Teoria do Prospecto e Decisões Automáticas: segurança na aviação

Análise Social

Por Flora Finamor Pfeifer em junho 10, 2018

Texto elaborado com base na palestra apresentada por Luiz Maurício A. da Silva, durante  encontro do G.E.E.C. USP, no dia 7 de junho de 2018, nas dependências da FEA USP, baseada em seu estudo.

 

No dia 17 de Julho de 2007, um acidente envolvendo um Airbus A-320 da TAM resultou em 187 causalidades. A tragédia ocorreu no momento de aterrissagem no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. A causa foi apontada como um erro de decisão: foi-se optada pela tentativa de pouso, por mais que a aproximação não tenha sido feita de forma ideal, ante a opção de arremeter e buscar o pouso em Guarulhos, aeroporto nas proximidades com uma infraestrutura melhor dada as condições climáticas adversas do dia. Este episódio levou Luiz Maurício de Andrade da Silva, doutor em administração pela Universidade de Sao Paulo (USP), e professor e pesquisador na Academia Brasileira da Força Aerea (AFA) e Universidade Brasileira da Força Aérea (UNIFA), lecionando sobre teoria da decisão e gestão estratégica, com um enfoque em defesa e aviação, a investigar o processo de tomada de decisão por trás, no âmbito da análise de risco.

Segundo relatório da Fundação de Segurança no Vôo, esse erro na tomada de decisão entre aterrissar e arremeter é a segunda principal causa de acidentes na aviação, muitas vezes devido a uma falha de julgamento do piloto. Vale ressaltar, ainda, a assimetria de informação entre a percepção de risco entre i) a teoria, ii) a tripulação (piloto), iii) a companhia.

Decisões podem ser feitas envolvendo diferentes processos cerebrais. Em geral, operamos pelo “Sistema 1” (KAHNEMAN, 2011), que, em modo de economia energética, toma decisões mais automáticas e intuitivas: exige menos deliberação, cálculo e tempo para a escolha; exige mais experiência. Já o “Sistema 2” requer mais tempo e raciocínio para a tomada de decisão e, consecutivamente, menos experiência. Para o primeiro caso, otimizamos o processo com menos informação: o reforço de regras simples que nos ajuda. Já no segundo, a disponibilização de mais informação e estatísticas é o que leva à melhor decisão. Ao pilotar-se um avião, contudo, agimos sobre pressão e em um curto período de tempo: o sistema 1 opera e, portanto, na preparação dos pilotos estes fatores devem ser levados em conta.

 Bernoulli, em 1738, elaborou a fórmula do valor esperado para a percepção de risco. E(x) = p1.x1+p2.x2+…+pn.xn. Contudo, Kahneman e Tversky, em 1979, observaram que temos percepções diferentes do risco em situações de ganhos e perdas – elaboraram, assim, a teoria do prospecto, modificando a equação para: V(x) = xα if x>0; V(x) = –λ(–xα) if x<0, onde α=0.88; λ=2.25.

Sendo assim, a postura que tomamos em relação ao risco depende da nossa percepção da situação em termos de ganhos e perdas. Na cultura organizacional das companhias de aviação, enfrenta-se um trade off nestas situações: ganhos, em relação à segurança, e perdas, considerando os custos despendidos. Ainda assim, arremeter incorre em um certo risco à segurança, e essa decisão (risco de pousar > risco de arremeter) deve ser feita em segundos – e em uma situação de pressão.

Em suma: no que diz respeito à segurança de vôo, a economia comportamental pode ser usada em sua compreensão, para: i) elaborar regras simples que permitam ao piloto decisões automáticas e rápidas (sistema 1) entre risco de arremeter e risco de aterrissar; e 2) estimular uma cultura organizacional coletiva para que não se dissemine a percepção de perda (de lucros) em relação ao risco aos pilotos. O que deve ser priorizado para otimizar a decisão é a segurança dos passageiros e tripulação!

Referências:

Bernoulli, D. Specimen theoriae novae the mensura sortis. Tradução do latim para o inglês de Louise Sommer:

Econometrica, 1738. In: Bernstein, P. Desafio aos Deuses: a fascinante história do risco. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

 

Damasio, A. The strange order of things: Life, feeling, and the making of cultures. New York: Pantheon, 2018.

 

Kahneman, D. & Tversky, A. Prospect theory: An analysis of decision under risk. Econometrica, 47, p. 263-291, 1979.

 

Hastie, R. & Dawes, R.M. Rational choice in an uncertain world: The psychology of judgment and decision making.

California: Sage, 2001.

 

Silva, Luiz Mauricio de A. da. An approach to military operations from the perspective of prospect theory. In: XII

Symposium of Operational Applications in Areas of Defense. SIGE ITA-Instituto Tecnológico de Aeronáutica, São José

dos Campos São Paulo 2010.

 

Silva, Luiz Mauricio de A. da. Critérios de decisão na Academia da Força Aérea: Conjugação de abordagens em função da

teoria prospectiva. In: Revista Conexão SIPAER, v.4, n.2, Brasília 2013.

 

Weyland, K. Os riscos na reestruturação econômica da América Latina: Lições da teoria prospectiva. In: Revista Opinião

Pública, Campinas São Paulo v1, p 76-108, 2000.

 

 

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