Julgamento sob incerteza: heurísticas e viéses, 1974 – uma análise

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Por Flora Finamor Pfeifer em setembro 14, 2018

Em 1974, Daniel Kahneman e Amos Tversky publicam seu primeiro trabalho conjunto: Julgamento sob incerteza: heurísticas e vieses (do original, em inglês: Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases). O trabalho marca o início de uma parceria dos que hoje são considerados os “pais fundadores” da economia comportamental (HEUKELOM, 2011) – ao que diz respeito ao novo programa de pesquisa (em contraponto aos estudos de Simon, Katona & cia da década de 60).

 

OS AUTORES

Kahneman, psicólogo graduado na Hebrew University of Jerusalem e com PhD em Berkeley, lecionava sobre psicologia na faculdade Israelita. Suas pesquisas iniciais incluíam o aparato visual e erros cognitivos, utilizando técnicas de psicologia experimental.

Tversky, por sua vez, graduou-se em ciências humanas também na Hebrew University e teve seu PhD pela Michigan University. Em sua tese trabalhou sobre meios de mensuração das regras do comportamento racional, misturando as linhas de pesquisa de seus orientadores, Ward Edwards e Clyde Coombs.

Em 1969 os dois pesquisadores iniciam uma colaboração em pesquisas, que mais para frente renderia 21 papers, 2 livros – e um Prêmio Nobel em economia.

 

A PESQUISA

No artigo de 74, os autores identificam alguns padrões previsíveis para a tomada de decisão em situações de dúvidas. Partem da seguinte pergunta: como as pessoas acessam as probabilidades de eventos incertos ou valores de quantias incertas?

Chegaram à conclusão de que as pessoas baseiam-se em um número limitado de heurísticas, úteis, pois simplificam o processo. Contudo, podem nos levar a erros sistemáticos: os vieses.

Definem heurísticas como “uma resposta intuitiva”, que serve para simplificar e reorganizar a entrada de informação da questão decisória – facilitando o processo como um todo. Ele busca aproximar-se do ótimo, dada suas restrições, e tem na heurística um meio para tal.

Vale ressaltar que o uso do termo “heurística” por K&T difere fortemente do significado de heurística utilizado por Herbert Simon, que tem pelo termo o equivalente a regras de bolso para a tomada de decisão, objetivando um resultado satisfatório, passível de ajuste caso não o atinja. (HEUKELOM, 2010)

Kahneman e Tversky identificam três heurísticas neste paper: (i) a heurística da representatividade, (ii) a heurística da disponibilidade e (iii) a heurística do ajuste e ancoragem.

Por (i), tem-se que a “probabilidade é avaliada pelo nível em que A é representativo de B (A remete à B)”. Quanto mais representativo, maior a percepção da probabilidade. Por sua vez, os vieses que eles identificam recorrentes desta heurística são: a) insensibilidade da probabilidades anteriores dos resultados (ignora-se frequências prévias apresentadas), b) insensibilidade ao tamanho da amostra (se for muito pequena, não podemos garantir um resultado estatístico!), c) concepções errôneas sobre o acaso/sorte (as pessoas esperam que uma sequência de eventos geradas por um processo aleatório representem as características essenciais deste processo mesmo quando é só uma pequena parte, um fragmento da sequência), d) insensibilidade à previsão (previsão baseada no quão favorável a visão atual está); e) ilusão da validade (excesso de confiança gerada pelo acerto entre o resultado predito e a informação recebida); f) falsas interpretações de regressões (leva a explicações causais errôneas).

Por (ii), temos que as pessoas remetem a uma frequência ou probabilidade com a facilidade que ela vem à mente. E isso leva aos vieses decorrentes de a) a facilidade de se lembrar de exemplos (familiaridade, saliência), b) a eficiência do processo de procura (por ser mais fácil procurar/lembrar-se de algo), c) imaginação (facilidade de se criar exemplos específicos), d) ilusão de correlação.

Por fim, em (iii) definem que “as pessoas fazem estimações a partir do  valor inicial que é, então, ajustado para chegar-se a uma resposta final.” Podemos ser levados a erros por a) ajuste insuficiente, b) superestimação de eventos positivos ou subestimação na avaliação de eventos com risco, e c) ancoragem na avaliação de distribuição de probabilidades subjetivas.

Isso foi comprovado a partir de estudos psicológicos seguindo um novo tipo de experimento: o método das questões hipotéticas. Isso deu aos autores grande flexibilidade para realizá-los, pois carecia de um baixo custo e pouca estrutura. Uma coisa interessante é que até mesmo pesquisadores experientes da área (estatística, por exemplo) estavam suscetíveis aos vieses.

Os autores ainda ressaltam que: estes vieses não são atribuídos a efeitos motivacionais como pensamento esperançoso ou distorção dos julgamentos por recompensas ou penalidades. De fato, muitos dos erros de julgamento reportados ocorreram apesar do fato de que os indivíduos eram encorajados a serem precisos, e de que eram recompensados pela resposta correta.

É um estudo repleto de exemplos intuitivos, que permitem ao leitor “testar-se” em meio a leitura – e, quando percebemos que também estamos suscetíveis ao erro, somos convencidos da veracidade da teoria.

 

O IMPACTO DO ESTUDO PARA A ECONOMIA COMPORTAMENTAL

O artigo buscava desafiar dois pressupostos comumente aceitos da época: o de que as pessoas são, em geral, racionais e o de que emoções, como medo, amor e ódio explicam a maioria dos casos em que os indivíduos departem da racionalidade. Kahneman e Tversky advogam que há erros sistemáticos no nosso mecanismo cognitivo, em oposição à visão do contraponto cerne entre razão e emoção.

O meio veiculado, a Revista Science, acaba sendo crucial para o sucesso e popularidade do estudo. Sua credibilidade científica respalda as potenciais controvérsias iniciais, e a sua abrangência interdisciplinar faz com que chegue a áreas para além da psicologia – e é, hoje, um dos mais citados da área. (KAHNEMAN, 2002).

Os autores, diferentemente do programa de pesquisa anterior da ‘velha’ economia comportamental, não partiram da crítica ao pressuposto da racionalidade; apenas mostraram seus resultados empíricos sobre o processo decisório. Kahneman, inclusive, aponta isso como um fator positivo para a ascensão desse estudo, apesar da falta do posicionamento ter culminado em uma série de críticas.

A pesquisa das heurísticas é continuada nos 5 anos seguintes, agora sob a perspectiva da tomada de decisão sob risco. Em 1979, então, os autores publicam um segundo estudo, a Teoria do Prospecto, onde adequam suas teorias psicológicas à “linguagem dos economistas” e fazem a distinção entre uma teoria normativa e uma descritiva. Ele é, inclusive, publicado na Revista Econometrica. Tais fatores são as bases para o desenvolvimento de toda uma nova área, hoje denominada economia comportamental!

Referências:

  • Kahneman e Tversky, 1974 – Judgement Under Uncertainty: Heuristics and Biases
  • Kahneman, 2002 – Rápido & Devagar
  • Heukelom, 2010 – Three explanations for the Kahneman-Tversky Programme of the 1970s
  • Heukelom, 2011 – Building and Defining Behavioral Economics

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