Nudges e sludges: dois lados da mesma moeda

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Por Artur Mascarenhas em setembro 3, 2020

Em 2008, Richard Thaler e Cass Sunstein lançaram “Nudge”, livro extremamente conhecido dos praticantes de ciências comportamentais aplicadas, que traz dois conceitos fundamentais para a discussão atual sobre a prática de intervenções comportamentais: o paternalismo libertário, como abordagem filosófica ou política das intervenções comportamentais e o nudge, como aspecto de arquitetura de escolha diretamente ligado à ideia de paternalismo libertário, influenciando pessoas a escolhas “melhores” ainda que preservando sua liberdade de escolha.

É importante lembrar a definição de nudge dada pelos autores como ponto de partida, pois ela tem sido regularmente redefinida por diversos autores e revisitada até mesmo por seus criadores:

“[Nudge é] qualquer aspecto de arquitetura de escolha que altere o comportamento das pessoas de forma previsível, sem proibir qualquer opção ou alterar seus incentivos econômicos de forma significativa. Para ser um nudge, a intervenção deve ser simples e barata de evitar. Nudges não são mandatos.” (Thaler & Sunstein, 2008, tradução livre minha)

O que importa para esta discusão é que, ao criar a definição de nudge como ferramenta para facilitar boas decisões, cria-se, mesmo que involuntariamente, a necessidade de definir o outro lado da moeda: intervenções que possam facilitar más decisões e/ou dificultar boas decisões.

A esse outro lado da moeda, deu-se o nome de “sludge” que, embora esteja presente nas discussões sobre intervenções comportamentais há alguns anos, debutou formalmente em 2018, em coluna de Richard Thaler para a revista Science, entitulada Nudge, not sludge, em que o autor, ao advogar para o “nudge para o bem”, define o sludge:

“Sunstein e eu reforçamos que o objetivo de um arquiteto de escolha consciente é ajudar as pessoas a tomarem melhores decisões ‘de acordo com seu próprio julgamento’. Mas e as atividades que, essencialmente, fazem nudge para o mal? Esse ‘sludge’ apenas estraga as coisas e torna a boa tomada de decisão e a atividade pró-social mais difícil” (Thaler, 2018, tradução livre minha)

Aqui, acredito que cheguemos a um ponto crítico na definição de sludge: afinal de contas, a questão do sludge é normativa (agir contra o interesse das pessoas) ou descritiva (dificultar a decisão ao invés de facilitá-la)?

Se nudge é um “empurrãozinho”, sludge é uma “seguradinha”

A questão é complexa, afinal, nem sempre facilitar uma decisão é desejável. Pense em supermercados que deixam balas e chicletes nas prateleiras baixas, ao alcance das crianças; ou bancos que oferecem linhas de crédito caríssimas ao toque de um botão. Ao mesmo tempo, incluir fricções nem sempre é algo ruim: perdi as contas de quantas vezes fechei um arquivo antes de salvá-lo e fui salvo (sem trocadilhos) pela janelinha que pergunta se tenho certeza que quero fechar o arquivo antes de salvar as alterações. E é justamente nesse espectro de facilitar versus dificultar e ajudar versus prejudicar, onde residem nudges e sludges.

Em setembro de 2019, pesquisadores da Rotman School of Management, encabeçados por Dilip Soman lançaram um White Paper muito importante para essa questão, entitulado “Seeing Sludge: Towards a Dashboard to Help Organizations Recognize Impedance to End-User Decisions and Action”, propondo um framework conceitual para o que seria sludge e onde estaria inserido nesse espectro:

Como podemos ver, por esse estudo, o conceito de sludge refere-se à atividade que busca impedir uma decisão, causando assim uma perda de bem-estar para as pessoas.

Aqui, parece-me que voltamos a uma velha discussão normativa: como avaliar o que promove ganho ou perda de bem-estar?  Se, afinal de contas, preferências são heterogêneas, a consequência da intervenção também será e diferentes pessoas terão diferentes resultados de uma mesma intervenção: o que é bom para mim pode ser ruim para você.

Sendo assim, é necessário saber o benefício ou a nocividade de incluir ou retirar fricções na tomada de  decisão das pessoas. Afinal de contas, o arquiteto de escolhas deve dificultar ou facilitar as decisões? Parece fundamental entender como fricções funcionam para saber quando e como utilizá-las. Uma discussão recente muito boa sobre algumas dessas questões foi o Meetup de Ciências Comportamentais Aplicadas com Gabriel Inchausti.

Todas as fricções são iguais, mas umas friccionam mais que as outras

No artigo “Nudge/Sludge Symmetry”, ainda a ser publicado, Stuart Mills, da London School of Economics, estabelece uma taxonomia para esses tipos de fricções:

– Econômicas: alterar incentivos materiais ou econômicos. Por exemplo, uma taxa ou uma bonificação para uma decisão específica;

– Hedônicas: alterar o prazer ou conforto individual. Por exemplo, usar imagens grotescas em um maço de cigarros;

– Sociais: alterar os custos sociais ou morais. Por exemplo, informar seu consumo de energia elétrica em comparação a seus vizinhos;

– Psicológicas: alterar o fardo psicológico ou cognitivo. Por exemplo, usar termos longos e complicados em um contrato.

É interessante notar que, em relação à definição original de nudge que vimos anteriormente, apenas as fricções econômicas são levadas em conta. Dessa forma, o autor propõe uma nova definição de nudge:

“Nudge é qualquer aspecto de arquitetura de escolha que REDUZA fricções hedônicas, psicológicas e sociais associadas com uma decisão, em relação a outras decisões, e, ao fazer isso, altera o comportamento das pessoas de forma previsível, sem proibir qualquer opção ou alterar fricções econômicas de forma significativa. Para ser um nudge, a intervenção deve ser simples e barata de evitar. Nudges não são mandatos.” (Mills, a ser publicada, tradução livre minha)

E, de forma, simétrica, define sludge:

“Sludge é qualquer aspecto de arquitetura de escolha que AUMENTE fricções hedônicas, psicológicas e sociais associadas com uma decisão, em relação a outras decisões, e, ao fazer isso, altera o comportamento das pessoas de forma previsível, sem proibir qualquer opção ou alterar fricções econômicas de forma significativa. Para ser um sludge, a intervenção deve ser simples e barata de evitar. Sludges não são penalidades.” (Mills, a ser publicada, tradução livre minha)

Dessa forma, o autor estabelece uma definição de sludge de forma simétrica à definição de nudge, de forma a estabelecer em que termos, finalmente, um é o oposto do outro.

Caçadores de sludges

Dessa forma, parece um pouco mais simples – ou, ao menos, mais objetivo – encontrar e lidar com sludges. E mesmo sem estar munido dessa definição, Cass Sunstein,  em seu artigo a ser publicado em 2020, entitulado “Sludge audit”, alerta para a necessidade de uma caça aos sludges.

Em sua cruzada, Sunstein propõe que “Para proteger consumidores, investidores, empregados e outros, empresas, universidades e agências governamentais deveriam regularmente conduzir auditorias de sludge para catalogar o custo de sludges e decider quando e como reduzí-lo. Sludges frequentemente causam muito mais custos do que benefícios e podem prejudicar os membros mais vulneráveis da sociedade” (Sunstein, 2020, tradução livre minha)

Claro que queremos melhorar a vida das pessoas, mas retornamos aqui a discussões mais acaloradas sobre paternalismo e liberdade: quão paternalista queremos ou devemos ser? Queremos privar as pessoas de aprender com más decisões? O quanto nudges influenciam de forma sustentável a melhoria no bem-estar das pessoas? Nudges têm efeito educativo nas pessoas ou teremos que ser “nudgeados” ad eternum?

Sludge.br

Em um país como o Brasil, extremamente cartorizado e burocrático, sludges são meio de vida para muita gente e não deveriam ser. Diz-se que aqui “cria-se a dificuldade para vender-se a facilidade”, em alusão ao fato corriqueiro de autoridades, fiscais e reguladores recorrerem a práticas criminosas para contornar questões legais. Nesse caso, sludges são terreno extremamente fértil para a corrupção.

Não obstante, há que se ter cuidado ao remover fricções, pois algumas delas tentam impedir – ou, ao menos, inibir – comportamentos tão nocivos quanto os dos que se aproveitam das dificuldades para corromper. É um caso típico em que a diferença entre o veneno e o remédio é a dose.

REFERÊNCIAS

Mills, S. (forthcoming). Nudge/Sludge symmetry

Soman, D., Cowen, D., Kannan, N., & Feng, B. (2019). Seeing Sludge: Towards a Dashboard to Help Organizations Recognize Impedance to End-User Decisions and Action.

Sunstein, C. R. (2020). Sludge audits. Behavioural Public Policy, 1-20.

Thaler, R. H., & Sunstein, C. R. (2009). Nudge: Improving decisions about health, wealth, and happiness. Penguin.

Thaler, R. H. (2018). Nudge, not sludge.

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