Especial Copa do Mundo: Combinando com os Russos

Análise Social

Por master em junho 19, 2018

Em clima de Copa do Mundo (ainda mais na Rússia) vale relembrar este episódio. No universo da economia, a preditibilidade dos fenômenos é uma das coisas mais recorrentes. Saber qual será o comportamento de determinado setor, da economia do país, da taxa de juros, do dólar e os fatores capazes de influenciá-los (dentre muitos outros) são alguns de nossos objetos de estudo. Aprendemos e desenvolvemos modelos para aumentar a capacidade preditiva – ou ao menos para validar nossas hipóteses com números e estatísticas.

Em reportagem do Valor Econômico (aqui e aqui), vemos exemplos de bancos e instituições financeiras utilizando avançados modelos para realizar previsões sobre a Copa do Mundo. O Goldman Sachs utilizou 200 mil modelos estatísticos e 1 milhão de simulações para desenvolver seus palpites. Danske Bank, Commerzbank, o banco suíço UBS e o banco japonês Nomura também calcularam os seus. Aqui no Brasil, temos a previsão da FGV. A desenvolvedora de jogos EA Sports também utilizou das suas simulações para prever resultados. Os modelos econométricos são trazidos como aliados para as previsões futebolísticas, incorporando os mais diversos fatores, como população, clima e IDH – além das variáveis futebolísticas, é claro.

Seja pelo Bolão da firma, casa de apostas ou só para decidir por quem torcer: (tentar) saber quem vai ganhar a Copa é de interesse para a grande maioria da população. E não raro, recorremos aos experts para nos auxiliar nesta empreitada.

Confira, então, a coluna de Fábio S. Storino, membro do (011).lab, o laboratório de inovação em governo da Prefeitura de São Paulo, publicada originalmente na Revista Página 22, em Março de 2014, comentando sobre a capacidade preditiva humana à luz da Economia Comportamental:

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Em 1958, o Brasil disputava uma partida contra a Rússia na Copa do Mundo da Suécia. O técnico Vicente Feola passou à Seleção Canarinho as instruções sobre como proceder em campo. A pergunta veio de Mané Garrincha: “O senhor combinou com os russos?”

Tal é a sina das previsões de fenômenos humanos: elas dependem de interações entre dezenas, milhares, às vezes milhões de pessoas. Estas, por sua vez, podem depender de fatores tão prosaicos quanto imprevisíveis: juízes dão sentenças muito mais duras quando estão com fome do que logo após as refeições (veja aqui o estudo). Como é possível fazer previsões diante de tamanha volatilidade e incerteza?

O desafio parece não desanimar especialistas, embora, de acordo com o psicólogo Philip Tetlock, professor da Universidade da Pensilvânia e autor de Expert Political Judgment, eles não costumem se sair muito bem nas previsões. No livro, resultado de uma pesquisa de 20 anos envolvendo 284 especialistas de várias áreas e cerca de 28 mil previsões, os experts saíram-se ligeiramente melhor do que o acaso e pior do que simples algoritmos de computador.

Por que, então, é ainda forte o apelo das previsões de especialistas? São várias as respostas prováveis, e aqui listo apenas três delas. Primeiro, um bom exercício de futurologia nos fornece, na pior das hipóteses, um bom exercício analítico envolvendo atores, motivações, cenários etc. Isso é valioso por si só, ainda que o resultado esperado não se concretize. Segundo, fenômenos humanos estão sujeitos à chamada “profecia autorrealizável”: um relatório influente pode afetar expectativas e decisões dos autores envolvidos. Por último, sofremos do chamado viés de confirmação: nosso cérebro registra com maior facilidade os acertos que os erros, de forma que as previsões furadas caem mais rapidamente no esquecimento, enquanto as certeiras elevam o especialista ao status de “guru” e reforçam ainda mais o valor que damos às previsões.

No estudo de Tetlock, os especialistas que mais erraram foram justamente aqueles mais seguros em relação a suas previsões e pressupostos. Os que se saíram melhor aceitavam a complexidade e a incerteza inerentes, faziam uso de uma fonte mais ampla de informações e modelos analíticos e demonstravam menor confiança em sua própria análise. Mas qual desses dois tipos de especialistas tende a ganhar maior espaço e projeção na imprensa?

O jornalista Dan Gardner, autor de Future Babble, cita em seu livro esse e outros experimentos curiosos em futurologia. Em 1984, por exemplo, a revista The Economist pediu para ex-ministros de Finanças, CEO de empresas, estudantes de Economia e lixeiros de Londres fazerem previsões sobre taxa de crescimento, inflação e outros indicadores econômicos. Uma década depois, ela reviu as previsões. Os lixeiros londrinos empataram com os CEO em primeiro lugar, enquanto os ministros de Economia ficaram em último.

No final das contas, o principal viés cognitivo para o qual devemos nos atentar ao tratar de previsões é o de retrospectiva: se ainda temos alguma incerteza quanto ao futuro, tudo o que já passou hoje nos parece um resultado óbvio. Assim provavelmente deve ter pensado o técnico Feola, ao ver Garrincha dando um baile de bola nos russos e se tornando um dos artífices dos nossos dois primeiros títulos mundiais.

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*Este artigo foi originalmente publicado na revista Página22

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