Ciências comportamentais são o novo “snake oil”?

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Por Artur Mascarenhas em julho 15, 2020

(Snake oil é um antigo remédio caseiro que alegava ter propriedades naturais de curar qualquer doença)

As ciências comportamentais aplicadas – aqui entendidas por uma composição de psicologia cognitiva, psicologia social, psicologia experimental, economia, sociologia, dentre outras – compõem uma área de conhecimento relativamente nova e que passou por uma grande evolução de popularidade nos últimos anos, como temos observado pela quantidade de novos posts, livros, seriados, TEDTalks, cursos e, inevitavelmente, pelo surgimento de novos gurus e eminências da área.

O tema, antes restrito ao ambiente acadêmico, ganhou força e popularidade, espalhando suas aplicações e descobertas em ambientes governamentais, por meio de sua aplicação em políticas públicas e também em ambientes privados, em áreas corporativas desde design de produtos até engajamento de colaboradores, passando por UX, recrutamento e seleção, compliance, etc.

Como toda popularização, também surgem os erros e – justificadamente – as críticas. E não tem sido poucos os tropeços no caminho.

Em 2011, Daniel Kahneman – Prêmio Nobel de Economia em 2002 – lançou seu excelente livro “Rápido e Devagar”, uma das portas de entrada para muitos que adentraram as ciências comportamentais posteriormente. Não obstante, juntamente com o livro, vieram as críticas, especialmente sobre a replicabilidade de muitos experimentos lá relatados. A falta de replicabilidade dos estudos presentes no livro foi tão flagrante que o próprio Kahneman se manifestou em 2017.

Nesse ano de 2020, com a pandemia do coronavírus e as seguidas manifestações de cientistas comportamentais a seu respeito, a validade da área foi ainda mais questionada.

No Reino Unido, David Halpern – criador da mais famosa “nudge unit” do mundo, o The Behavioural Insights Team (BIT) – foi duramente criticado por seus pares quando declarou que as ações do governo britânico em relação à contenção da doença levariam em conta conceitos como “imunidade de rebanho” e “fadiga comportamental”. Felizmente, a declaração foi recebida com ceticismo e rigor por uma carta aberta assinada por mais de 600 cientistas comportamentais contestando a decisão tomada sem bases científicas robustas.

Cass Sunstein, um dos autores mais prolíficos da área e co-autor do bestseller “Nudge”, também recebeu duras críticas em relação a suas posições conflitantes sobre como as pessoas deveriam agir em relação à ameaça da pandemia em três colunas que passaram de críticas ao medo excessivo que as pessoas teriam da doença para críticas sobre como pessoas não estariam levando a ameaça seriamente o suficiente.

Dada a natureza das ciências comportamentais como ciências aplicadas, toda ação prescritiva deveria estar cercada por muito ceticismo, rigor e cuidado descritivo, por meio de estudos empíricos, como estudos de campo, experimentos de laboratório (RCTs), etc. E foi exatamente isso o que não aconteceu em diversos casos e, notoriamente, nos dois casos citados acima.

Um dos motivos dessa falta de cuidado pode ser, ironicamente, um excesso de confiança dos cientistas comportamentais.  A popularização e badalação da área têm sido tão grande que, em alguns casos, é possível que “o sucesso tenha subido à cabeça”, fazendo com que cientistas comportamentais se manifestassem sobre temas que desconhecem, sem informações necessárias e, pior de tudo, criando ou sugerindo cursos de ações sem qualquer evidência científica que os ampare.

Uma das melhores colunas a respeito que li esse ano foi escrita pelo filósofo sueco Erik Angner sobre o conceito de humildade epistêmica como uma virtude intelectual: perceber que nosso conhecimento é sempre incompleto e que nossas crenças devem estar sujeitas à mudança, à luz de novas informações. E que, especialmente para um cientista, é fundamental separar opiniões de informações.É natural e saudável que o cientista expresse também suas opiniões, porém de uma forma que demonstre suas limitações, ao contrário de charlatões, que buscam transparecer um conhecimento que não têm, a fim de transformar suas opiniões em pérolas de sabedoria.

Nesse sentido, é fundamental lembrar que os conhecimentos produzidos pelas ciências comportamentais aplicadas não são um elixir mágico que combate todos os males do mundo, tampouco são aplicáveis em qualquer situação, muito diferente dos famosos “snake oils”, vendidos antigamente como remédios que supostamente curavam qualquer doença.

Tomemos como exemplo os nudges: a grosso modo, um tipo de intervenção comportamental desenhado para direcionar as pessoas para uma “melhor decisão”, sem tolhe-las de sua liberdade de escolha por meio de proibições ou incentivos econômicos significativos. Por serem, por definição, intervenções baratas e com caráter “paternalista-libertário”, têm sido utilizado em grande escala por agências governamentais no mundo todo, as chamadas “nudge units”.

Embora o uso do termo “nudge” tenha sido extremamente banalisado, sendo aplicado em diversos contextos que não sejam adequados, o sucesso dessas intervenções é inegável. Estudos mostram que, por mais que seus efeitos sejam marginais (1,4% nas intervenções realizadas pelo BIT, de acordo com DellaVigna & Linos, 2020), proporcionam enormes ganhos em termos absolutos para governos, seja em forma de divisas (como nas campanhas para redução na inadimplência de impostos) como de bem-estar da sociedade (como campanhas voltadas para saúde e poupança individual).

Não obstante, parece-me que tem havido atualmente um “fetiche” de cientistas comportamentais por nudges, ignorando outros diversos tipos de intervenções, o que também tem gerado críticas ao campo. Também tem havido uma certa “pressa” em colher os louros da vitória da intervenção no curto prazo, deixando de lado o acompanhamento de seus efeitos por um tempo mais longo.

Talvez, na ânsia de querer aplicar intervenções que sejam custo-efetivas e que preservem a liberdade das pessoas, cientistas comportamentais estejam sendo um pouco preguiçosos em pensar mais nas raízes dos problemas que pretendem atacar e muito interessados em soluções rápidas para problemas complexos. O risco dessa abordagem é que nudges tornem-se “produtos de prateleira” ou, na mão de charlatões, “snake oil”.

Sobre todas essas questões, o cientista comportamental Jason Collins deu uma aula no Nudgestock 2020. Para ele, é fundamental que o cientista comportamental entenda melhor o contexto das decisões em que pretende intervir e se perguntar: “por que eu estou certo e as pessoas estão erradas?”, “qual o objetivo das pessoas e qual a melhor maneira que elas têm para atingí-lo?”, “será que temos toda a informação que precisamos para entender o tomador de decisão?”.

As ciências comportamentais aplicadas são uma área de conhecimento recente com muito potencial a ser explorado e, para isso, são necessárias doses de coragem e confiança para superar limites pré-estabelecidos e fazê-la avançar. Mas, para que isso aconteça de forma sustentável, é fundamental rigor, ceticismo e humildade.

Comentários

  • Prezado Artur, vou tomar como âncora seu último parágrafo onde vc destaca três características fundamentais numa pesquisa na área de EC que são rigor, ceticismo e humildade. Perfeito a sua colocação e quando observamos que na maioria dos casos, os cientistas esquecem sua condição de humanos e desprezam a humildade. A propósito, ao navegar nas folhas do livro do Prof Kahneman, no seu capítulo 24 ( Confiança Excessiva), me deparo com um ítem muito interessante, chamado “Pré-Mortem”, onde cita seu “colaborador adversário”, o Prof. Gary Klein. O que vem a ser o “Pré-Mortem” ? Muito simples, segundo Kahneman. Quando uma decisão está prestes a ser tomada, Klein sugere uma reunião breve onde o grupo será comunicado que : ” imaginem que estamos um ano a frente e implementamos o plano como está hoje. O resultado foi um desastre. Queiram reservar de 5 a 10 minutos para descrever um breve histórico desse desastre”.
    Uma das vantagens desse modelo de decisão, é que ele revela a preferência pela decisão do líder do grupo, inadvertidamente, pois qualquer posição contrária seria tratada como desleal por parte do grupo. Além disso, o ‘`Pré-Mortem” legitima as dúvidas. Segundo Kahneman, o “Pré-Mortem” não se qualifica como uma panaceia nem oferece proteção total contra as surpresas desagradáveis. Enfim, eu acrescentaria que uma boa dose de humildade no contexto de qualquer grupo de tomada de decisão, reduziria bastante o prejuízo ex-post do projeto.

  • Arthur, muito obrigado por seu comentário.

    Gosto muito da ideia do “pre-mortem” como uma dinâmica de tomada de decisão em grupo.

    Também gosto muito da “escola” do Gary Klein, a Naturalistic Decision Making. Pretendo falar em breve sobre essas ideias!

    Grande abraço!

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