Entrevista com Carol Trousdell: o dia-a-dia dentro de um Behavioral Insights Team

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Por isabelatazima em outubro 24, 2018

Conheça um pouco da trajetória e do dia-a-dia de Carol Trousdell Franceschini, economista e psicóloga brasileira, que passou a integrar o Behavioral Insights Team dentro do Bank Standards Boards no Reino Unido:

Como você, estudante de economia, conheceu a economia comportamental?

Quando eu era estudante de economia não tinha a mais remota ideia de que existia economia comportamental. Não ouvi uma palavra sobre isso durante toda a minha graduação. Me formei, fui pro mercado financeiro e fiquei trabalhando em M&A entre o Brasil e Nova York – mercado financeiro na veia – e nada de economia comportamental. O que eu via é que o que aprendi na faculdade não tinha nada a ver com o que estava fazendo. O meu coordenador, inclusive, disse isso: “o seu diploma fez você passar dessa porta, mas seu aprendizado começa agora”.

Anos depois, resolvi fazer MBA, e acabei querendo outros caminhos. Tirei um ano sabático e resolvi que não voltaria mais para a economia, resolvi fazer psicologia. Achei que era uma decisão completamente separada, uma mudança de curso. Meu interesse era estudar stress. Fiz cursinho, prestei vestibular e entrei em psicologia na USP. Mas sempre alguém lembrava que eu era economista e me falava dessa tal de economia comportamental. Sinceramente, não foi amor à primeira vista, porque muito do que li era muito ruim. Um economista escrevendo da psicologia cheio de certezas (“a psicologia diz que… qual psicologia?”) – achava sempre muito raso. E era igualmente verdade quando um psicólogo falava de economia. Mas uma hora um texto certo cai na sua mão, foi quando eu li um texto de John Kagel e Alvin Roth. Quando li isso, me apaixonei. Um economista que havia feito parcerias com psicólogos experimentais, e que sabia do que estava falando. Ali eu decidi o que faria da minha vida. Isso foi no final da minha graduação, e decidi emendar um mestrado em psicologia experimental com o tema econômico. Depois, fiz um doutorado neste mesmo ramo. E virou minha paixão.

Como foi sua trajetória após o doutorado?

O meu doutorado foi sanduíche – um pouco em uma universidade e um pouco na outra. A parceria do John Kagel foi com um psicólogo experimental especialista em curvas de desconto, chamado Leonard Green. Queria muito fazer parte do meu doutorado com ele, em St Louis. Fui a um congresso e conversei com ele. Mas esse congresso foi em Seattle, perto do Reed College, que na época ainda não conhecia. O pesquisador Tim Hackenberg estava por perto, e acabei passando lá para conhecê-lo – e amei o que era feito lá. Acabei optando pelo Reed College, muito mais pelo tema – economia de tokens. Pra mim, algo fascinante. O Tim Hackenberg não é um economista comportamental, mas é alguém muito curioso sobre economia.

Passei 9 meses lá. Fiz o piloto dos meus experimentos na USP, lá o afinei e voltei pro Brasil para aplicá-los. Defendi a tese e, cansada de São Paulo e em meio a crise aqui no Brasil, me mudei para Portland com meu marido. Entrei novamente em contato com o Hackenberg, e um tempo depois ele me mandou um email falando que iria se afastar por um semestre e me chamando para dar aula na Reed College enquanto isso. Eu claramente aceitei, e fui dar o curso dele, de Learning, pra psicologia. Eu podia também propor um curso, e propus o de economia comportamental. Quando venceu o contrato na psicologia, fui convidada para dar pelo departamento de economia. Dei as matérias de Finanças Comportamentais e Nudge.

 

“O curso de Nudge não foi muito bem aceito. Quando a gente está na academia temos um fetiche em ver as coisas aplicadas. Mas aplicar não tem todo esse glamour. A aplicação é chata – 1% de inspiração e o resto é pepino, coisa que deveria andar em um ritmo e não anda, barreiras não planejadas…os alunos se frustraram […] é um choque de realidade. Aplicação parece algo super legal, mas conseguir resultados minimamente significantes depois de tanto trabalho pode ser frustrante. Mas mesmo um impacto mínimo pode ter uma grande magnitude – 5% na redução de consumo de energia elétrica de uma empresa, 2% na reciclagem de uma cidade… “

 

O currículo era o seguinte: tínhamos várias aulas de discussão de literatura e coloquei muitas entrevistas com uma galera que está na ativa – gente da ONU, do Banco Mundial, de prefeituras locais, envolvidos no mercado, etc. E o pessoal começou a achar chato essas palestras, achando que era só enrolação. Uma pessoa que estava tentando formar uma unidade de BIT na prefeitura, falou das iniciativas, mas aí contou que faltava verba, que tinha coisa não aprovada etc, e isso os alunos não gostaram – é um choque de realidade. Aplicação parece algo super legal, mas conseguir resultados minimamente significantes depois de tanto trabalho pode ser frustrante. Mas mesmo um impacto mínimo pode ter uma grande magnitude – 5% na redução de consumo de energia elétrica de uma empresa, 2% na reciclagem de uma cidade… Bom, acho que foi por isso que não gostaram tanto.

Já a matéria de finanças o pessoal gostou muito. Eram cinco blocos que começavam com as bases psicológicas da tomada de decisão (eles participavam de experimentos onlines pra entender a diferença entre probabilidade objetiva e subjetiva e esses vieses de decisão, enquanto ainda não conheciam a teoria) e depois aprendiam a parte de “behavior” das finanças. Começamos com os mercados de capitais – comportamental ou não – e fomos para ação, derivativo, etc. Ao mesmo tempo que mostrava os aspectos tradicionais, acabava inserindo os conceitos comportamentais por trás. Fusão e aquisição é uma área com muitos aspectos também. E no final falávamos sobre a crise de 2008 – os derivativos problemáticos, o mercado de hipoteca, etc.  

E a passagem para o Behavioral Insights Team dentro do BSB?

Começou muito pequeno. Estava na Reed, mas não tinha estabilidade. Sempre que chegava o final do contrato, poderia mudar. Eles estavam gostando, mas eu não tinha garantias. Resolvi dar uma olhada em outras vagas, o que tinha de opções. Tinha uma vaga no Banco Interamericano e me falaram que havia uma outra vaga para a qual o meu currículo era adequado. Começou muito obscuro, eu não sabia para o que era. Fui sabendo mais sobre a vaga à medida que avançava nas entrevistas. Não tinha resposta por muito tempo e depois de um período eles reapareciam e marcavam uma outra entrevista. Ao longo do processo, ia aprendendo mais sobre a posição. No final, tinha a percepção de que era tudo o que eu queria, que era a vaga dos meus sonhos! A ponto de sair de Portland, sair da Reed e sair do MBA de Economia Comportamental (na ESPM) – parte da cláusula do contrato é que não tenha nenhum vínculo profissional.

O que você geralmente faz lá?

O BSB é o Bank Standards Boards. Foi criada em função da crise de 2009 para entender e evitar que ocorra novamente.

“A verdade é que foi uma crise comportamental. Aquilo era uma parte da indústria, as pessoas estavam fazendo o trabalho delas. É mais fácil você achar um culpado do que entender que é algo sistemático.”

 

A missão do BSB é aumentar os padrões éticos na indústria de banking britânica. Durante quase quatro anos desde que foi fundado eles fizeram um processo gigantesco de mapear a indústria, totalmente descritivo, sem intervenção até o momento. Os próprios bancos pagam nosso salário, mas não temos fim lucrativo. Como se fosse uma parceria público-privada. A melhor metáfora que tenho é um terapeuta: quando se faz alguma coisa errada e você tem consciência disso. Pode ter punição, mas isso não é com você. A ideia é não fazer isso de novo e quer entender o que aconteceu. Então você tira o dinheiro do seu bolso e paga um terapeuta, pra entender como mudar, mas sem ser obrigado a. A gente não tem nenhum poder regulatório, não impõe lei, não impõe multa. Mapeamos, fazemos focus group, entrevistas, preparamos um material – tudo pra entender o que aconteceu. Ano passado foi aprovada a verba para fundar uma unidade do BIT. Depois de entender a situação em que se está é a hora do que mudo? A ideia é usar esses dados empíricos para melhorar esses padrões éticos. Essa unidade do BIT é parte do BSB. Onde eu trabalho, na verdade, tiraram o B e é chamado só de Insights Unit, porque metade é comportamental e a outra metade lida com big data. Inclui quatro cientistas comportamentais e três big data scientists.

E como é o dia a dia e os projetos?

Existem três a quatro temas que já foram identificados como tema chave que necessitam ser modificados. Minha colega trabalha com o speaking up. Funcionários do banco de diferentes áreas não se sentem confortáveis em levantar problemas. Ou você não fala por lealdade a sua equipe, ou você fala e ninguém ouve porque não tem espaço, ou você não fala porque não tem tempo. Existem diferentes níveis de speaking up – como melhorar a qualidade disso?
Eu peguei um outro tema, o shared values. O quanto o produto do banco está aderida (ou descolada) aos valores morais e a missão do banco? O que foi verificado nos últimos três bancos é que vários funcionários dos diversos setores, através do questionário, demonstram observar conflito entre os valores praticados e os defendidos pelo banco. Os funcionários compartilham dos valores morais mas não acham que os produtos têm esses valores.

Existe uma terceira área voltada para o comportamento do consumidor. E a quarta área focada em well being, pois muitos funcionários tem stress no trabalho e isso afeta a tomada de decisão. Esses blocos temáticos estão desde 2017 marcados para atenção especial, por meio da análise dos dados. Depois do questionário, fizeram focus groups com entrevistas específicas sobre estes temas.

Como é feita a abordagem para aplicação de projetos?

Alguns relatórios são públicos. Mas cada grupo recebe um relatório específico, confidencial, mostrando como está a sua área em relação ao resto do grupo. Fizemos algumas conferências que chegamos com a resposta: e agora? O que fazemos a partir daqui? Isso varia. Tem alguns grupos que preferem resolver internamente, outros querem que façamos algo em conjunto… mas existe muito dessa vontade de mudança uma vez que eles próprios financiam essa iniciativa, né?

Você tem que conhecer qual é o problema, estudar o problema de uma forma empírica, dentro de uma abordagem experimental. Estudar aquele problema, e não como ele deveria ser em função da teoria. Fazer um grupo de controle, uma intervenção, ter uma hipótese de trabalho e testá-la. Voltar para casa, comparar, fazer de um jeito diferente se não tiver dado tão certo. No relatório do banco mundial eles têm uma imagem muito legal que mostra isso, que é um círculo que volta em espiral. Você tem que entender aquele contexto e ver o que funciona, e ir testando e aperfeiçoando. Uma aplicação parte de um estudo empírico.

“A maior dificuldade em aplicações em políticas públicas é que as pessoas não entendem o que é um experimento. As pessoas gostam da parte comportamental, mas não gostam de sair de algo que não é certeza, de alocar tempo e orçamento para algo que pode não dar certo. Isso causa resistência. […] Os conceitos de economia comportamental tendem a ser muito aceitos mas os conceitos de métodos experimentais ainda estão muito atrás.”

 

Uma outra questão é a formação de grupos de controle, o que quase sempre é um problema na pesquisa – como escolher os critérios para selecionar os grupos, dado razões éticas? Como falar que você vai fazer uma intervenção mas tem uma parte que você não vai usar? Você precisa desse grupo de controle pra ver se o seu impacto foi por isso, mas as pessoas sempre tendem a querer tirar – e aí o resultado não é válido. Os conceitos de economia comportamental tendem a ser muito aceitos mas os conceitos de métodos experimentais ainda estão muito atrás.

 

Ana Carolina Trousdell Franceschini é Doutora e Mestre em Economia Comportamental e Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo (IP-USP). Graduada em Ciências Econômicas (Universidade Estadual Paulista – UNESP) e em Psicologia (USP), possui MBA em Finanças Corporativas (FIA/USP) e especialização em Negociação (FGV-SP). Experiência profissional em Fusões e Aquisições de Empresas e derivativos estruturados, no Brasil e Estados Unidos. Foi professora da ESPM e do Reed College (Portland, OR, Estados Unidos), onde desenvolveu pesquisa experimental sobre os efeitos da aversão a perdas (impostos e cortes salariais) sobre comportamentos de trabalhar e consumir, utilizando um procedimento de economias de tokens. Atualmente integra o quadro do Banking Standards Board do Reino Unido.

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