Romanos, motoristas bêbados e fake news: uma explicação comportamental

Análise Social

Por isabelatazima em outubro 26, 2018

Por qual motivo caímos em fake news? As ciências comportamentais podem ajudar a explicar!

 

Após o assassinato de Júlio César, em 44 AC, a república de Roma via-se dividida na busca por um sucessor. De um lado, seu filho adotivo, Otávio, e de outro o general Marco Antônio, o braço-direito de César.

O historicamente curioso é que o gatilho inicial desta batalha turbulenta foi justamente as fake news (notícias falsas) : Otávio, se mostrando um ótimo propagandista, usava frases de efeito curtas, gravadas em moedas, para difamar e propagar desinformação sobre Marco Antônio, com alguma aproximação do que seriam manchetes de jornal hoje em dia. Dentre as principais acusações estavam que ele havia sido corrompido por Cleópatra (sua amante), líder de outra pátria, e, portanto, questionando sua fidelidade quanto a potencial governante de Roma. Outras acusações giravam em torno dele ser “bêbado e mulherengo”, não sendo mais uma vez apto ao cargo.

No entanto, é entendido que os senadores não caíram na retórica de Otávio, percebendo-o como o menor dos males. Este, contudo, conseguiu que Cleópatra, e consequentemente Marco Antônio, declarassem-se inimigos do mentiroso e uma guerra foi travada. As forças armadas de Marco e Cleópatra perderam a batalha de Áccio, ambos tirariam suas próprias vidas e, posteriormente, Otávio tornaria-se Augusto, o primeiro imperador do império romano.

Mas afinal como definir o escopo do que são fake news? Primeiramente, é importante ressaltar o que elas NÃO são: não são somente boatos, difamações e mentiras contadas. Pela definição do the Collins Dictionary, ​são informações falsas, geralmente sensacionalistas, que são disseminadas em um formato jornalístico. Outros dicionários, como o Cambridge Dictionary, acrescentam a intenção de influenciar visões políticas ou de ser uma piada.

Logo vemos que fake news não são restritas ao surgimento da internet e das redes sociais, no entanto, seu poder de alcance, rapidez e engajamento são muito maiores e suas consequências podem ser bem tangíveis. Este foi o caso do #pizzagate nos Estados Unidos, onde uma pizzaria foi alvo de tiroteios porque noticias falsas foram compartilhadas alegando que esta era uma sede de tráfico e abuso de crianças comandada por Hillary Clinton e seu chefe de campanha John Podesta.

Você pode estar pensando na sua imunidade a este tipo de situação, pois é muito fácil de distinguir as notícias falsas das reais, certo? Bom, este estudo feito em Stanford mostra que na verdade podemos ter muita dificuldade de separar as coisas claramente.

 

O porquê de acreditarmos tanto nas fake news pode ser explicado por um fenômeno estudado nas ciências comportamentais: o viés de confirmação. Ocorre quando existe uma tendência em interpretar, favorecer ou até mesmo se recordar de informações que estejam nos conformes do que a pessoa acredita previamente. O problema é que quase automaticamente começamos a ignorar ou rejeitar – cognitivamente – as informações que vão contra aquilo que acreditamos simplesmente porque elas não nos agradam. Muitas redes sociais usam disso na formulação de seu algoritmo, mostrando apenas o conteúdo que você tem gostado (“curtido”) – assim, vendo o que lhe agrada, você passa muito mais tempo nelas. Contudo, isso pode fazer com que nossas redes sociais – hoje, local onde muitas pessoas se informam – virem “bolhas, cada vez mais densas, reforçando a polarização em cenários conflitantes, uma vez que ficamos constantemente submetidos a apenas um tipo de perspectiva e argumentos.

Mas o problema pode ir além de brigar com parentes no facebook por conta da política. Envolve também várias outras tomadas de decisões. Por exemplo, quando alguém acha que vai conseguir dirigir bem mesmo após beber umas. A pessoa DESEJA que irá dirigir bem, porém, isso nada mais é do que uma maneira de afastar os argumentos lógicos de que ela NÃO VAI dirigir bem e evitar o conhecimento de algo decepcionante sobre ela mesma.

Mas então como podemos fazer para driblar o viés de confirmação, e reconhecer notícias falsas (mesmo que no fundo exista um desejo de que elas fossem verdade)?

O Tribunal Superior Eleitoral, o Facebook e o Whatsapp estão tomando medidas para evitar que este tipo de notícia se propague (identificando, por exemplo, quem criou e começou a divulgar as fake news). Mas é possível notar, com um olhar mais profundo, características em comum dessas “notícias”. Veja as algumas recomendações de como as identificar (ou use apps):

  • Avalie a fonte, o site e o autor do conteúdo

Muitos sites publicadores de fake News têm nomes parecidos com endereços de sites de notícias. Portanto, avalie o endereço e verifique se o site é confiável ou não. Também veja se outros conteúdos do site também são duvidosos.

  • Avalie a estrutura do texto

Site que divulgam fake News costumam apresentar erros de português, de formatação, letras em caixa alta e uso exagerado de pontuação.

  • Preste atenção na data da publicação

Veja se a notícia ainda é relevante e está atualizada (pode não ser uma fake news, mas estar totalmente fora do contexto, o que leva a conclusões falsas).

  • Leia mais que só o título e o subtítulo

Leia a notícia até o fim. Muitas vezes, o título e o subtítulo não condizem com o texto.

  • Pesquise em outros sites de conteúdo

Duvide se você receber uma notícia bombástica que não esteja em outros sites de notícia.

  • Veja se não se trata de site de piadas

Alguns sites de humor usam da ironia para fazer piada

  • Só compartilhe após checar se a informação é correta

Não compartilhe conteúdo por impulso. Você é responsável pelo o que você compartilha.

Sabemos que é um processo custoso, mas na era da informação precisamos ser cautelosos com o que estamos consumindo. Não deixe que o seu viés fale por você!

 

Bibliografia:

https://www.usatoday.com/story/tech/2016/11/19/how-facebook-plans-crack-down-fake-news/94123842/

https://oglobo.globo.com/brasil/presidente-do-tse-convida-representantes-de-haddad-bolsonaro-para-discutir-fake-news-23157865?utm_campaign=anexo&utm_source=anexo

https://www.collinsdictionary.com/pt/dictionary/english/fake-news

http://www.blog.saude.gov.br/index.php/servicos/53504-8-passos-para-identificar-fake-news

https://www.psychologytoday.com/us/blog/science-choice/201504/what-is-confirmation-bias

https://www.ft.com/content/aaf2bb08-dca2-11e6-86ac-f253db7791c6

https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/fake-news

https://www.techtudo.com.br/dicas-e-tutoriais/2018/10/como-saber-se-uma-noticia-e-fake-news-pelo-whatsapp.ghtml

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