Quebrando a dicotomia rápido-devagar: enriquecendo a compreensão de ‘irracionalidade’ e autocontrole.

Artigos | Políticas Públicas | Psicologia | Psicologia Comportamental

Por Bianca Sanches Portella em julho 30, 2020

Por Bianca Sanches e Thiago Cersosimo

Modelos historicamente empregados pelas Ciências Econômicas para estudar o processo de tomada de decisão passaram, nas últimas décadas, a serem questionados por evidências experimentais que discutem a validade do Homo economicus, principalmente no que diz respeito a um de seus pressupostos mais essenciais: a racionalidade. Com o objetivo de sistematizar um corpo de evidências sobre comportamentos comumente rotulados como ‘irracionais’, ou seja, desviantes da norma prevista por tais modelos clássicos, nasceu o campo de estudos conhecido como Economia Comportamental. Desde então, diversas novas pesquisas têm se proliferado nesta direção, fomentando áreas que lidam com o comportamento humano a incorporarem evidências experimentais em suas práticas, justamente por configurarem um melhor guia para aplicações do que os modelos normativos clássicos anteriormente usados.

É no sentido de sistematizar estudos sobre comportamentos desviantes do modelo clássico que Kahneman et al. (1982) desenvolve uma das teorias mais seminais da Economia Comportamental. Neste, categoriza o modelo de tomada de decisão em duas diferentes instâncias psíquicas, responsáveis pela ocorrência de dois tipos diferentes de comportamento que seriam, aparentemente, opostos: o ‘Sistema 1’ seria responsável pelo comando de comportamentos automatizados e, portanto, mais rápidos e possivelmente associados a decisões impulsivas, o que frequentemente é tido como “irracional”; enquanto que o ‘Sistema 2’, por sua vez, comandaria comportamentos e escolhas que demandam mais tempo de reflexão e raciocínio, sendo, portanto, mais associado com decisões autocontroladas, e o que é comumente tido como “racional”


Esquema ilustrativo dos mecanismos cognitivos propostos por Kahneman, denominados ‘Sistema 1’ e ‘Sistema 2’

  O planejamento e desenho de políticas públicas foi uma das práticas mais diretamente influenciadas pelos frutos de teorias como a anteriormente citada – evidência disso é a grande relevância e repercussão que discussões sobre nudges carregam consigo desde a publicação, em 2008, do renomado livro Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth, and Happiness, de Thaler e Sunstein, onde advoga-se pelo sucesso de políticas públicas que passam a pensar comportamentos-alvo levando em conta evidências experimentais e não mais pressupostos modelos clássicos.

Como já discutido em um texto anterior, no entanto, pesquisadores de renome para a Economia Comportamental apontam para lacunas essenciais em conceitos e teorias adotadas pela própria área, salientando a necessidade de uma compreensão sistemática e aprofundada de comportamentos de interesse. Nesse sentido, a Psicologia Comportamental, popularmente conhecida como Behaviorismo, área que analisa experimentalmente como variáveis ambientais alteram a probabilidade de ocorrência de comportamentos, apresenta grande potencial de contribuição para a maturação do corpo teórico da Economia Comportamental e para o direcionamento mais acurado de suas futuras pesquisas. 

Entendendo comportamentos segundo variáveis molares e moleculares

Howard Rachlin, pesquisador behaviorista, ataca o problema da suposta “irracionalidade” de comportamentos não-normativos seguindo outra perspectiva: comportamentos “racionais” e “irracionais” não devem ser entendidos segundo uma ótica dicotômica, mas sim de maneira contínua. Ambos os tipos de comportamento seriam parte de um mesmo espectro, variando entre impulsividade, associada à escolha por consequências temporalmente próximas, e autocontrole, comumente associado à escolha por consequências temporalmente distantes.

Enquadrar um comportamento ao longo deste contínuo requer uma análise de quais consequências – ou seja, de quais variáveis ambientais – estão exercendo influência sobre o comportamento em questão. Isto contrasta-se com o proposto em teorias que carregam consigo a dicotomia “racionalidade versus irracionalidade”, na qual ações “logicamente anômalas” seriam definidas a partir de um axioma de racionalidade, postulado por modelos clássicos e não por evidências empíricas. Percebe-se, no entanto, que o acumular de achados experimentais sobre a ocorrência sistemática de tais “anomalias” e condutas “desviantes” torna a defesa deste axioma uma ação “morosa e constrangedora”, já que este perde o poder de descrição e previsão de comportamentos empiricamente observados (Rachlin, 1995).

Para o estudo de comportamentos de interesse e das principais variáveis ambientais envolvidas em sua ocorrência, é necessário perceber que, tal como muitas vezes já nos diz nossa própria experiência, nem todos os comportamentos são controlados pelo que ocorre imediatamente no ambiente ao redor. Uma pessoa que recusa um pedaço de chocolate, por exemplo, evidencia não estar sob controle do chocolate apresentado a ela no momento. Supondo que ela tenha recusado porque está em uma dieta, seja por querer emagrecer ou por estar em busca de hábitos alimentares mais saudáveis, entende-se que o que controlou sua escolha foram variáveis ambientais abstratas, associadas a consequências ou recompensas temporalmente mais distantes ou diluídas no tempo nesse caso, a perda de peso decorrente de um padrão de alimentação mais saudável.

Tais variáveis temporalmente distantes, entendidas como responsáveis pelo controle de escolhas que são resistentes à tentação, são denominadas, por Rachlin, como variáveis molares. Paralelamente, escolhas tidas como impulsivas, como a de aceitar o chocolate, são em sua maioria controladas por variáveis ambientais mais concretas, ou temporalmente mais próximas, o que permite classificá-las como variáveis moleculares (Baum, 2004).

Na imagem, Howard Rachlin à esquerda e William Baum à direita

A identificação de um comportamento controlado por uma variável molar evidencia que consequências distantes também possuem potencial reforçado, uma vez que mostram-se capazes de evocar e manter comportamentos que não estão sob controle de consequências ambientais temporalmente próximas, como o chocolate no exemplo acima (leia mais sobre a ideia de reforçamento comportamental aqui). O chocolate não passou, necessariamente, a ser menos reforçador ao indivíduo; no entanto, quando abre-se mão da possibilidade de consumir tal recompensa próxima, é possível inferir, a partir de evidências empíricas, que as consequências de resistir à tentação obtidas a longo prazo, como a perda de peso ou a melhora da saúde ao longo do tempo, seriam tão mais reforçadoras que fariam com que o comportamento de recusa fosse mais provável do que o de aceitar o chocolate naquele momento. 

Diferenças e semelhanças entre os modelos

Não é coincidência a similaridade entre o Sistema 1 e Sistema 2 com o contínuo entre consequências molares e moleculares apresentado acima, já que ambos se debruçam sobre um mesmo fenômeno. Apesar de assumirem óticas e posturas filosóficas distintas, ambos naturalmente tendem a convergir uma vez que ambos baseiam-se, de uma forma ou outra, em evidências. O modelo desenvolvido por Kahneman et al. (1982), no entanto, propõe, tendo em vista resultados experimentais, que essas duas categorias de comportamento – os ‘irracionais’ ou ‘impulsivos’ e os ‘racionais’ ou ‘autocontrolados’ – seriam determinadas por duas áreas ou sistemas diferentes do cérebro, localizando nessa suposta organização dicotômica da cognição humana a causa para um ou outro tipo de comportamento.

Este modelo, por utilizar-se da inferência de mecanismos mentais internos ao indivíduo e atribuir a eles a causa dos comportamentos aqui discutidos, abre poucas possibilidades para que profissionais responsáveis pelo desenho de políticas públicas possam interferir em tal fenômeno a partir do arranjo de estímulos ambientais, pois pauta-se muito em explicações para comportamentos segundo causas internas ao indivíduo, e não em variáveis ambientais.

Para delinear as principais diferenças entre as análises do Behaviorismo e da Economia Comportamental sobre o comportamento humano, Simon e Tagliabue (2018) destacam o benefício de possíveis insights provenientes de uma maior articulação entre os respectivos corpos teóricos. Os autores propõem que, enquanto o Behaviorismo historicamente direciona seu foco de pesquisa às consequências ambientais, ou reforçadores, a Economia Comportamental, embasada na Psicologia Cognitiva, direciona mais seu olhar para o efeito que eventos ou estímulos ambientais antecedentes ao comportamento podem gerar sobre este, passando, em suas análises, pela inferência de mecanismos cognitivos e vieses que estariam associados à percepção e valoração de tais estímulos. 

O contínuo entre molecular e molar como alternativa a dicotomia Sistema 1 e Sistema 2

Rachlin (2015), em uma resenha  sobre o livro “Why Nudge: The Politics of Libertarian Paternalism”, de Cass Sunstein (2014), argumenta que a organização dicotômica da cognição em dois sistemas, proposta por Kahneman et al. (1982), apesar de oferecer uma explicação mais imediata e didática para certos desvios de comportamento, não encontra respaldo em achados recentes de pesquisas no campo das Neurociências e Ciências Cognitivas. Além disso, tal perspectiva faz com que grande parte das discussões na área da Economia Comportamental tenham seu foco enviesado para a formulação de mecanismos cognitivos, ao passo que mais esforços poderiam ser direcionados a um entendimento refinado do impacto que variáveis ambientais geram em comportamentos-alvo, uma vez que é apenas nestas que se pode intervir diretamente, e não em possíveis mecanismos cognitivos. 


Rachlin argumenta que a adoção do modelo que propõe possibilita um entendimento mais sistemático do fenômeno sobre o qual atua a maioria dos nudges, que passa a ser entendido como o de tornar variáveis molares valiosas ao bem-estar do indivíduo mais concretas e temporalmente próximas ao momento de escolha, fazendo com que comportamentos-alvo, usualmente mais controlados pela tentação de obtenção de consequências moleculares mais imediatas, sejam mais controlados pelas importantes consequências distantes que também encarregam, mas que muitas vezes tem seu efeito sobre o comportamento mitigado pela distância temporal. 

Substituir a cognição dicotômica de Kahneman pela noção de comportamentos controlados por variáveis ambientais localizadas em um contínuo temporal molecular ou molar, mostra-se como uma potente direção para a área, uma vez que incorporaria um modelo que permite análises mais sistemáticas e que não está em dissonância com evidências recentes de outras áreas da Psicologia Experimental. Dessa forma, pode-se devidamente posicionar a lente que guia a análise de comportamentos-alvo na interação do indivíduo com o ambiente, e nunca desvinculado desta. Esta perspectiva mostra-se não só adequada, mas necessária para refinar o delineamento de políticas públicas que planejam alterar comportamentos-alvo por meio da manipulação do ambiente, carregando consigo a devida importância que se deve dar ao contexto no qual se planeja implementar as intervenções. 

REFERÊNCIAS

Baum, W. M. (2004). Molar and molecular views of choice. Behavioural Processes, 66(3), 349-359.

Kahneman, D., Slovic, P., & Tversky, A. (Eds.). (1982). Judgment under uncertainty: Heuristics and biases. New York: Cambridge University Press.

Rachlin, H. (1995). Behavioral economics without anomalies. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 64(3), 397-404.

Rachlin, H. (2015). Choice architecture: A review of why nudge: The politics of libertarian paternalism. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 104(2), 198-203.

Simon, C., & Tagliabue, M. (2018). Feeding the behavioral revolution: contributions of behavior analysis to nudging and vice versa. Journal of Behavioral Economics for Policy, 2(1), 91-97.

Sunstein, C.R. (2014). Why nudge? The politics of libertarian paternalism. New Haven: Yale University Press.Thaler, R. H., & Sunstein, C. R. (2009). Nudge: Improving decisions about health, wealth, and happiness. Penguin.

Comentários

  • Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *