Sobre canudinhos e sacolas de supermercado: como a Economia Comportamental pode ajudar na redução do consumo de plástico

Análise Social | Políticas Públicas

Por master em junho 19, 2018

 

 

Cada vez mais nos conscientizamos sobre os malefícios do uso do plástico para o meio ambiente. Este produto, que no século passado representou grande avanço tecnológico para a indústria de bens de consumo, barateando e massificando o processo de embalagens, trouxe também grandes impactos negativos sob a perspectiva do desenvolvimento sustentável.

A cidade do Rio de Janeiro recentemente baniu os canudinhos. Indústrias de cosméticos vêm se reinventando para a tendência do não uso de embalagens em seus produtos. E ao uso de sacolas reutilizáveis foi sendo imposto nos últimos anos com força.  

Aqui no Brasil (e em boa parte do mundo), em supermercados selecionados, pagamos pela unidade de sacola. Mas será que esta penalização financeira é o jeito mais adequado de inibir o seu uso? Apesar dos efeitos iniciais positivos (logo após a implementação da tarifa na Inglaterra, por exemplo, a redução foi de 80% no consumo de sacolas plásticas) há dúvidas sobre a sustentabilidade do efeito a longo prazo, como apontam indícios de estudos na Irlanda, Holanda e África do Sul. Isso porque as pessoas acabam se acostumando com as (baixas) taxas pelas sacolas. Além disso, ao monetizar essa transação, há a transição desta ação do universo emocional para o financeiro – tira a possível culpa voltada para a preservação do meio ambiente.

Em estudo de Gauri Chandra pelo Laboratório de Pesquisa Comportamental da London School of Economics (LSE) foi feito um experimento controlado com 226 participantes. Eles foram aleatoriamente divididos entre as condições explicitadas abaixo e foi pedido que realizassem uma tarefa de compras de supermercado através de um computador. Foram informados de que cinco vencedores seriam sorteados para ganhar um vale-compras de 30 libras em um mercado da universidade para realizar as compras selecionadas durante a atividade.  Depois de escolherem os itens, os participantes foram apresentados com a escolha entre consumir sacolas plásticas ou trazer suas próprias sacolas reutilizáveis.

A pergunta e as condições, contudo, eram modificadas. Foi-se testado opções com e sem o incentivo financeiro (taxa padrão da Inglaterra) e com a pergunta dando um enfoque diferente: “quantas sacolas plásticas você precisará?” (opção de resposta em quantidade)  e “você trará sua própria sacola para carregar as compras?” (opção de resposta sim-não). Observou-se que esta simples mudança no “emolduramento” (framing) da pergunta levou a mudanças no comportamento. Na pergunta “sim-não”, apenas 17.14% dos participantes optaram por sacolas, contra 62.85% na segunda arquitetura de escolha. (estudo realizado utilizando o teste estatístico Z – confira os resultados completos no paper original aqui).

Este nudge pode ser explicado pela tendência entre os indivíduos de se responder “sim” e adotar o comportamento afirmativo.

Também foi-se observado que os participantes que pagaram a taxa pelas sacolas reportaram menos sentimento de culpa, em média, do que os que pegaram as sacolas nas condições onde não havia cobrança. Isso suporta a teoria mencionada no início do texto que incentivos financeiros anulam ou amenizam o efeito emocional (culpa). Por esta mesma intuição, podemos argumentar que tira a motivação intrínseca do indivíduo de agir de maneira sustentável pois a ação é então percebida como uma transação de mercado.   

Por fim, há também um certo efeito spillover (“transbordamento”) positivo para ações em prol do meio ambiente, pois os indivíduos sujeitos a intervenção não monetária mostraram maiores pontuações para economia de energia e reciclagem, em tarefas experimentais realizadas em sequência.

Partindo desta perspectiva, podemos implementar ações similares no contexto nacional. A alteração do formato da pergunta com relação a sacola pode ser aplicado em supermercados de uma mesma rede em cidades onde ainda não há a cobrança de taxas, e seus resultados comparados, para medir a eficácia em situação real (note que foi realizado apenas o experimento controlado neste estudo). E talvez políticas similares possam ser aplicadas para a redução do consumo de canudinhos, como uma alternativa à proibição, onde os tomadores de decisão tenham receio em adotar a medida mais extrema.

*Este estudo foi conduzido por Gauri Chandra como parte de sua tese de Mestrado, sob supervisão do Professor Amitav Chakravarti, na LSE.

Referências:

https://www.behavioraleconomics.com/charge-use-nudge-reuse-suggestions-policy-interventions-discourage-plastic-consumption/

https://drive.google.com/file/d/0B43IN9NBztBDTTBISjBqdC1USlE/view

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