8 “mitos” sobre a Economia Comportamental

História e Metodologia

Por Flora Finamor Pfeifer em agosto 24, 2018

A Economia Comportamental é uma subárea bona fide da Economia. O programa de pesquisa, hoje no mainstream da economia, surgiu no final da década de 70 (com certas influências prévias), mas só começa a se estruturar de fato como área que conhecemos hoje da década de 90 em diante. Identifica-se Kahneman & Tversky, psicólogos, como os “pais fundadores” da área. Abaixo, listamos alguns pontos que por vezes causam certa confusão acerca da história e da metodologia da economia comportamental, e seu posicionamento como área!

1. A economia comportamental estuda o comportamento irracional

A grande sacada de Kahneman e Tversky foi, justamente, demonstrar que os comportamentos que se desviavam da racionalidade perfeita não eram unicamente causados por razões aleatórias, como a influência de emoção e episódio ‘irracionais’ e também – grande parte das vezes – por mecanismos cognitivos similares à todos: têm-se efeitos previsíveis de fuga da racionalidade. 

2. Os modelos de racionalidade completa não são úteis

O objetivo base da vertente econômica neoclássica, segundo Friedman (1953), é a capacidade preditiva. Para tal, constrói modelos que buscam racionalizar o processo de escolhas e suas consequentes ações. A fim de generalizar as situações, simplifica a realidade por meio de pressupostos. Racionalidade plena, informação simétrica, ordenação de preferências, dentre tantos outros. E eles funcionam. Na maioria dos casos. A economia comportamental surge fazendo a distinção entre uma teoria normativa e uma descritiva, e atém-se a esta segunda parte: buscam entender o comportamento como ele realmente acontece. O modelo de racionalidade perfeita serve como “benchmark”. A economia comportamental busca justamente ajustar/aperfeiçoar estes modelos.

3. É errado falar-se sobre ‘Homo Economicus’

O conceito de Homo Economicus foi criado como o agente dos modelos, dotado de completa racionalidade. Sabia-se que o ser humano não é o Homo Economicus – em nenhum momento supôs-se isto. Adam Smith, pai do pensamento econômico moderno, dedica um livro inteiro aos sentimentos e moralidade do homem. Ao longo da história do pensamento neoclássico, muitas vezes os autores salientam o comportamento movido por emoções, fatores sociais, motivação intrínseca – eles só separam isto do estudo da economia, uma vez que não vêem forma de incorporá-los aos modelos.

4. Economia comportamental e psicologia econômica/comportamental são a mesma coisa

É na década de 90 que a economia comportamental passa a ganhar um nome próprio e um reconhecimento como área – e a separar-se de suas “irmãs”. A incorporação dos insights psicológicos nos modelos econômicos marca a década e é, de fato, o que define a área como parte da economia: a formalização teórica e matemática das teorias.

5. A economia comportamental é a revolução da economia; o contraponto da neoclássica

A economia comportamental, na realidade, é uma subárea bona fide da economia, como define Angner e Loewenstein (2006). Isto é, ela busca complementar a teoria mainstream tradicional, aumentando o grau de preditividade dos modelos, a partir da distinção entre normativa e descritiva. Acha padrões comportamentais que fogem do esperado pelo modelo original e busca incorporá-los aos modelos. Esta nova forma de se pensar tem sido incorporada em várias áreas tradicionais da economia. Põe-se como complemento, e não “revolução” ou  “rompimento”. 

6. Os modelos de economia comportamental baseiam-se no conceito de ‘racionalidade limitada’ de Simon

O termo da economia comportamental foi cunhado na época de Simon, e suas teorias e conceitos são sim relevantes – tanto que foi laureado com o Nobel. Contudo, suas ideias exercem pouca influência no programa de pesquisa da economia comportamental atual. De fato, há a divisão dos programas de pesquisa entre a ‘velha’ economia comportamental (Simon, Katona & cia) e a ‘nova’ economia comportamental (Kahneman, Tversky, Thaler & cia). O primeiro programa, que buscava refutar a teoria tradicional e formular uma nova teoria, teve continuidade com Gigerenzer e outros adeptos da economia evolutiva, exercendo pouca influência na economia comportamental atual. Houve, contudo, uma adesão à terminologia de Simon (racionalidade limitada) frente  a distinção de normativa e descritiva de K&T, posteriormente. As ideias de Simon foram, então, incorporadas, por conta do termo escolhido, dando certa “credibilidade econômica” à ideia dos psicólogos

7. Economia Comportamental é similar à Economia Experimental

Apesar de ambas as subáreas da economia terem surgido em períodos similares e terem tido um momento de intersecção, onde o método experimental era fortemente utilizado para testar-se as teorias descritivas, na década de 90 as áreas tomam rumos diferentes. De fato, Loewenstein, em 1999, escreve um artigo posicionando a economia comportamental como oposto à economia experimental, ressaltando a falta de validação interna e externa que a última possui – testar como as pessoas se comportam em cenários controlados seria muito diferente de como elas se comportam na vida real.

8. Os Centros Comportamentais de intervenções de Políticas Públicas são aplicações exclusivas de Economia Comportamental

A grande maioria desses centros trabalha com insights de muitas outras áreas que não a economia (psicologia, design, antropologia, etc.). Geralmente, a “economia” concentra-se no estudo feito por trás das intervenções, coletando os dados e realizando os estudos econométricos (RCTs) para verificar a validade e ajudar na decisão de alocação dos recursos públicos. O propósito é justamente complementar os tradicionais modelos econômicos com as ciências comportamentais.

Referências:

THALER, Richard. Misbehaving: The Making of Behavioral Economics, 2015.

KAHNEMAN, Daniel. Thinking, Fast and Slow. Nova Iorque: Farrar, Straus and Giroux, 2012

HEUKELOM, Floris. Building and Defining Behavioral Economics, 2011.

SENT, Miriam. Behavioral Economics: How Psychology made its (limited) way back to Economics. HOPE Vol. 36, 2004.

HEUKELOM, Floris. Behavioral economics. The Elgar Companion to Recent Economic Methodology –  John B. Davis e D. Wade Hands, 2011.

ANGNER e LOEWENSTEIN, 2006. Behavioral Economics, 2006.  

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