas da área são MisBehaving –  The Making of Behavioral Economics, de Richard Thaler e o artigo ‘Putting Nudges in Perspective’ escrito por George Loewenstein e Nick Chater, que é uma reflexão sobre o fato de que o conceito de Nudge pode estar se confundindo e em alguns casos equivalente ao ao arcabouço teórico da Economia Comportamental como um todo, o que é um equívoco.

Roberta Muramatsu – Universidade Presbiteriana Mackenzie

Neste ano, não tive tempo de acompanhar todos os novos artigos. O material que mais gostei foi o livro do Sunstein da Cambridge University Press, o Behavioral Science and Public Policy. Creio que ele pode ser um bom roteiro ou mesmo manual para pensarmos em discutir insights comportamentais para a política pública.

Cesar Rocha – Universidade de São Paulo

Gostei bastante de um artigo publicado por uma dupla de pesquisadores, Samuli Reijula (University of Helsinki) e Ralph Hertwig (Max Planck Institute), sobre o que chamaram de “auto-nudging”. Eles desenvolvem o argumento de que formuladores de políticas envolvidos com nudges poderiam investir mais em intervenções que habilitassem o cidadão a ser arquiteto de suas próprias escolhas. A ideia seria investir em campanhas sobre estratégias que aumentem o potencial de autocontrole e o exercício da autonomia. Com o indivíduo arquitetando os seus próprios nudges, o problema da heteronomia, inerente a toda abordagem paternalista (mesmo no caso do paternalismo libertário), poderia ser contornado. Em aspectos, engloba alguns argumentos “batidos”, como os que Sunstein já vinha discutindo há alguns anos por meio da expressão “means paternalism” – o que não diminui a relevância da publicação.

Vera Rita Mello Ferreira – Vértice Psi

Muita coisa interessante: A Psicologia do Dinheiro, do Ariely e co-autor, Pescando Tolos, de Shiller e Akerloff, os artigos do curso de Arquitetura de Escolha do BID, e, aqui no Brasil, o SimplesMente.

Mas, acima de tudo, me viciei nos vídeos dos grandes mestres, que eu sempre assisti, mas agora tem sido TODO DIA, um trecho, pelo menos: Shiller, Kahneman, Thaler, Sunstein, Loewenstein, Shafir, etc. Palestras, aulas, entrevistas, debates, tem muita coisa no YouTube!

Anderson Mattozinhos – Geekonomics.com.br

Don’t Overthink It: Make Easier Decisions, Stop Second-Guessing, and Bring More Joy to Your Life, da Anne Bogel

Fabio Ismerim – CienciaComportamental.com

Dois livros na área me chamaram muito a atenção. O primeiro é BIASED da PhD. Jennifer L. Eberhardt, professora do departamento de psicologia de Stanford. Uma das pautas que marcaram 2020 foi racial, principalmente após o caso George Floyd. Resolvi ler este livro após um tuíte da renomada cientista comportamental Katy Milkman recomendando sua leitura para entender mais sobre o racismo e violência policial contra os negros sob o aspecto psicológico. A autora passou anos atuando no treinamento de policias nos EUA para tentar entender as possíveis causas de tanta violência policial contra os negros na tentativa de reduzir tais eventos. O que se lê é uma obra importante sobre como o racismo e preconceito se formam, e como nossos vieses atuam no momento de alto stress na tomada de decisão em um ambiente violento, além dos fatores culturais e comportamentais que alimentam uma postura polarizada, culminando em um ambiente de conflito entre “nós” versus “eles”.

A segunda leitura, embora ainda não tenha terminado, é o livro The Nurture Effect, de Anthony Biglan. A obra aborda efeitos biológicos evolucionários e ambientais no comportamento e vice-versa. Entender o ser humano do ponto de vista da evolução da espécie, e o contexto inserido para que se possa realizar intervenções.

Carlos Mauro – CLOO Behavioral Insights Unit

Em 2020, as aplicações das Ciências Comportamentais às políticas de Diversidade & Inclusão e ao Direito (Behavioral Law and Economics) fizeram parte de um conjunto restrito de interesses de pesquisa. Normalmente, os artigos são os elementos centrais para o pesquisador, porém bons livros podem facilitar o trabalho mais específico. Por isso, sugiro dois livros:

Sobre o primeiro tema, gostei e sugiro o livro What Works: Gender Equality by Design, da Iris Bohnet (2016). O livro possui uma competente revisão da literatura científica e um conjunto relevante de aplicações práticas das Ciências Comportamentais ao tema da igualdade de gênero. Sobre o segundo tema, gostei e sugiro o livro Behavioral Law and Economics, de Eyal Zamir e Doron Teichman (2018). Logo ao início, na parte II do livro, os autores introduzem o leitor ao tema geral da behavioral law and economics, deixando para as outras três partes (11 capítulos) excelentes descrições das aplicações da Ciências Comportamentais a questões do Direito — vão do direito privado aos desafios comportamentais dos processos legais, passando pelo direito público.

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