“A direita usa Cloroquina, a esquerda Tubaína”: sobre a polarização política de comportamentos relacionados à saúde pública

Artigos | Opinião

Por Flora Finamor Pfeifer em agosto 19, 2020

Outro dia estava refletindo sobre os principais desafios sociais que as ciências comportamentais têm a investigar. Previsivelmente, minha reflexão caiu na grande problemática social atual, envolvendo as dificuldades em lidar com a pandemia do coronavírus e, em especial, o caso do Brasil. O COVID-19 trouxe grandes desafios ao país: para além da crise sanitária, crises sociais e políticas concomitantes tornaram a situação ainda mais difícil de navegar.

A meu ver, a conjuntura expôs uma grande problemática que poderia ser melhor discutida à luz das ciências comportamentais: a polarização política de comportamentos relacionados à saúde pública. Em especial, qualifico aqui o comportamento de ficar em casa e respeitar medidas de isolamento social nos meses iniciais da doença.

As desavenças públicas entre o presidente e governadores e outras autoridades públicas geraram respostas ambíguas dos diferentes níveis e departamentos governamentais. Isso diminui o grau de confiança no governo. Pesquisas sobre o tema mostram que um dos principais fatores de aderência na quarentena são a transparência das autoridades, uma comunicação frequente e com instruções claras, e um senso de identidade coletiva. O sucesso da forma de lidar com a crise em Portugal e na Nova Zelândia foi, em parte, explicado por estes fatores – o oposto do quadro brasileiro. A situação não é exclusiva daqui: os Estados Unidos também enfrentaram situação semelhante ao longo da pandemia.

Assim, a decisão de ficar ou não em casa não era mais uma questão passível de ser explicada pela racionalidade instrumental (ou falta dela), isto é, do propósito de se fazer algo como meio para um fim, tendo em vista as consequências de sua ação: foi adicionada uma camada de racionalidade axiomática: seguir tais medidas também expressavam sua posição ideológica e política. Dessa forma, debates e discussões abertas sobre os tratamentos e medidas adotados foram, de certa maneira, prejudicados: um expectro amplo de possibilidades dá lugar a dois polos; tendências são rapidamente associadas a um lado na opinião pública e a uma certa posição política. Até mesmo a discussão sobre um medicamento para o tratamento, a hidroxocloroquina, que deveria ser apenas uma questão técnica, assumiu tal caráter, ilustrada com a tentativa poética do presidente na afirmação: “a direita usa Cloroquina; a esquerda, Tubaína”.

Cass Sunstein, um dos mais proeminentes acadêmicos da área (e que agora encabeçará uma equipe na Organização Mundial de Saúde para tratar das questões comportamentais) discutiu em palestras recentes à respeito da polarização política e suas implicações no contexto atual. Ele menciona um experimento realizado com participantes Democratas e Republicanos (os dois principais grupos políticos nos Estados Unidos) que busca mensurar o grau de polarização com base em suas opiniões sobre mudança climática. Os participantes chegavam com posições iniciais mais heterogêneas e razoáveis. No entanto, após um momento de discussão em grupo com pessoas que partilhavam daquela mesma visão, suas opiniões ficavam mais extremadas. Ou seja, quando conversamos com pessoas que partilham da mesma visão que nós, tendemos a nos fechar para ideias dissonantes. Criamos uma imagem, por vezes fantasiosa, do “outro lado”, e reforçamos o quão errado ele é.

Um outro estudo recente sobre o assunto que investigava as metas-percepções (como você percebe que um outro grupo te percebe) ligadas a posiçoes políticas mostrou que Republicanos e Democratas igualmente não gostam e desumanizam uns aos outros. Ambos os lados acreditavam que os níveis de preconceito e desumanização daqueles “do outro grupo” eram duas vezes maiores do que o reportado (Bail et al., 2018).

Finalizo, então, com três provocações: primeiro, será que o quadro retratado no experimento com Democratas e Republicanos nos Estados Unidos é similar ao do Brasil? Segundo, o fenômeno de polarização política traz que tipos de externalidades pra sociedade? Enfim, ainda que saibamos, em parte, como a polarização social é constituída, há pouco registro de como aliviar esta situação – o que torna-se relevante, em especial, quando questões que não deveriam estar associadas a posições políticas, como questões de saúde pública,  adotam tal característica. Mais reflexões e pesquisas sobre como atacar esta problemática – tanto do ponto de vista de políticas públicas, quanto da ação individual – seriam interessantes.

Para ler mais sobre o assunto:

Political ‘oil spill’: Polarization is growing stronger in the U.S. — and getting stickier, 2020. Disponível em https://yubanet.com/scitech/political-oil-spill-polarization-is-growing-stronger-in-the-u-s-and-getting-stickier/

Bail et al, 2018. Exposure to opposing views on social media can increase political polarization. Disponível em https://www.pnas.org/content/115/37/9216

Cass R. Sunstein, “The Law of Group Polarization” (John M. Olin Program in Law and Economics Working Paper No. 91, 1999).

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *