Sobre Prova Social e o Combate ao Assédio Sexual: uma análise do movimento #MeToo

Análise Social

Por master em junho 13, 2018

Q&A traduzida do site Behavioral Scientist, respondida por Siri Uotila, uma pesquisadora no Programa de Políticas Públicas à Mulher da Escola de Governo John F. Kennedy de Harvard.

Post original em> http://behavioralscientist.org/ask-a-behavioral-scientist-could-the-metoo-movement-inadvertently-lead-to-more-sexual-harassment/ 

P: Estive pensando muito sobre a pesquisa de Bob Cialdini, sobre “o grande erro” (“The Big Mistake”). Isto é, sobre a ideia de que as mensagens, por vezes, tem o efeito inverso. Se eu tentar desencorajar as pessoas à gastar água, não pagar impostos ou sair da trilha em parques nacionais alertando-as que outras pessoas fazem isso, posso inadvertidamente levá-las a cometer ainda mais estes atos.  

Com isso em mente, fico em dúvida sobre o movimento #MeToo. Expor o fato de que muitas mulheres foram assediadas sexualmente em algum ponto de suas vidas não vai fazer com que homens pensem: “bem, parece que é normal tratar as mulheres dessa forma”? Não estamos correndo um risco de encorajar, ao invés de desencorajar, assédios sexuais, ao menos em termos mais amplos?

R: Como você coloca, o princípio de prova social diz que nós determinamos como devemos nos comportar através da observação e aprendizado sobre a ação dos outros. Isso, então, significa que dar destaque o alto número de mulheres que foram assediadas sexualmente — e, portanto, os muitos homens que as assediaram — fará com que os homens acreditem que o comportamento de assédio está espalhado na sociedade e, desta forma, é algo aceitável?

Dado o curto período de tempo do movimento #MeToo até agora (viralizado em outubro de 2017) nós não temos ainda nenhuma evidência de pesquisas para apoiar tal hipótese.

O que nós de fato sabemos é que a prova social é uma força divisora por trás do movimento. Quando a hashtag foi lançada, números crescentes de mulheres começaram a reportar assédios após verem outras mulheres contando suas histórias com resultados favoráveis. Conforme mais e mais pessoas contribuiam para o movimento e o público acreditava em suas confidências, tornou-se algo ainda mais socialmente aceito, e diminuiu-se o risco individual de se expor. Dessa forma, o movimento #MeToo é um exemplo de prova social em ação, moldando as normas sobre assédio sexual.

A chave reconciliadora dessas aparentes forças opostas — por um lado, a norma social sugere que o #MeToo poderia levar a mais casos de assédio através de sua normalização; por outro, tem-se agora um movimento real contra os assediadores — pode estar no enquadramento (framing) da situação. Cialdini sugere que o princípio da prova social opera mais fortemente quando as pessoas cujo comportamento observamos são como nós.  As mulheres contribuindo para os relatos do #MeToo sentem-se empoderadas a fazer tal porque são capazes de, em algum nível, se identificar com as outras mulheres que contribuíram com suas experiências primeiro. Homens que observam o movimento, por um outro lado, tem menor probabilidade de se identificarem com os abusadores dado o estigma social que os cerca (só olhar o que aconteceu com Harvey Weinstein, Kevin Spacey, Matt Lauer, etc.). Portanto, homens teriam menor probabilidade de emular o comportamento dos assediadores, mesmo que com grande publicidade, porque eles não se identificam com os agentes. Além disso, o princípio da norma social pode ajudar o movimento a encorajar um comportamento masculino positivo. Perceba a quantidade de notícias e comentários que, em consequência das revelações do movimento, enfatizaram como a maioria dos homens não assedia mulheres. Através da criação ativa de um grupo de “bons moços” e mudando a percepção para o que “a maioria dos homens” está fazendo, o movimento #MeToo pode gerar um impulso para os comportamentos positivos que quer encorajar.

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