G.E.E.C. USP indica: Inside The Nudge Unit: How Small Changes Can Make a Big Difference – David Halpern, 2015

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Por Flora Finamor Pfeifer em maio 10, 2018

Aproveitando que nosso tema do mês são as aplicações práticas da Economia Comportamental, vejamos um dos exemplos mais desenvolvidos e estruturados nessa questão de se aplicar os conhecimentos de E.C. em políticas públicas: o Behavioural Insights Team (BIT) ou, como é carinhosamente apelidado, The “Nudge Unit”. Esse departamento foi criado junto ao gabinete de governo do Reino Unido, em 2010, sob o mandato do Primeiro Ministro David Cameron. Essa equipe, multidisciplinar, sob a chefia de David Halpern (autor do livro), foi formulada sob o objetivo de transformar a abordagem dos demais departamentos do governo através de uma compreensão mais realista do comportamento humano (ou melhor, britânico). A condição era de que retornasse em orçamento ao menos dez vezes seu custo, justificando sua atuação.  Caso contrário, seria fechado em seu segundo aniversário.

Partindo das teorias sobre Nudges, de Cass Sustein e Richard Thaler (que você pode conferir mais nesse outro post), David Halpern e sua equipe foram a primeira tentativa governamental global a dar uma chance para o que a Economia Comportamental tem a dizer. O BIT realizou diversos experimentos controlados sobre a própria sociedade nas áreas de saúde, impostos, energia, criminalidade, emprego e economia. Além dos exemplos práticos passíveis de reprodução, o grupo chegou em conceitos e lições para guinarem quaisquer abordagens de políticas públicas.

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Para tal, o autor criou diversos anagramas explicativos dos princípios necessários aprendidos nessa empreitada. Falemos sobre alguns.

Como criar uma unidade de aplicação de Nudges, no governo ou organizações? APPLES (maçãs)
A – Administração: certificar-se de que há o suporte administrativo de pessoas dentro do sistema, para assegurar a credibilidade de suas aplicações frente os demais, conseguindo as autorizações e e permissões quando necessário.

P – Política: os interesses políticos devem estar alinhados ao projeto do grupo

P- Pessoas: é essencial ter um grupo interdisciplinar em conhecimento, habilidades, contextos e experiências.

L – Localização: importante localizar-se no centro de onde decisões são tomadas e encontros importantes são feitos – muito tem a ver com oportunidades.

E – Experimentação: métodos empíricos são a chave – para ganhar credibilidade, é necessário quantificar o impacto gerado. Além disso, a ordem de testar – aprender – adaptar é crucial nesse processo: o comportamento humano e social pode ter desdobramentos não previsíveis.

S – Scholarships: é importante saber a literatura completa e atualizada de E.C., e não apenas seus conceitos básicos. Identifique os experts locais e tenha conselheiros acadêmicos para tal!

Quais são os principais princípios a serem levados em conta na hora da formulação de políticas? EAST

E – Easy (Fácil): sabendo que as pessoas são preguiçosas e tendem a fazer o que estão acostumadas, deixar a opção desejada como FÁCIL é um dos mais importantes conceitos. Dentro desse conceito, temos as abordagens de mudar opção default, simplificar processos, inserir fricções para evitar ações não desejadas (complicar ainda mais outros).

Exemplos práticos:

  • Milhões de dólares poupados a mais pela opção padrão de adesão a planos de aposentadoria;
  • Milhares de suicídios reduzidos quando os caminhos mais comuns foram dificultados;
  • 25% a mais de estudantes pobres entraram na universidade com formulários pré-preenchidos;

A –  Attract (Atrativo): atenção é um recurso escasso e é essencial saber como ativá-lo para a ação desejada. Algumas táticas são design especial, personificação, saliência, mensageiro, reação emocional, empatia, lembretes, honra, choque, curiosidade, diversão.

  • Médicos declararam 10 vezes mais seu imposto de renda dado uma carta personalizada;
  • Doações emergenciais dobraram quando o pedido era feito em relação a história de uma criança específica em comparação com estatísticas dos milhões carentes;
  • 3 vezes mais provável que a pessoa pague multas com um texto personalizado;

S – Social (Social): o ser humano é um ser social e é influenciado pelo o que os outros a sua volta estão fazendo (assim como o seu comportamento influencia os demais). Sendo assim, ativar esse princípio pode levar a comportamentos: ressaltar normas sociais positivas (todo mundo faz x), chamar atenção para um comportamento fora do padrão não desejável (apenas x% da população age dessa forma) , incentivar a competição (economia de energia das casas), influência das redes de contatos pessoais, reciprocidade, comprometimento, imagens de rostos e faces, toque humano e pessoal.

  • É 8 vezes mais provável que as pessoas joguem lixo nas ruas se a rua está cheia de lixo;
  • 16% mais provável que se pague os impostos caso sejam informados que a maioria das pessoas os paga;
  • 7 vezes mais provável que se faça doações ao saber que um colega as fez;

T – Timely (Temporal): o último princípio diz respeito a quando aplicar as intervenções: saber qual o momento certo para alterar comportamentos. Devemos agir antes de certo hábito ser estabelecido, aproveitar momentos em que as pessoas são suscetíveis a mudanças (gravidez, casamento, novo emprego), fatores sazonais que influenciam comportamento (generosidade no Natal, por exemplo) e levar em conta preferência temporais inconsistentes.

  • Dois terços a mais de fazendeiros aceitaram ofertas de fertilizantes após a colheita (quando tinham mais caixa, apesar de ser sazonal);
  • Trabalhadores escolhem opções saudáveis para a semana seguinte 3 vezes mais que as escolhem na hora;
  • 2 vezes mais improvável de se responder a nudges sobre impostos se a pessoa já pagou atrasado no ano anterior;

O livro segue com diversos exemplos das atuações do grupo na sociedade britânica e de experimentos que estimularam as tais. Halpern destaca, também, os fatores de críticas e limitações de seus approachs. A defesa do que é “a melhor escolha” por vezes depende de vieses e valores pré formulados. Resultados variam muito entre sociedades, locais, épocas e culturas. Para saber o que dará certo na sociedade brasileira, é necessário testar aqui.  

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