A Crise Hídrica e as Intervenções Comportamentais

Análise Social | Políticas Públicas

Por master em julho 26, 2018

Quando eu estava na segunda série, o projeto do semestre era sobre a água. Para despertar nosso interesse no assunto – e a relevância da água nas nossas vidas – a professora resolveu pregar uma peça na classe. Desligou o registro da escola. Ao passar do dia, conforme íamos ao banheiro e nos dávamos conta de que não tinha água, ela nos disse, surpresa: “mas vocês não viram no jornal? Acabou a água no mundo!”. Um conluio com a auxiliar tornou a história mais crível, e por alguns minutos a segunda série C entrou em pânico – houve até quem chorasse. Não íamos mais poder tomar banho, dar descarga, beber água…! A professora logo nos falou que era mentira – mas que, se não fossemos responsáveis, poderia não mais ser. Nunca esqueci desse dia e de todas as desesperadoras consequências que se passaram na minha cabeça de oito anos.

Cidade do Cabo. Cidade do México. São Paulo.

As três cidades passam por crises hídricas acirradas pelo período de seca: faz 93 dias que não chove forte em SP, e a Cantareira só está com 49% de sua capacidade de volume. A Cidade do Cabo enfrenta a pior crise do século, fruto de três anos de chuvas abaixo do normal. A Cidade do México tem, literalmente, afundado nos últimos anos devido à necessidade de se cavar cada vez mais fundo para chegar nos lagos subterrâneos e garantir o abastecimento. Com a água potável mais escassa – apesar da perpetuidade do ciclo da água, é necessário garantir seu fornecimento logístico – os preços sobem – lei da oferta e demanda. Desde a crise hídrica enfrentada por São Paulo, em 2015, o preço da água subiu o mesmo que o da gasolina.

As mudanças climáticas alteram o planejamento das cidades com relação ao fornecimento e logística: chuvas mais escassas, aliado à população crescente dos grandes centros, implicam em desafios neste campo. Operações logísticas e o aumento da diversidade e capacidade do fornecimento devem ser trabalhadas a longo prazo, mas há saídas imediatas que atenuam a situação. E aqui falamos de hábitos e como mudá-los.

Geralmente, em soluções de escassez aumenta-se o preço: assim garante-se a alocação do bem àqueles que mais o valorizam. Mas com a água é diferente: todo mundo precisa – e todo mundo tem o direito. Aumentar o preço da água sistematicamente em épocas de escassez respalda em questões éticas e morais. A mudança de hábitos com a água não deve forjar-se inteiramente em incentivos monetários. Aqui, a economia comportamental pode ser uma grande ferramenta.

Algumas aplicações de Nudges referentes ao consumo de água já foram aplicadas na Costa Rica, Colômbia e Estados Unidos, com resultados positivos. Geralmente, trabalha-se com medidas na conta de água dos bairros, medindo seu impacto através de experimentos aleatórios randomizados. Falemos sobre alguns dos princípios que devem ser levados em conta na hora de elaborar tais intervenções:

  • Custo Social-Moral: na contabilidade mental, temos dois tipos de custos: o monetário e o social. As campanhas devem focar em transferir o custo da água para o social e moral. Assim, a pessoa não pensa apenas se pode pagar por um banho mais demorado, mas se isso está sendo ético e justo. Em locais de uso partilhado, isso é uma saída interessante, uma vez que a pessoa já não paga (hotéis, restaurantes, aeroportos). Deve-se implementar o senso de urgência para com o objetivo conjuntos da população.
  • Norma Social: o humano é um ser social, que tem o desejo de se “encaixar” dentro de sua comunidade. Ressaltar que o seu comportamento está (ou não) de acordo com o grupo que se identifica pode ser uma importante ferramenta. Cartas que comparam o consumo com o de sua vizinhança (sugerindo uma espécie de competição), ou que estabelecem uma escala, são algumas das medidas já utilizadas. (vide foto)

costa rica nudge agua

  • Tangibilizar o impacto individual: devemos tornar o impacto individual TANGÍVEL, fornecendo informações: quando você age de tal forma, economiza tanto %, o que representa x dias a mais de consumo normal de água na época de seca. Quando dispõe-se informações muito genéricas “ajude o meio ambiente”, cai-se no perigo da intangibilidade das ações, ou seja, a pessoa fica com a impressão de que seu ato não incorre em um impacto no objetivo final. Tornando-o mais palpável, é mais fácil de atingir o objetivo.
  • Simplificar o ato de economizar (eliminar fricções): as autoridades (responsáveis pelo meio) devem simplificar o ato de economizar, fornecendo o maior número de alternativas ao uso de água. Álcool gel no lugar de lavar as mãos (implementado no aeroporto da Cidade do Cabo); copos na pia para escovar os dentes; vassouras para limpar os cômodos. A água não é o objetivo do hábito, mas sim o meio: deve-se ser criativo para fornecer alternativas.
  • Implementar fricções para o uso da água: podemos tornar a água mais difícil de se alcançar. Colocar bebedouros mais longe, limitar o consumo mínimo que se tem nas casas e fornecer um adicional em local público, etc.
  • Saliência: deve-se tornar claro e compreensível o que importa. Reformular as contas da água, que mostram o consumo, para uma saída mais “amigável”. Destacar o custo x consumo, e chamando a atenção não apenas para os valores brutos, mas também para critérios relativos (como comparação com o mês anterior, com outros consumidores ou com uma escala).

Mudando os hábitos de maneira efetiva, a reprodutibilidade do comportamento de economia leva a um consumo mais sustentável – e não só sob os períodos de escassez e crise hídrica!

Referências:

Datta, Miranda e Zoratto. Saving Water With A Nudge (Or Two): Evidence from Costa Rica on the Effectiveness and Limits of Low-Cost Behavioral Interventions on Water Use (2015). Acesso em: https://www.isid.ac.in/~epu/acegd2015/papers/SaugatoDatta.pdf

http://blogs.worldbank.org/latinamerica/can-behavioral-change-support-water-conservation-examples-us-colombia-and-costa-rica?CID=ECR_FB_PUBS_EN_EXT

http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2018/07/sao-paulo-e-cidades-do-cabo-e-do-mexico-vivem-uma-grave-crise-hidrica.html 

https://www.bbc.com/portuguese/geral-42817393

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *