Linhas de Chegada

Análise Social | Indicações | Livros

Por Flora Finamor Pfeifer em janeiro 2, 2019

Todo treino de atletismo é a mesma coisa: meu técnico reclama porque fui mais devagar na parte do meio do que na última. “Você tem que aprender a ritmar a sua corrida como um todo” – ele diz – “se aguentava ir mais rápido no final, é porque seu corpo ainda conseguiria forçar mais”. Concordo: de fato, tenho muito a melhorar. Mas o segredo para este sprint final não está só nos meus músculos – parte importante está na minha cabeça.

A linha de chegada exerce um papel fundamental para o desempenho esportivo nas provas de corrida – e os seus paralelos nos demais esportes possuem função similar. O capítulo 17 (“Why Running on a Treadmill is Like Running a Business”) do livro This is Your Brain on Sports explora este tema.

O capítulo é ilustrado por casos de atletas que foram além dos seus supostos limites físicos para poderem terminar a prova. Gabriela Andersen-Schiess, maratonista suíça, tem uma história emocionante na Olimpíada de 1984. Ao entrar no L.A. Coliseum, onde a prova terminaria, ela parece não aguentar mais. Tropeça muitas vezes e seu corpo está em exaustão – tanto que os organizadores se aproximam para ver se ela precisa de auxílio médico. Ela anda, com os músculos completamente duros, e inclinada para o lado. Demora cerca de cinco minutos para completar os 400m finais e, quando cruza a linha, cai nos braços dos oficiais, antes que possa dar mais um passo sequer (aqui o vídeo do acontecimento).

A história de Gabriela de fato impressiona, tamanha perseverança. Mas o padrão de exaustão após cruzar a linha de chegada é um  comportamento recorrente. A medida exata do final da prova impacta a performance. É o objetivo – e tendemos a nos ater fortemente a objetivos.

Um estudo de 2009 da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, mostrou que o cérebro calcula o quão intenso deixará o corpo agir com base nas suas expectativas da duração da prova. Compararam séries de exercícios com ciclistas, colocando-os para performar com distâncias conhecidas e, em outros casos, sem saber. Quando não tinham a informação da quilometragem, a performance caiu abruptamente. Ao serem avisados de que estavam no km final, a performance de todos voltou ao ápice – mesmo mais cansados. É uma questão de regulação mental. Fizeram um outro estudo com corredores, mudando suas expectativas com relação ao tempo e distância durante a corrida. Em todos os testes os atletas desempenharam durante 20 minutos: no primeiro, eles tinham ciência do tempo desde o início; no segundo, não sabiam por quanto tempo seria; no terceiro, foram avisados de que correriam por dez minutos e, no nono minuto de teste, ficaram sabendo do tempo adicional. Neste último, os corredores reportaram ficarem muito mais fadigados e descontentes, apesar de não haver alteração significante nas suas intensidades, batimentos cardíacos e consumo de oxigênio. A fadiga, aqui, teve relação com as expectativas mentais.

Esta condição, contudo, não se restringe aos esportes. O trabalho com metas na nossa vida diária – seja na profissional ou pessoal – dosa as expectativas cerebrais para o dispêndio de energia. E ter objetivos menores, segmentados e claros, auxilia na percepção de progresso.

Estipular metas funciona tanto quando o fazemos para nós mesmos, quanto quando outros o fazem por nós. Doações de caridade nesse formato, por exemplo, aumentam drasticamente quando se aproximam da quantia final: temos prazer ao atingir um alvo.

Os objetivos funcionam como motivadores e aproximar-nos deles faz com que tenhamos uma força extra para atingi-los com mais afinco. Concluí-los, por sua vez, traz-nos uma recompensa interna positiva, e nos faz querer mais. O cérebro precisa de pontos de referência para comandar o corpo. E é fascinante ver que nossos limites são em boa parte controlados pelas nossas percepções internas.

Como escrevo neste dia trinta e um de dezembro, o último de 2018, não posso deixar de associar as metáforas de linhas de chegada à renovação do tempo. Roberto Pompeu de Toledo inseriu essa “análise comportamental” aqui feita em seu poema Cortar o Tempo – segue um trecho:

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui pra adiante vai ser diferente 

(…)


E você, leitor – quais são as suas linhas de chegada internas para 2019?
Esperamos que continue nos acompanhando — feliz ano novo!


Referências:


Wertheim, L. Jon e Sommers, Sam. This is Your Brain on Sports: The Science of Underdogs, the Value of Rivalry, and What We Can Learn from the T-Shirt Cannon. 2017.

Swart J., Lamberts, R. P., Lambert, M. I., Lambert, E. V., Woolrich, R. W., Johnston, S., and Noakes, T. D. (2009). Exercising with reserve: Exercise regulation by perceived exertion in relation to duration of exercise and knowledge of endpoint. British Journal of Sports Medicine, 43, 775 – 781.

Baden, D. A., McLean, T. L., Tucker, R., Noakes, T. D., and Gibson, A. S. (2005). Effect of anticipation during unknown or unexpected exercise duration on rating of perceived exertion, affect, and psychological function. British Journal of Sports Medicine, 39, 742 – 746.

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