O dia a dia em uma “nudge unit”… em São Paulo!

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Por Flora Finamor Pfeifer em fevereiro 5, 2019

Uma coisa muito bacana da economia comportamental – e aqui, devo dizer, não me refiro apenas à economia comportamental, mas à toda área de estudo que compõem as ciências comportamentais – é a sua aplicação prática. Já que a teoria deste campo diz respeito a modelos descritivos, isto é, de como as pessoas realmente tomam decisões, a gente aprende muito sobre os comportamentos e ações da sociedade. Isso funciona para, primeiramente, prever padrões com maior precisão do que se supondo uma escolha perfeita e racional e, em segundo lugar, para descobrir por que não realizamos o comportamento ótimo – e o que devemos modificar em nosso contexto para atingi-lo.

Em 2017, Richard Thaler ganhou o nobel (prêmio The Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel) de economia pelas suas contribuições na economia comportamental. Uma das quais fez Thaler mais atrair a atenção popular foi o livro publicado em parceria com o advogado e pesquisador Cass Sunstein, intitulado ‘Nudge: o empurrão para a escolha certa’.

Em Nudge, vemos formas de modificar a arquitetura de escolha (como apresentamos uma escolha, ação, ou seja, as estruturas existentes de políticas que lidam com o comportamento) para direcionar a uma decisão melhor do ponto de vista do bem estar social. Esta “intervenção” deve ser simples, de baixo custo, transparente e preservar a liberdade de escolha. Os autores caracterizaram essa linha de política governamental como “paternalismo libertário”, descrevendo-o como um ‘empurrãozinho para o bem’. David Cameron, no Reino Unido, e Barack Obama, nos EUA, chancelaram a criação de unidades de “ciências comportamentais aplicadas” (ou, como ficaram popularmente conhecidas, “nudge units”), durante suas administrações. Logo, elas espalharam-se pelos países desenvolvidos, nos diversos níveis de governo, com exemplos públicos e privados, em parcerias com a academia ou com instituições internacionais. Recentemente, voltou-se o interesse aos países em desenvolvimento, que lidam muitas vezes com temas complexos, particulares de seus contextos, e demonstram grande potencial de aplicação e aprendizado para as ciências comportamentais.

Em meados do ano passado comecei a trabalhar no 011.lab, o laboratório de inovação em governo da Prefeitura de São Paulo. O pessoal de lá, muito antenado, via potencial na aplicação de ciências comportamentais para a cidade.  Alguns casos já se mostraram efetivos nos países latino americanos, na esfera federal e no Rio de Janeiro. Decidimos apostar nossas fichas no nudge. Digo “apostar fichas” porque essa é uma das principais premissas destes projetos: a lógica de teste. Como estamos lidando com pressupostos sobre o comportamento que afetam as pessoas de forma previsível, mas não absoluta, é importante testar diferentes hipóteses e versões e observar o que tem mais impacto naquele contexto. Dessa forma, conseguimos comprovar o potencial de alterações tão pequenas (como o conteúdo de uma carta, a forma com que os servidores se dirigem ao munícipe, um sms…), aperfeiçoá-las e aí então implementar na escala total.

Até agora, realizamos um projeto em parceria com a Fazenda visando o aumento da arrecadação de impostos em atraso, o combate aos criadouros do Aedes aegypti, o aumento da cobertura vacinal da febre amarela e a redução do absenteísmo no Hospital do Servidor Municipal. Estes projetos estão em andamento, então não posso – ainda – afirmar se tiveram algum resultado positivo.

O fato de estas iniciativas estarem surgindo dentro de um laboratório de inovação em governo configura uma simbiose muito interessante, sobre a qual falarei nos próximos textos. Mas adianto que a metodologia própria e os objetivos do lab, que prezam muito pela co-criação, desenho centrado na pessoa e técnicas de design casam muito com a aplicação dos insights cognitivos – e geram frutos muito bacanas!

Por fim, afirmo que a experiência prática está trazendo ensinamentos que nenhum livro na área foi capaz de me transmitir. Os desafios e entraves na aplicação dessas políticas vão além de um “beta” não significante. Entender os conceitos e teorias das ciências comportamentais é o bê-a-bá: o setor público per se apresenta seus próprios desafios e o lidar com pessoas reais incorre em uma grande responsabilidade.

#Nudge for good 😉

Site do 011: https://011lab.prefeitura.sp.gov.br/

Quer saber mais sobre essas experiências? No dia 13 de fevereiro estarei no Campus Party, às 14h, aqui em São Paulo, pra contar um pouco sobre elas! https://brasil.campus-party.org/

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