Escassez: uma nova forma de encarar a falta de recursos

Análise Social | Livros | Políticas Públicas

Por Flora Finamor Pfeifer em novembro 22, 2018

Análise do livro Escassez: uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações, de Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir, 2016, da editora Best Business. Por Flora Finamor Pfeifer e Gabriela Galvão. 

Lionell Robbins, em
An Essay on the Nature and Significance of Economic Science (1932), define economia como a “Economia é a ciência que estuda o comportamento humano como uma relação entre fins e meios escassos passíveis de usos alternativos” (ROBBINS, 1932). Sendo assim, temos por esta o estudo de escolhas, pressupondo, dessa forma, situações de escassez. Tratamos de como os meios escassos, como tempo, dinheiro ou esforço, e as opções por seu uso regem as relações humanas. A economia é “o estudo de como usar meios limitados para alcançar nossos desejos ilimitados; de como pessoas e sociedades administram a escassez física” (MULLAINATHAN e SHAFIR, 2016, 22).

De certa forma, é escasso tudo o que é finito. Pelo termo, stricto sensu, mesmo quantias grandes absolutas representam situações de escassez – o tempo de vida de um recém nascido é escasso, assim como a poupança de um milionário.

Contudo, Eldar Shafir e Sendhil Mullainathan abordam uma outra definição de escassez em seu livro “Escassez:uma nova forma de pensar a falta de recursos” (2016 – Best Business).  Definem escassez levando em conta a percepção relativa do agente sobre a situação. Ou seja, é a “sensação subjetiva de ter mais necessidades que recursos para atendê-las” (CLARET e PAIVA, 2017, 3). Como explicam Mullainathan e Shafir sobre as diferenças entre as definições de escassez:

Nossa abordagem de escassez é diferente. Em economia, escassez é universal. (…) Mas sugerimos que, embora a escassez física seja universal, a sensação que ela traz não é. (…) em uma situação, você estava  bastante consciente da escassez, da finitude do tempo; na outra, a escassez era uma realidade distante, se é que você a sentia. A sensação de escassez é diferente da realidade física (MULLAINATHAN e SHAFIR, 2016, 23-24).

A escassez, portanto, vai além de uma característica física: ela causa uma consequência mental.

 

A mentalidade de escassez e suas implicações cognitivas

A sensação subjetiva de escassez pode aparecer por diversas razões. Escassez de tempo, de dinheiro, de comida – todos estes fatores implicam na emergência de características comuns à capacidade cognitiva dos indivíduos, como mostram os estudos sobre tomada de decisão.  Como caracteriza Peter Kindle, em sua revisão crítica do livro de Mullainathan e Shafir, publicada no Journal of Human Behavior in the Social Environment:

Escassez, a sensação subjetiva de que alguém tem menos de algo do que ele precisa, captura a mente. Seja por falta de dinheiro, tempo, amigos ou comida, a escassez influencia a cognição humana, as escolhas e o comportamento de maneiras notavelmente similares: “a mente orienta-se automaticamente e poderosamente em direção às necessidades não satisfeitas” (MULLAINATHAN e SHAFIR, 2016, 7) (KINDLE, 2015, 1).

E o que, de fato, configura esta mentalidade de escassez?

A escassez captura nossa mente pois necessita nossa atenção. É importante que lidemos com determinado fato, naquele momento – é uma necessidade. Sendo assim, ficamos muito mais atentos e eficientes. Nosso foco está inteiramente dedicado a aquela tarefa ou problema. Não há espaço para distrações e para a procrastinação, e tendemos a errar menos por descuido. Ela gera o que é chamado de dividendo de foco, e isso é algo positivo. Somos mais precisos em nossas tarefas e decisões, dado que não há margem para erro. E isso é algo automático: não uma ação deliberada, algo que ocorre por conta do quadro de escassez. Como explicam os autores:

A escassez captura a mente. Aqui a palavra captura é essencial: isso acontece inevitavelmente e está fora de nosso controle. A escassez nos permite fazer algo que não conseguiríamos fazer sozinhos com a mesma facilidade (MULLAINATHAN e SHAFIR, 2016, 43).

Os autores caracterizam o quadro como tunelamento (ou “entrar no túnel”). O processo decisório fica excessivamente focado no problema saliente e imediato. Todavia, temos uma visão míope dos demais fatores, deixando de levar em conta aspectos contextuais, perspectivas futuras, entre outros. O foco exacerbado para um determinado aspecto traz também consequências negativas. Como explicam Mullainathan e Shafir:

Focar a atenção em uma coisa significa negligenciar outras. (…) O poder de concentração é também o poder de excluir coisas. Em vez de dizer que a escassez nos faz “focar”, poderíamos facilmente dizer que a escassez nos leva a entrar no túnel: concentrar com determinação a atenção na administração da escassez presente. O termo entrar no túnel tem o objetivo de evocar a visão em túnel, a perda da visão periférica, o estreitamento do campo visual em que objetos dentro do túnel ficam sob um foco mais acentuado e ao mesmo tempo nos tornando cegos para tudo o que está na periferia, do lado de fora (MULLAINATHAN e SHAFIR, 2016, 46-47).

As situações de escassez não permitem a opção, confortável, da inação: o indivíduos devem tomar decisões. Frente à falta de recursos, há uma sobrecarga na largura da banda mental (mental bandwith), o que leva a uma maior probabilidade de cometerem erros por não considerarem fatores fora do túnel. A largura da banda é uma forma de medirmos diretamente a capacidade mental, e está diretamente associada à capacidade cognitiva (inteligência fluída) e de autocontrole (controle executivo) dos agentes.

Mullainathan e Shafir concluem o capítulo em seu livro salientando as implicações da dicotomia da mentalidade da escassez:

Focar é positivo: a escassez foca nossa concentração no que parece importar no momento. Entrar no túnel, não: a escassez nos leva a entrar no túnel e negligenciar outras coisas, possivelmente mais importantes (MULLAINATHAN e SHAFIR, 2016, 47).

Essa visão míope do resto do mundo faz com que tomemos decisões equivocadas que acabam realimentando a escassez, entrando em um ciclo vicioso que auto perpetua a situação. Por exemplo, ao pagarmos uma conta com um empréstimo, ou a faltarmos a uma aula para estudar a matéria atrasada. Esta falta de folga faz com que optemos por uma resolução da situação momentânea, mas que acaba piorando a situação um período de tempo a frente.

 

Mentalidade de Escassez e sua relação com a pobreza

Apesar da mentalidade de escassez aparecer sob diversas formas de necessidade subjetiva, há uma diferenciação de escassez sob situações de pobreza.

O que, afinal, define estas situações? Como diferenciar a sensação subjetiva dessa mentalidade de escassez de situações de pobreza? – seria obviamente falso dizer que um executivo ocupado é penalizado da mesma forma que alguém sem recursos para comprar comida. Chegamos então na pergunta que pressupõe todas as definições de pobreza: como medir o grau de privação de uma pessoa?

A pobreza, nesta definição, tem relação com a falta de arbítrio. Decidir não ser pobre, mesmo que por um breve período de tempo, não é uma opção – o que não ocorre com certas  formas de escassez aqui mencionadas. A escassez de um empresário que é muito ocupado por ter muitos projetos é de certa forma arbitrária, o que limita os danos causados pela escassez pois permite uma válvula de segurança (há a possibilidade de se assumir menos projetos, por exemplo). A falta de arbítrio não é, ainda, algo exclusivo de quem não tem recursos monetários – uma dieta devido a um problema de saúde, ou quem é profundamente ocupado pois possui dois empregos para pagar o aluguel, como os autores exemplificam, tampouco possuem arbítrio quanto a suas formas de escassez.

Ou seja, pobreza é definida no livro como “casos de escassez econômica em que mudar o que você quer não é viável” (MULLAINATHAN e SHAFIR, 2016, 208). Não há liberdade de escolha.

Vale ressaltar que “o que acreditamos precisar depende do que os outros tem e do que nos acostumamos a ter” (MULLAINATHAN e SHAFIR, 2015, 208). Água encanada, por exemplo, é uma necessidade em algumas partes do mundo, enquanto em outras partes é um luxo.

O grande desafio mental inserido na pobreza é maior do que o desafio material. A definição trabalhada no livro de Sendhil e Mullainathan fogem da ótica restritiva de renda como variável focal para pobreza e consideram percepções resultantes de liberdade de escolha. Não só importa a qualidade de educação fornecida importa, mas a absorção que esta pessoa vai ter do que lhes está sendo ensinado. Não só importa o nível médio de renda, mas se essa pessoa está conseguindo fazer escolhas que lhe permitam com que sua renda esteja sendo gasta do modo mais eficaz. A mentalidade de escassez oferece um passo mais a fundo para o problema da pobreza.  Ao apontar uma nova percepção sistematizada de consequências, pode provar-se útil para a formulação de soluções.

            

Políticas que levam em conta o componente humano

          Levando em conta esta ótica de mentalidade de escassez para a formulação de políticas de combate à pobreza, dirige-se o foco ao comportamento das pessoas, ao invés de se olhar apenas a estrutura dos programas. Modifica-se, então, a estrutura dos programas para que se adequem aos comportamentos observados, reduzindo a distância entre a intenção da política pública e o resultado que de fato se obtém.

Alguns componentes que devem ser levados em conta:

  • Manter a política no senso de urgência

Muitas vezes, supõe-se que programas de auxílio desemprego podem fazer com que a pessoa se “acomode” e, então, estipulam um prazo máximo para estes programas. Nos EUA, colocou-se um prazo de cinco anos. Contudo, isto mostra-se extremamente ineficaz: por ser um prazo longo, sai do senso de urgência da pessoa, que se acostuma com essa “folga” orçamentária e não consegue perceber até que seja tarde demais. Trabalhar com prazos intermediários de médio prazo, como uma redução gradual do auxílio, ou então limites mensais em um ano e não anuais em uma vida, poderiam ajudar neste quadro.

  • Saber priorizar

A largura da banda sobrecarregada pode levar a um número maior de falhas. Por isso, na formulação de políticas, certas tolerâncias que deveriam ser associadas a esses programas, correspondendo ao esforço das pessoas com renda mais baixa acoplado as circunstâncias a que estão vivendo, fazendo com que pequenos deslizes não comprometam o trabalho geral. Geralmente, investe-se em programas e cursos de capacitação para a formação profissional de baixa renda. Contudo, estes cursos nem sempre mostram-se eficazes. Se a pessoa falta uma vez, não consegue mais acompanhar. Testar cursos modulares, com vários pontos de partida, é uma opção. É importante também se levar em conta do que a pessoa está abrindo mão para estar ali, e se, sob essas circunstâncias de escassez, este é realmente o uso mais efetivo de seu tempo:

Quando a pessoa foca de verdade no treinamento ou nos incentivos, em que ela não está focando? (MULLAINATHAN e SHAFIR, 2016, cap. 8).

  • Foco no que realmente importa

A escassez de comida captura a mente e tira o foco em outras coisas importantes. Além de se assegurar a presença física das crianças nas escolas, é necessário assegurar sua “presença mental”. Programas de alimentação na Índia mostraram-se incrivelmente efetivos no desempenho dos alunos.

  • Tangibilizar e trazer para o presente benefícios futuros

Vê-se que é comportamento recorrente entre a população de baixa renda não tomar os remédios diários ou não vacinar seus filhos, mesmo quando há de fato acesso a estes serviços.  Em estudo na região rural de Rajasthan, na índia, um simples quilo de lentilha dado no ato se mostrou como incentivo suficiente para os pais: transferiu um benefício intangível futuro para algo tangível no presente.

          

Referências:

  • ROBBINS, Lionel. An Essay on the Nature and Significance of Economic Science, 1932.
  • CLARET, Antônio e PAIVA, Luis. Insights Comportamentais e Políticas de Superação de Pobreza. Em: Research Brief – Centro Internacional de Políticas Para o Crescimento Inclusivo, Agosto 2017.
  • KINDLE, Peter A. Book Review: Scarcity: Why Having Too Little Means So Much, 2015. Em: Journal of Human Behavior in the Social Environment 25(3):284-286, Março de 2015.
  • MULLAINATHAN, Sendhil e SHAFIR, Eldar. Escassez: Uma Nova Forma de Pensar a Falta de Recursos na Vida das Pessoas e nas Organizações. Rio de Janeiro: Best Business, 2016.
  • SUNSTEIN, Cass e THALER, Richard. Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth, and Happiness. New Haven: Yale University Press, 2008.
  • MULLAINATHAN, Sendhil. Solving Social Problems with a Nudge, 2009. Em: <https://www.ted.com/talks/sendhil_mullainathan#t-964540>

 

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