Rápido, devagar e… criativo? O conceito do Sistema 3

Artigos | História e Metodologia

Por Artur Mascarenhas em novembro 24, 2020

Quem está um pouco familiarizado com as ciências comportamentais certamente já ouviu falar dos Sistemas 1 e 2, popularizados no excelente livro “Rápido e Devagar: duas formas de pensar” do Nobel de Economia, Daniel Kahneman.

O conceito de sistema dual de raciocínio (“reasoning”), como tratado na literatura da psicologia cognitiva, afirma que nosso sistema cognitivo trabalha com dois tipos diferentes de processos: um mais analítico e deliberado, mais lento e que consome mais energia (Sistema 2) e outro mais intuitivo e automático, mais rápido e que consome menos energia (Sistema 1). Um aprofundamento dessa discussão pode ser encontrado no trabalho de Stanovich & West (2000).

Embora esse modelo seja bastante aceito para diversas teorias posteriores nas ciências comportamentais, algumas vertentes teóricas julgam que a teoria do sistema dual não é suficiente para explicar todos os processos cognitivos de raciocínio e tomada de decisão. É o caso da vertente da Economia Cognitiva, que tem como um de seus expoentes o fundador da Cognitive Economics Society, Leigh Caldwell, criador do conceito de Sistema 3.

“What’s On Your Mind”

Segundo Kimball (2015), a Economia Cognitiva é definida, em termos práticos, como a teoria economia que trata do que está na mente das pessoas. Isso significa que ela utiliza dados “baseados em expectativas, escolhas hipotéticas, habilidades cognitivas e atitudes expressas.”, medidos por instrumentos de auto-relato e métodos psicométricos. Nesse sentido, a parte “cognitiva” reside em como prevemos nossas emoções de acordo com nossas escolhas e a parte “econômica” trata de como essas expectativas moldam comportamentos e decisões econômicas na prática. Em termos gerais, uma “economia do pensamento”.

Para os proponentes da Economia Cognitiva, nosso cérebro é uma máquina preditiva poderosa que, além de simular cenários e criar expectativas decorrentes de nossas decisões, também se atualizando com base no que se observa, criando o que pode ser tratado como heurísticas de afeto (Slovic et al., 2002).

Aqui entra o conceito de Sistema 3, de Leigh Caldwell. Para ele, é fundamental um diferente tipo de processo cognitivo – preditivo e afetivo – para a criação desse tipo de estímulo mental que propicie a previsão de estados afetivos decorrentes de escolhas hipotéticas. O tipo de processo do Sistema 3, portanto, não é automático ou inconsciente mas pode ser considerado ilógico e altamente relacionado com a imaginação e a criatividade.

“I Gotta Feeling”

Um dos objetivos da Economia Cognitiva é então não apenas prever ou direcionar como pessoas irão decidir, mas também como vão se sentir com cada um desses cenários. Uma maneira de representar esse tipo de objetivo são os “mapas de implicação”. Nele, podemos visualizar diversas alternativas para uma decisão e quais são os possíveis estados afetivos relacionados a cada uma delas:

Mapa de implicação. Fonte: Leigh Caldwell

Imagine que você vai comprar uma roupa. Os processos do Sistema 1 vão fazer com que você reaja à cor, ao modelo ou à marca do produto. Os processos do Sistema 2 farão com que você pense no preço do produto em comparação a similares, a quantas oportunidades você terá de usar essa roupa ou por quanto tempo poderá usar essa roupa antes que enjoe ou saia de moda.

No entanto, os processos do Sistema 3 farão com que você se imagine usando aquela roupa: qual será a sensação de usá-la, quão atraente ou confiante você se sentirá com ela, o que seu parceiro vai achar de você, como seu grupo social irá reagir. Todos esses fatores influenciarão na sua decisão de compra. É uma decisão baseada em um exercício de imaginação. O sistema 3, portanto, proporcionaria um processo cognitivo específico relacionando uma motivação futura – e hipotética – com uma decisão presente.

Junto e misturado

O Sistema 3 é, portanto, baseado na relação estímulo-resposta. Uma vez que sentimos o prazer (ou a dor) da consequência, traçamos o caminho “de trás para frente” a fim de identificar que decisões tomar para obtê-la ou evitá-la. Seu principal intuito é salientar a importância que a prospecção e a imaginação têm em nossas decisões.

Falando assim, não parece absurdo supor que as ações do Sistema 3 já estejam contempladas nos conceitos dos Sistemas 1 e 2. Afinal, por exemplo, o Sistema 1 também parte da relação estímulo-resposta. No entanto, enquanto o Sistema 1 é rápido e inconsciente, os processos do Sistema 3 são mais lentos e conscientes. Talvez seja também menos sistemático que ele. Da mesma maneira, os processos do  Sistema 2 podem contemplar decisões futuras e suas consequências, porém de maneira menos afetiva e mais sistemática que os processos do Sistema 3.

No fim das contas, todos esses sistemas são uma maneira de modelar – e, portanto, simplificar – processos cognitivos complexos. Dessa forma, o Sistema 3 também tem a importância de nos lembrar que existem mais do que apenas duas formas de pensar. 

Algumas referências:

Cognitive Economics Society: https://cognitiveeconomics.org/

Kimball, M. (2015). Cognitive economics. The Japanese Economic Review66(2), 167-181.

Slovic, P., Finucane, M. L., Peters, E., & MacGregor, D. G. (2002). The affect heuristic. In T. Gilovich, D. Griffin, & D. Kahneman (Eds.), Heuristics and biases: The psychology of intuitive judgment (pp. 397-420). New York: Cambridge University Press.

Stanovich, K. E., & West, R. F. (2000). Individual differences in reasoning: Implications for the rationality debate?. Behavioral and brain sciences23(5), 645-665.

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