GEEC + CLOO: Economia Comportamental aplicada ao combate à corrupção – Brasil

Análise Social | Encontros | Políticas Públicas

Por isabelatazima em outubro 26, 2018

O combate à corrupção é tema cada vez mais presente na discussão pública brasileira, principalmente na época de eleições. Enquanto a mídia toma as operações e julgamentos como centro das atenções, a procura de soluções urgentes, inclusive aquelas propostas pelos presidenciáveis, ainda se prendem a um modelo antiquado que desconsidera os aspectos comportamentais do fenômeno, como analisa o professor da UFRJ, Gabriel Cabral. A fala é parte do novo ciclo de palestras promovidas pelo Grupo de Estudos em Economia Comportamental da USP (GEEC), em parceria com a CLOO – Behavioral Insights Unit.

Segundo o professor, o combate à corrupção atualmente se dá por meio de apostas tradicionais: fiscalização, punição, controle, informação, conscientização e educação (compliance, por exemplo). Essas medidas, porém, apesar de intuitivas, pressupõem que os indivíduos possuem racionalidade plena e ilimitada (unbounded), tal como considerados por modelos econômicos de criminologia, como o de  Gary Becker, ou seja, pessoas que estabelecem prós e contras antes de tomar suas decisões, tendem a procurar o máximo de benefício próprio e tomam decisões de forma consistente. Esse modelo, segundo Gabriel, é incompleto, visto que os estudos mais recentes mostram que nem sempre as pessoas agem de acordo com o que seria esperado por um raciocínio estritamente econômico.

É aí que entram os estudos da Economia Comportamental. O palestrante explica que a questão da auto-imagem é muito importante: estamos constantemente diante de um conflito entre manter uma auto-imagem íntegra de nós mesmos e nos beneficiarmos de comportamentos desonestos. Contudo, diferentemente do raciocínio estritamente econômico, que segue uma lógica previsível, este conflito interno pode ser resolvido por mecanismos internos de racionalização, ou seja ressalvas ou “desculpas” para que se consiga manter uma auto-imagem positiva mesmo depois de se aproveitar de um comportamento desonesto. “Meu delito não atingirá ninguém diretamente” e “a situação do país me obriga a fazer isso” são desculpas comuns que falamos para nós mesmos, de modo a não afetar nossa auto-imagem como pessoas honestas.

Esse comportamento é observável em situações do dia a dia: furar fila, baixar material ilegal pela internet etc. Todos esses pequenos delitos, apesar de atos desonestos, são de tal forma pequenos que passam “abaixo do radar”, isto é, são racionalizados de forma a não causar danos significativos à auto-imagem. A ideia é que, por mais estranho que seja, grande parte dos corruptos, não se sentem criminosos, pois conseguiram criar boas narrativas para justificar seus desvios. Muitos podem até se achar verdadeiros heróis! Esse comportamento foge do padrão previsível da economia tradicional e, por isso, as políticas públicas tradicionais podem receber uma série de aportes das ciências comportamentais para se tornarem mais efetivas. Elas consideram o combate à corrupção como um maniqueísmo bem versus mal, quando, na realidade, esta questão é mais complexa.

Outra questão é o controle. Presume-se que quanto mais controle, menos comportamentos corruptos ocorrerão, mas a questão é mais complexa do que isso. . Conforme ressalta Gabriel, o controle é uma forma muito eficaz de dissuadir o comportamento desonesto, mas só é de fato interessante quando é muito efetivo – isto é, as investigações descobrem quase todos os delitos, os as pessoas descobertas são julgadas e as punições são severas -, o que costuma ser raro e muito custoso. Isto ocorre porque há um fenômeno de crowding out de motivação intrínseca para agir de forma honesta em um ambiente com muito controle e de falta de confiança (distrust).  Assim, “nenhum controle é mais benéfico do que controle branco ou ineficaz”, conclui o professor.

Nesse sentido, diversas vezes, punições legais (motivação extrínseca) não são tão efetivas quanto morais (motivação intrínseca), pois, no primeiro caso, as pessoas têm apenas a motivação extrínseca para agir honestamente. Gabriel cita medidas simples, mas que são efetivas no combate à corrupção: uso de linguagem clara e direta, pra não abrir brecha para abstrações (racionalizações ou “desculpas” internas); deixar claros os danos reais dos atos corruptos; antecipar  situações concretas e sensíveis em treinamentos (em vez de abordar o tema de forma genérica e abstrata); reiterar responsabilidade individual. Um exemplo disso são lembretes morais, a serem usados logo antes de situações com alto risco de desonestidade . Uma medida simples e barata, mas que reduz a probabilidade de atos corruptos, pois os indivíduos, ao serem primed de valores éticos, acabam por ter maiores dificuldades de racionalizar potenciais atos desonestos.

Por fim, Gabriel apresentou uma série de perigos e armadilhas comportamentais para as políticas de transparência e disponibilização de dados, ressalvando que é preciso se pensar com cuidado no enquadramento das informações disponibilizadas para que tenham o efeito esperado de dissuasão do comportamento desonesto.

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