Falta dinheiro? E conhecimento? Humildes dicas para uma vida financeira mais saudável

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Por Marcel Dallaqua em fevereiro 12, 2019

A tecnologia da informação tem revolucionado a forma como as pessoas negociam produtos no mercado financeiro.

Bancos tradicionais nos aplicativos (apps), novas empresas de tecnologia para serviços financeiros (fintechs) e plataformas de negociação domésticas (home brokers) são alguns dos exemplos que ilustram essa revolução.

Entretanto, embora os processos de negociação sejam cada vez mais facilitados – e barateados – pelos avanços tecnológicos da era digital, o comportamento dos investidores – principalmente dos brasileiros – pode e precisa evoluir.

Sobre esses agentes, observa-se a carência por conhecimento sobre o mercado financeiro e seus bons e maus produtos, o exagero na tomada de crédito a taxas altíssimas e a necessidade de investir mais e melhor.

Em paralelo, cientistas trabalham para descrever e explicar os comportamentos financeiros, bem como para apontar caminhos que humildemente são traduzidos nos próximos parágrafos em três dicas para uma vida financeira mais saudável!

Como mencionado, são diversos os exemplos que ilustram a revolução provocada pelas inovações tecnológicas nos mercados financeiros, em geral.

Para ilustrar, de um lado, há quem diga que os “bancos não sobreviverão às novas tecnologias” [1]. De outro, que vão se adaptar e se tornar “empresas de tecnologia” [2].

De fato, para reduzir custos operacionais [3] e melhorar a experiência dos clientes [4], agências bancárias desaparecem do mapa, funcionários são demitidos e investimentos em tecnologia se tornam cada vez mais significativos [3].

Os esforços dos bancos para se adaptarem já são reais há algum tempo.

Também é real o surgimento das fintechs [3] – “inovações financeiras, habilitadas por tecnologias que podem resultar em novos modelos de negócios, aplicativos, processos ou produtos com efeitos tangíveis nos mercados, nas instituições financeiras e na prestação de serviços financeiros” [5].

Essas empresas (startups) crescem em quantidade [3] e recursos [6], oferecendo serviços financeiros que facilitam a vida das pessoas de diversas maneiras.

Pagamentos mais rápidos e mais seguros (fast payments), empréstimos baseados em informações positivas dos clientes (credit as a service – CaaS), acesso a dados bancários por diferentes plataformas (open banking) são alguns dos exemplos da atuação inovadora das fintechs [7].

Já no campo dos investimentos, destacam-se as plataformas domésticas de negociação (home brokers). Através delas, investidores podem comprar e vender ações, fundos e títulos – além de inúmeros outros produtos financeiros – de praticamente qualquer lugar do mundo. Basta ter um dispositivo com acesso à internet.

As mudanças tecnológicas são tão significativas e profundamente presentes nos mercados que o tema da tecnologia e aulas de programação passaram a compor a grade de cursos de finanças no Brasil [8].

Por outro lado, embora seja cada vez mais fácil, conveniente e barato cuidar das finanças, o comportamento e a tomada de decisão dos investidores brasileiros precisa evoluir.

Inúmeras manchetes destacam essa necessidade:

“Menos da metade dos brasileiros têm dinheiro aplicado em produtos financeiros” [9].

“Estudo: brasileiro conhece Bolsa, mas fica na poupança e não investe nada” [10]

“Com juro recorde, dívida dos brasileiros no rotativo do cartão de crédito dispara” [11].

“99,4% dos brasileiros não conhece o conceito de juros compostos e isso é preocupante” [12].

“Inadimplência atinge 62 milhões de brasileiros e afeta 3% do crédito” [13].

Em outras palavras, de que adianta ser possível participar da prosperidade de boas empresas com poucos cliques a custos cada vez mais baixos, se – simplesmente – não compramos ações?

De que adianta ser possível – pelo computador, tablet e celular – negociar partes de imóveis bem administrados, se preferimos enfrentar as taxas abusivas de empréstimos e financiamentos?

De que adianta ser possível se proteger da inflação – por meio do aplicativo do tesouro direto ou de uma corretora qualquer quase de forma gratuita –, se não sabemos o que são ou como calcular os juros compostos?

Falta conhecer. Falta experimentar. Quer dizer, o problema da tomada de decisão está no comportamento.

Felizmente, a ciência pode ajudar. Pesquisadores, há tempos, trabalham para explicar esse comportamento e apontar caminhos para a tomada de decisão. Segundo eles, frequentemente tomamos nossas decisões com o uso de heurísticas e somos constantemente influenciados por nossas emoções.

“As heurísticas são regras de bolso (ou atalhos mentais) que agilizam e simplificam a percepção e a avaliação das informações que recebemos. Por um lado, elas simplificam enormemente a tarefa de tomar decisões; mas, por outro, podem nos induzir a erros de percepção, avaliação e julgamento que escapam à racionalidade ou estão em desacordo com a teoria da estatística. Esses erros ocorrem de forma sistemática e previsível, em determinadas circunstâncias, e são chamados de vieses” [14].

Ou seja, heurísticas são as formas pelas quais seres humanos naturalmente tomam decisões. E vieses são os erros sistemáticos e previsíveis – frequentemente resultados das heurísticas. É oportuno notar que alguns vieses podem se colocar como “obstáculos entre nossa intenção e as efetivas ações de juntar dinheiro” [15].

O viés do status quo, por exemplo, pode influenciar na escolha pela contratação e manutenção de produtos financeiros inadequados (e.g. investir aquele dinheiro que não se pretende usar em uma conta de poupança pela facilidade e comodidade, deixando de lado alternativas de investimento de longo prazo mais favoráveis). Esse viés “consiste na preferência por manter o estado atual, seja por não fazer nada ou por insistir em uma decisão já tomada, ainda que uma mudança possa representar a escolha mais proveitosa” [15].

Outro viés a ser contornado é a falácia do planejamento. Esse viés pode resultar em desânimo, desestímulo e desistência precoce dos planos futuros quando o investidor percebe que, de fato, a prática – execução – pode ser mais complicada do que a teoria – planejamento – (e.g. desistir de diversificar os produtos na carteira de investimentos porque pagar os impostos se tornará um pouco mais complicado). A falácia do planejamento consiste na “tendência a subestimar o tempo, o esforço e os potenciais obstáculos necessários para realizar uma ação, minimizando tanto a possibilidade de ocorrerem imprevistos quanto a própria dificuldade de concretização da tarefa, por acreditar que ela é mais fácil do que de fato é” [15].

Um terceiro viés observado pelos cientistas é o do crescimento exponencial. Esse viés tem implicações tanto para o investidor (e.g. aquele que menospreza a importância de investir porque os rendimentos iniciais das aplicações parecem ser “baixos demais”) quanto para o tomador de empréstimos (e.g. aquele que contrai dividas que crescem tão rapidamente que ele perde a capacidade de pagamento). O viés do crescimento exponencial “descreve a dificuldade de raciocinar em termos de juros compostos, o que pode levar-nos a subestimar seus efeitos no longo prazo”, para o bem e para o mal [15].

Outros vieses importantes (e.g. autoconfiança excessiva, aversão à perda, viés do presente e desconto hiperbólico etc.) e sugestões para contorná-los podem ser encontrados na série CVM Comportamental [14] [15] [16].

Além das heurísticas e vieses, pesquisadores alertam para “o impacto das emoções na nossa vida financeira e em nossos investimentos”. Euforia, vaidade e contentamento são algumas das emoções que podem afetar a vida financeira do tomador de decisão.

Segundo eles, o desafio está em “distribuir recursos limitados finitos entre diversas necessidades/desejos muitas vezes conflitantes” [17].

Isto posto, este artigo humildemente sugere 3 dicas iniciais para uma vida financeira mais saudável:

1. Experimente! Dê o primeiro passo com aquilo que não for lhe faltar – R$100, R$ 50, R$ 25. Efetive suas intenções de ganhar dinheiro. Abra uma conta gratuitamente em uma corretora qualquer – preferencialmente por aquelas que não cobram corretagem para produtos específicos (e.g. Clear, Modalmais, XP Investimentos, etc.). Então, compre ações – para ganhar com a distribuição de juros e dividendos; compre fundos imobiliários – para ganhar com a distribuição de proventos; e compre títulos públicos – para proteger seu patrimônio da inflação. Faça você mesmo. Experimente investir para conhecer. Conheça os produtos e seus processos. Conheça por meio da prática. Observe seu patrimônio crescer e ser construído, pouco a pouco. Experimente recorrentemente os produtos mais arriscados – daqueles que você pode perder tudo no dia seguinte – e os mais seguros também – daqueles que você só perderá tudo se o mundo quebrar. Aprenda e ganhe experiência [18]. Faça você mesmo – deixe um pouco de lado, por exemplo, os conselhos dos gerentes de banco para “investimentos” em títulos de capitalização e outros produtos “empurrados”; saia da poupança.

2. “Deus é paciência. O contrário é o diabo” [19]. Emoções, tensão, pressa, cansaço, fome, entre outros podem prejudicar a tomada de decisão! Tome suas decisões de investimento com tempo e calma, de forma reflexiva e fria. Como sugere Richard Thaler, “monte uma carteira diversificada e não preste nenhuma atenção nela”.

3. Se possível, execute um plano (regras) de investimento conhecido(as) e bem elaborado(as); ou planeje as regras e conte com a execução de um terceiro – outra pessoa ou sistema; conte com a tecnologia para programar seus investimentos. Lembre-se: separar planejamento de execução pode ajudar a contornar as dificuldades temporais, pois “as preferências do planejador são consistentes ao longo do tempo (diferentemente daquelas dos fazedores)” [20]. As regras do plano ajudam a governar o comportamento da execução [21].

Por fim, vimos que a revolução tecnológica – materializada em apps, fintechs e home brokers – tem facilitado os processos de negociação e investimentos. Entretanto, o comportamento dos investidores brasileiros pode evoluir em mais conhecimento, menos empréstimos e mais e melhores investimentos, de forma a contornar vieses e emoções para tomar boas decisões e colher bons frutos no futuro. A tecnologia está pronta e a ciência pode ajudar. Basta dar os primeiros passos: experimentar e conhecer.

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Nota: Nas palavras da CVM Educacional, para saber mais sobre juros compostos:

“Vamos entender o que é juro?

Quando você faz um financiamento, está usando dinheiro que não tem naquele momento e prometendo pagar depois, com um valor a mais: esse valor é o juro. Ex.: se você comprar uma televisão a prazo, se ela custava 1.000 reais à vista e você pagou o total de R$ 1.200 parcelado, você pagou 200 reais de juros.

Geralmente, os juros são cobrados como porcentagens por um período de tempo, por exemplo, 15% ao ano (a.a.) ou 1,17% ao mês (a.m.). Se você consumir R$ 1.000,00 no cartão de crédito e não conseguir pagar a fatura daquele mês e pagar no mês seguinte, com taxa de juros de 11% ao mês, terá que quitar R$ 1.110,00. Ou seja, os R$ 1.000,00 utilizados e mais R$ 110,00 de juros.

Em investimentos de renda fixa, o juro funciona ao seu favor. Quando você compra um título de 1.000 reais que rende 1% ao mês, ao final de um ano, o rendimento bruto (sem descontar inflação ou impostos) será de aproximadamente 12,7%, ou seja, 127 reais. O crédito, a poupança, as aplicações em renda fixa e em fundos de investimentos são calculadas com juros compostos. Diferente do juro simples, os juros compostos são calculados em cima dos valores acumulados anteriormente, juros sobre juros, que produzem efeito bola de neve (a longo prazo) conforme se observa no gráfico”

Créditos da imagem: CVM Educacional via WhatsApp (21 9 8560 3309)

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Referências

[1] FLACH, N. “Os bancos não sobreviverão às novas tecnologias”. Isto É Dinheiro, 31 out. 2014. Disponível em: <https://www.istoedinheiro.com.br/noticias/entrevistas/20141031/bancos-nao-sobreviverao-novas-tecnologias/204607> Acesso em: 12 fev. 2019.

[2] TAUHATA, S. ‘Bancos vão se tornar empresas de tecnologia’. Valor Econômico, 29 set. 2018. Disponível em: <https://www.valor.com.br/financas/5875499/bancos-vao-se-tornar-empresas-de-tecnologia> Acesso em: 12 fev. 2019.

[3] BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Economia Bancária – 2017. Banco Central do Brasil, 31 dez. 2017. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/publicacoes/relatorioeconomiabancaria> Acesso em: 12 fev. 2019.

[4] DINO. Bancos investem em tecnologia, focados na melhor experiência do cliente. Exame, 6 nov. 2018. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/negocios/dino/bancos-investem-em-tecnologia-focados-na-melhor-experiencia-do-cliente/> Acesso em: 12 fev. 2019.

[5] FINANCIAL STABILITY BOARD. Financial stability implications from fintech: supervisory and regulatory issues that merit authorities’ attention. Financial Stability Board, 27 jun. 2017. Disponível em: <http://www.fsb.org/wp-content/uploads/R270617.pdf> Acesso em: 12 fev. 2019.

[6] RANGEL, A. Empresas de tecnologia para finanças têm alta de 20% no investimento. Folha de São Paulo, 21 nov. 2016. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/11/1833615-empresas-de-tecnologia-para-financas-tem-alta-de-20-no-investimento.shtml> Acesso em: 12 fev. 2019.

[7] HORN, G. As 5 tendências de fintech para 2019. Estadão, 29 dez. 2018. Disponível em: <https://link.estadao.com.br/blogs/seu-bolso-na-era-digital/as-5-tendencias-de-fintech-para-2019/> Acesso em: 12 fev. 2019.

[8] KRUSE, T. Tecnologia vira disciplina em cursos de finanças. Estadão, 10 jul. 2018. Disponível em: <https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,tecnologia-vira-disciplina-em-cursos-de-financas,70002396338> Acesso em: 12 fev. 2019.

[9] ANBIMA. Menos da metade dos brasileiros têm dinheiro aplicado em produtos financeiros. ANBIMA, 16 ago. 2018. Disponível em: <http://www.anbima.com.br/pt_br/noticias/menos-da-metade-dos-brasileiros-tem-dinheiro-aplicado-em-produtos-financeiros.htm> Acesso em: 12 fev. 2019.

[10] TAKAR, T. Estudo: brasileiro conhece bolsa, mas fica na poupança ou não investe nada. UOL, 24 jul. 2018. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/financas-pessoais/noticias/redacao/2018/07/24/poupanca-investimento-preferido-e-bolsa-mais-lembrado.htm> Acesso em: 12 fev. 2019.

[11] PASSARELLI, H. Com juro recorde, dívida dos brasileiros no rotativo do cartão de crédito dispara. Estadão, 14 fev. 2016. Disponível em: <https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,com-juro-recorde–divida-dos-brasileiros-no-rotativo-do-cartao-de-credito-dispara,10000016362> Acesso em: 12 fev. 2019.

[12] BORTOLOTTO, A. P. 99,4% dos brasileiros não conhecem o conceito de juros compostos e isso é preocupante. Infomoney, 27 mar. 2017. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/blogs/economia-e-politica/terraco-economico/post/6279794/dos-brasileiros-nao-conhecem-conceito-juros-compostos-isso-preocupante> Acesso em: 12 fev. 2019.

[13] AGÊNCIA BRASIL. Inadimplência atinge 62 milhões de brasileiros e afeta 3% do crédito. Veja, 27 nov. 2018. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/economia/inadimplencia-atinge-62-milhoes-de-brasileiros-e-afeta-3-do-credito/> Acesso em: 12 fev. 2019.

[14] CVM. Vieses do investidor. CVM, 2015. Disponível em: <http://pensologoinvisto.cvm.gov.br/wp-content/uploads/2015/12/Serie-Vieses-Comportamentais_vol1_vieses_investidor.pdf> Acesso em: 12 fev. 2019.

[15] CVM. Vieses do poupador. CVM, 2016. Disponível em: <http://pensologoinvisto.cvm.gov.br/wp-content/uploads/2016/12/cartilha_vol2_vieses_poupador_FINAL.pdf> Acesso em: 12 fev. 2019.

[16] CVM. Vieses do consumidor. CVM, 2017. Disponível em: <http://pensologoinvisto.cvm.gov.br/wp-content/uploads/2016/01/CVMComportamental_Vol3_ViesesConsumidor.pdf> Acesso em: 12 fev. 2019.

[17] GET-PE. O impacto das emoções na nossa vida financeira e em nossos investimentos. CVM, 17 mai. 2016. Disponível em: <http://pensologoinvisto.cvm.gov.br/wp-content/uploads/2016/06/Apresent-GETPE-Impacto-Emocoes.pdf> Acesso em: 12 fev. 2019.

[18] KAHNEMAN, D. Maps of bounded rationality: psychology for behavioral economics. The American Economic Review, Vol. 93, No. 5 (Dec., 2003), pp. 1449-1475

[19] ROSA, J. G. Grande sertão: veredas. 1956.

[20] PFEIFER, F. F. A história da economia comportamental. 2018. 90 f. Monografia (Graduação em Economia) – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.

[21] THALER, R. Toward a positive theory of consumer choice. Journal of Economic Behavior and Organization, Vol. 1, 1980, pp. 39 – 60.

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