Os Significados Mascarados

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Por Flora Finamor Pfeifer em agosto 26, 2020

À luz das recomendações de uso de máscaras faciais pela população para prevenir contra o Coronavírus, o jurista Cass Sunstein, autor de “Nudge” e renomado pesquisador da área de ciências comportamentais, publicou um artigo entitulado “o significado das máscaras” (do inglês, The Meaning of Masks (2020)). Neste, Sunstein discorre sobre os significados sociais das ações e comportamentos das pessoas. Segundo ele, toda ação seria movida por um significado social, que opera como um subsídio ou imposto, ou seja, cria um incentivo (ou desincentivo) para o comportamento em questão. A depender do caso, este incentivo pode ser grande ou pequeno, a favor do comportamento objetivado ou contra.

Esse significado social está muito ligado ao conhecido conceito de ‘norma social’, ou seja, a adequação do indivíduo ao comportamento que ele acredita ou observa que seus pares realiza (talvez você já tenha visto algum exemplo de nudge com “a maioria dos seus vizinhos já está fazendo tal tal… não seja parte da minoria e faça tal coisa”).

Sunstein ressalta que os significados sociais operam impondo uma motivação extrínseca, isto é, externa ao indivíduo (você vai realizar aquela ação pois não quer receber um julgamento ou percepção errada das outras pessoas), mas que pode acabar convergindo para uma motivação intrínseca, ou seja, algo interno ao indivíduo, que expresse suas vontades e identidade. O significado social, desta forma, pode atuar nas duas esferas de motivação, mas é a priori uma motivacao extrínseca.

Ao longo do artigo alguns exemplos históricos são utilizados para ilustrar como significados sociais de comportamentos mudaram ao longo do tempo, destacando o dinamismo desta característica. Por exemplo, fumar em locais fechados há algumas décadas estava associado com uma imagem descolada e socialmente aceita, ao passo que hoje pode signifcar um desrespeito com quem está ao lado ou uma falta de preocupação com a saúde. Também, em um mesmo período de tempo, ações podem adotar significados diferentes, a depender da sociedade ou contexto, ou do subgrupo ou parcela da população na qual está inserida. Dessa forma, reforça a importância de se levar em conta qual o significado social que a ação tem em um grupo específico ao se incentivar um comportamento.

Um outro exemplo que penso encaixar-se aqui é o uso de canudos plásticos. Algum tempo atrás, a maioria das pessoas era indiferente ao uso. Ano passado, viu-se uma enxurrada de críticas ambientalistas que associavam o significado social do canudo a uma não preocupação com o meio ambientre ou com a vida marinha – e, em específico, com as tartarugas – que virou até lei. O caso ilustra bem como a percepção de um comportamento pode mudar – por vezes, de forma mais gradual mas, cada vez mais, dado o dinamismo das redes sociais e a frequente viralização de campanhas, mudanças de significados podem ocorrer de uma hora pra outra.

Sunstein aponta que uma das causas para essas alterações na percepção podem ser uma lei ou normativa do governo, ato que por si só insere uma conotação positiva à ação legislada: fazê-la é seguir a lei e cumprir com seu papel de cidadão. Contudo, faz a ressalva de que, em muitos contextos e ocasiões, a lei pode não adquirir o significado social desejado, o que prejudica seu cumprimento, ou ainda desafiar a lei (reactance) pode ter um significado social positivo, associado com ser corajoso e desafiador. Esse impacto nos significados não é algo exclusivo de ações governamentais: instituições privadas também tem papel nisso, por meio de ações de comunicação e campanhas.

Sunstein destaca, então, a importância de se criar significados sociais positivos associados ao uso das máscaras. Lembro que, no início da pandemia, ao sair na rua e cruzar com alguém de máscara, eu julgava negativamente aquela pessoa, pois a recomendação da época era de não usá-las para que não faltasse estoque aos profissionais de saúde e setores cruciais, e também muito se questionava quanto a sua eficácia preventiva. Em questão de semanas, com a mudança de recomendações, o significado social mudou completamente: de alguém egoísta para justamente o oposto, alguém altruísta, que se preocupa com o próximo e com o bem público.

Acrescento um outro ponto à reflexão: agora, as máscaras são mandatórias e coercitivas. Leis impõe multas financeiras a quem não as usa, portanto a fiscalização constante constrage alguém a usá-las. Além disso, há também a restrição à entrada em estabelecimentos e transportes públicos – a máscara passa a ser também um passe de liberdade. Esses são, por si só, grandes incentivos ao uso, independentemente do significado social atribuído. No entanto, pensando na necessária mudança de comportamento sustentável a médio/longo prazo, é importante atentar-se na construção de um significado positivo. Para além disso, fazer com que as pessoas internalizem a necessidade do uso – transformar a motivação extrínseca, de um signifcado social negativo do não uso, em intrínseca (uso por que quero e acho certo).

Um ponto de atenção é evitar que o significado social de se utilizar máscara adquira conotação negativa em algum subgrupo – a exemplo, por meio de uma polarização política do comportamento, como comentado no nosso post anterior. Nos Estados Unidos, tem-se tido uma resistência da ala direita, questionando a mandatoriedade do uso, em prol da preservação dos direitos de “liberdade” – o que pode ser uma grande ameaça à adesão. Pois aí não se debate apenas o uso da máscara, mas o peso de um disseminado valor social muito maior que passa a ser intrinsicamente associado ao ato.

O modelo proposto por Sunstein fornece uma estrutura para se analisar os significados sociais de comportamentos fazendo um paralelo com incentivos tradicionais, tendo em vista a problemática atual. Estudos empíricos subsequentes podem buscar estimar a magnitude de tais significados sociais, bem como os fatores que os influenciam, informando sua relação com demais formas de incentivos.  

Referências

Sunstein, Cass R., The Meaning of Masks (April 8, 2020). Forthcoming, Journal of Behavioral Economics for Policy, Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=3571428 or http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.3571428

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