O comportamento (irracional) durante a greve dos caminhoneiros

Análise Social

Por Flora Finamor Pfeifer em maio 29, 2018

“Vou correndo no supermercado comprar verdura pra estocar!!!!” Ouvi uma senhora dizer na rua. A frase me chocou. É movida por uma certa irracionalidade: ora, se você estocar muita verdura, ela estraga. Mas a senhora provavelmente garantiu sua saladinha da semana, uma vez que, no dia seguinte, todas as verduras tinham acabado do supermercado do bairro.

Isso está sendo reflexo da greve dos caminhoneiros, que paralisou estradas e cortou fornecimento de produtos por todo o país. Em termos básicos, cortou a oferta. E, diretamente de Introdução à Economia, quando cortamos a oferta para uma mesma demanda, os preços sobem. Vemos, contudo, a demanda aumentar ainda mais, movida pela incerteza: melhor garantir a compra de leite, pão e ovo do que ver eles tomarem o mesmo rumo das verduras, certo? Aí já viu: preços disparam.

Adotando esse comportamento nós estamos sujeitos ao viés de escassez (scarcity bias), que traduz o aumento do valor subjetivo de um bem devido ao mero fato dele ser escasso. Esse viés é influenciado pelo fenômeno de aversão à perda, uma vez que não queremos perder, no curto prazo, o produto em si e, no longo, a possibilidade de escolha de ter algo que nos é possível agora. Também é fortalecido pela questão de norma social: se a demanda é alta, tornando-o escasso, significa que nossos pares aprovam essa escolha. Por fim, nós também antecipamos o arrependimento de não comprar e tentamos evitar esta sensação.

Isso é muito utilizado no marketing. Sabe quando as empresas de aviação colocam “últimos assentos do vôo”? Ou os supermercados anunciam uma oferta instantânea? São formas de reforçar a escassez do produto nos influenciando a aumentar o valor subjetivo que damos a ele.

No caso de incertezas e catástrofes, esse efeito ressurge com relação aos produtos básicos. Nos EUA, por exemplo, onde a ocorrência de furacões é frequente, é comum ter um “kit furacão” no supermercado que age como um default sobre a quantidade de compra dos suprimentos, evitando que falte para uma parcela da população.

Esse efeito manada infla preços e piora a crise, em uma espécie de profecia auto realizada. E acaba, ainda, alimentando o próprio movimento dos caminhoneiros: o cidadão é afetado quando a batata quadruplica o preço, o alface triplica… E reclama. Isso mostra o poder de persuasão que os caminhoneiros têm sobre o sistema logístico: não só atravancando o sistema pelos meios diretos, mas desencadeando um efeito de desespero sobre a sociedade que deteriora a situação ainda mais.

 

Referências:

https://www.researchgate.net/publication/24136438_The_Scarcity_Bias

https://uxdesign.cc/scarcity-in-ux-the-psychological-bias-that-became-the-norm-3e666b749a9a

http://www.bbc.com/portuguese/brasil-44228481

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