Existe amor em SP (?)

Análise Social | Políticas Públicas

Por Flora Finamor Pfeifer em maio 4, 2018

Na terça passada o Brasil assistiu, aflito, ao incêndio e desabamento de um imponente edifício de São Paulo, o Wilton Paes de Almeida, no centro da cidade. O episódio chamou particular atenção devido ao fato do prédio ser tomado por uma ocupação irregular e, portanto, o desastre atingiu famílias com baixo poder aquisitivo. A situação precária do prédio propiciou o alastramento das chamas, aumentando as proporções do acidente. Vimos, então, uma onda de comoção e solidariedade ser espalhada pela sociedade.

A Secretaria Municipal de Assistência de Desenvolvimento Social uniu-se à Cruz Vermelha para realizar uma campanha de doações às vítimas do incidente. Nas primeiras 24 horas de campanha foi-se arrecadadas cinco toneladas de doações, o que já era suficiente para atender aos desabrigados – e a generosidade não parou por aí. Hoje, doações não mais são aceitas por conta da lotação dos espaços que estavam recebendo-nas.

Paradoxalmente, moradores de rua abrigam o mesmo local em que parte dos desabrigados está, e houve atrito entre eles por “roubo” de doações. Ora, o que faz a população ser tão altruísta para uma parcela da população e ignorar as necessidades dos demais em outros contextos? O que causa essa comoção pontual destoante para com as vítimas de uma tragédia — enquanto há pessoas que vivem constantemente em situação precária que não recebem ajuda?

 

A Economia Comportamental explica:


A primeira coisa que nos atinge é o efeito da empatia. Quando um desastre ocorre, graças à cobertura da mídia, ficamos intensamente expostos a ele — e as suas vítimas. Sabemos suas histórias, seus dramas e suas dificuldades – e nos identificamos e sensibilizamos mais por elas do que, diga-se, uma estatística de quantas pessoas moram nas ruas em São Paulo. Outro fator que nos atinge é a proximidade — tendemos a ajudar mais casos que ocorrem em nosso cotidiano – como um desastre próximo a nós – do que enchentes na Índia ou atentados no Oriente Médio.

Somos também muito afetados, como mostra a Teoria do Valor da Teoria do Prospecto (a função utilidade adaptada), pelo viés de dependência de referência: ponderamos ganhos e perdas em relação a um ponto de referência. Essa sensação de “perda” – por mais que referente à terceiros – nos sensibiliza mais do que algo que sempre esteve no mesmo patamar.

Por fim, falemos da  pressão social: os laços fortes (e, mais importante, os laços fracos – amigos de amigos) são fatores determinantes em comportamentos de uma sociedade. Vizinhanças, comunidades e grupos de amigos inserem um senso de obrigação sobre si mesmos: se você as ignora, corre o risco de “perder” sua posição social. Tal fator pôde ser evidenciado na pesquisa do doutorando de Harvard na década de 60, Mark Granovetter, e do sociólogo da Universidade do Arizona Doug McAdam, em estudo realizado na década de 80. São dezenas de hábitos individuais que fazem com que todos se movam em uma mesma direção – uma espécie de “efeito manada”.

O altruísmo existe de forma díspar dado diferentes situações. É limitado e pautado por vieses cognitivos que destoam de um comportamento padrão, consistente e racional de fazer o bem permeado na sociedade. Entendê-los, pois, pode ajudar-nos (ONGs, governos, associações) a formular estratégias (nudges) que “despertem” o “lado bom” existente dentro de cada um.  

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