Contribuições do Behaviorismo para a Economia Comportamental

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Por Bianca Sanches Portella em julho 21, 2020

Como a Psicologia Comportamental pode oferecer ferramentas para pensar o comportamento-alvo de políticas públicas baseadas em evidência

Por Bianca Sanches e Thiago Cersosimo

Um dos artigos mais citados e influentes para a área de intervenções comportamentais baseadas em evidências é o de Michie et al. (2011): “The behaviour change wheel: A new method for characterising and designing behaviour change interventions”. Nele, os autores destacam a necessidade de organização de um corpo teórico para melhor embasar e orientar o planejamento de intervenções com o objetivo de mudar um comportamento-alvo de maneira efetiva. O artigo parte de uma extensa revisão bibliográfica, permitindo uma classificação mais clara de diferentes aspectos de políticas públicas e sua implementação, por meio do amplamente disseminado modelo da Behaviour Change Wheel (‘roda da mudança de comportamento’).

Neste modelo, um dos tópicos centrais para categorizar as intervenções diz respeito à natureza do comportamento. Os autores chamam a atenção ao fato de que não é dada a devida importância à busca de teorias robustas sobre tal tópico quando do planejamento da maioria das intervenções, estressando a necessidade de incorporação desse tipo de conhecimento para que tenhamos intervenções comportamentais mais eficazes, generalizáveis para diferentes contextos, compreendendo melhor qual aspecto da intervenção foi, de fato, responsável pela mudança em questão. 

Modelo usado para categorização sistemática de políticas públicas e das características que mais essencialmente as definem, denominado Behaviour Change Wheel (Michie et al., 2011)

Ao argumentar que políticas públicas comumente não se baseiam em análises formais ou modelos teóricos robustos sobre a natureza do comportamento alvo, mas sim em modelos implicitamente construídos com base em senso-comum, a autora instiga economistas ou cientistas comportamentais a buscarem maior conhecimento sobre o comportamento que buscam atingir. Acreditamos que a psicologia comportamental apresenta um fértil corpo de conhecimento para suprir esta demanda, fornecendo diversos insights valiosos para um planejamento de intervenções comportamentais que seja baseado em evidências sobre a natureza do comportamento e as variáveis que o afetam. 

Ao contrário do que se pode comumente pensar da psicologia, a aplicação de suas teorias não se restringe ao contexto idiossincrático do ambiente clínico: existe um extenso esforço histórico de certas vertentes de pesquisa em busca de leis gerais que permitam que se explique, preveja e controle o comportamento de organismos, debruçando-se tanto sobre fenômenos mais basais em animais não-humanos, quanto sobre fenômenos mais complexos em humanos, como, por exemplo, o processo de tomada de decisão. Frentes da psicologia que estão contidas no grande guarda-chuva da Psicologia Experimental são geralmente as mais prolíficas em trazer à tona evidências que corroboram teorias e modelos sobre o comportamento humano e como melhor compreendê-lo. 

Diferenças entre a Psicologia Cognitiva e Psicologia Comportamental

Braços distintos da Psicologia Experimental se diferenciam historicamente pela divergência no método e na postura filosófica que assumem, dando origem, dentre outros, a dois grandes polos de pesquisa, comumente conhecidos como Psicologia Cognitiva e Psicologia Comportamental. A frente Cognitiva versa sobre a maneira pela qual comportamentos manifestos são determinados por estruturas internas, como mecanismos cognitivos, heurísticas e vieses, que seriam responsáveis por ações do indivíduo. Já a frente Comportamental teoriza sobre relações funcionais entre o ambiente e o indivíduo, a fim de que sejam obtidas correlações entre variáveis ambientais e comportamentos observáveis, prescindindo da necessidade de inferir sobre causas mentais não-observáveis como explicações para os mesmos.

Por mais que ambas vertentes voltem seus esforços para o estudo do comportamento de forma sistemática e objetiva, a Psicologia Comportamental – popularmente conhecida como Behaviorismo – tem gerado pouco impacto em teorias da Economia Comportamental, que se nutre historicamente dos frutos advindos do corpo de conhecimento construído pela Psicologia Cognitiva. A seguir, apresentaremos um pouco de como a Psicologia Comportamental estuda o comportamento, ótica que consideramos relevante para o avanço da Economia Comportamental em direção a um melhor entendimento da natureza de comportamentos-alvo.  

Em primeiro lugar, faz-se necessário entender que a Psicologia Comportamental assume uma postura interacionista quando analisa o comportamento, objeto de seu estudo: o ambiente e o organismo interagem simultânea e continuamente um com o outro, compondo, juntos, um sistema de feedback, que correlaciona ocorrências de dados eventos ambientais com ocorrências de dados comportamentos (Baum, 1973). Esta interação é medida pela probabilidade de ocorrência do comportamento de interesse (variável dependente), quando diante de diferentes probabilidades de ocorrência de dado evento ambiental (variável independente). A associação entre as variáveis estudadas é feita através da correlação entre a frequência com a qual o comportamento ocorre e a frequência com a qual o evento ambiental ocorre. 

Esquema representativo da interação entre organismo e ambiente compondo um sistema de feedback, onde regras ambientais (E-rules) explicam como ações do organismo alteram o ambiente e regras do organismo (O-rules) explicam como eventos ambientais afetam o organismo. Um modelo comportamental completo deve levar em conta o estudo de ambos os tipos de regras (Baum, 1973).

Nestes estudos, é possível notar que certos eventos ambientais tornam o comportamento-alvo mais provável de ocorrer – a este processo é dado o nome de reforçamento. Se a ocorrência de um evento ambiental após a ação do indivíduo aumenta a probabilidade de ocorrência desta mesma ação no futuro quando diante de contextos semelhantes, considera-se que tal evento – ou estímulo ambiental – é um reforçador. Além disso, a ocorrência de estímulos ambientais antes do comportamento-alvo podem também afetar a probabilidade de ocorrência de dado comportamento.

Essa relação pode ocorrer tanto porque estes estímulos possuem forte correlação com consequências reforçadoras (relação construída ao longo da história de vida do indivíduo), assumindo, portanto, o papel de sinalizar sua iminência; quanto porque possuem ligação com eventos ambientais que, por motivos filogenéticos (associados à história evolutiva da espécie), possuem valor adaptativo, sinalizando uma possível oportunidade de incremento do fitness evolutivo do indivíduo ao agir de certa maneira perante o evento ambiental em questão. Pode-se encontrar mais sobre essa noção de reforçamento no artigo “Rethinking Reinforcement: Allocation, Induction and Contingency” (Baum, 2012). 

Tabela que mostra como eventos ambientais filogeneticamente importantes podem tornar mais ou menos prováveis comportamentos-alvo ou comportamentos alternativos ao alvo, dependendo de serem benéficos ou prejudiciais à aptidão evolutiva (fitness) do indivíduo (Baum, 2012).

Contribuições do Behaviorismo para a Economia Comportamental

É importante notar que a análise do comportamento e das variáveis ambientais que o alteram é, para o Behaviorismo, um processo empírico. As explicações sobre como os estímulos ambientais alteram as probabilidades de ocorrência de comportamentos advêm de evidências experimentais, obtidas a partir de observações de sujeitos se comportando livremente diante de manipulações e intervenções em variáveis ambientais. Após certo tempo de observação, o experimentador pode analisar padrões de comportamento, a partir dos quais são inferidas relações funcionais, que correlacionam eventos do organismo e eventos do ambiente, relações estas que são passíveis de matematização e, portanto, de interdisciplinaridade. 

A formalização de tal conhecimento sobre a natureza do comportamento almeja conferir ao teórico que o adote alguma capacidade de predição de comportamentos futuros a partir de eventos observáveis. Além disso, também busca compreender de maneira refinada como o ambiente influencia comportamentos presentes, de forma que seja possível planejar manipulações essenciais em variáveis que tornam o comportamento-alvo mais ou menos provável, a depender do objetivo das intervenções que se deseja implementar.

Dessa forma, pode-se concluir que modelos elaborados por psicólogos comportamentais sobre o processo de tomada de decisão e comportamentos de escolha possuem grande potencial para incrementar a compreensão de comportamentos-alvo nos quais Economistas Comportamentais desejam intervir ao implementarem políticas públicas, o que abre possibilidades para robustas contribuições e um enriquecedor diálogo entre os corpos de conhecimento da psicologia comportamental e as ciências econômicas.

REFERÊNCIAS

Michie, S., Van Stralen, M. M., & West, R. (2011). The behaviour change wheel: a new method for characterising and designing behaviour change interventions. Implementation science, 6(1), 42.

Baum, W. M. (1973). The correlation‐based law of effect 1. Journal of the experimental analysis of behavior, 20(1), 137-153.

Baum, W. M. (2012). Rethinking reinforcement: Allocation, induction, and contingency. Journal of the experimental analysis of behavior, 97(1), 101-124.

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