Quem conta um conto aumenta um conto

Finanças Comportamentais

Por master em abril 6, 2018

O assunto da moda agora são as criptomoedas. Todos falam sobre isso, todos desejam criptomoedas, o assunto é notícia quente em várias mídias, todos os dias surgem pessoas montando fundos de criptomoedas e corretoras apresentando esse novo produto. O valor do bitcoin, um tipo de criptomoeda, desenha um gráfico que mais parece projeto de montanha russa.

As perguntas estouram como milho de pipoca em panela quente. É bolha? É pirâmide? É a moeda do futuro? Vai acabar com os bancos?

Essa descrição parece familiar? Você também já ouviu esses comentários? E então, do que estamos falando?

Nesse texto quero refletir sobre o papel das narrativas na vida econômica das sociedades. Onde entra o famoso “na boca do povo” nessa onda das criptomoedas?

Vou contar com o apoio de Robert J. Shiller, economista comportamental que concedeu uma entrevista à revista Veja em fevereiro de 2018.

Quando pensamos em narrativas, estamos falando das histórias, das crenças, dos valores que uma sociedade tem como verdade e que orientam suas ações em grupo. O que é que faz com que todos parem de comprar coisas e guardem seu dinheiro, temendo um futuro incerto, ou empreguem novos funcionários em seus negócios imaginando um futuro promissor? A resposta mais superficial é: as notícias divulgadas na mídia; o que as pessoas ao meu redor estão fazendo; os indicadores publicados e o que “as pessoas estão dizendo”. O problema que está por trás desse pensamento, a respeito das decisões das pessoas, é que esses comportamentos podem ser uma reação a um movimento de recessão que já se apresentava ou, ainda, uma resposta a um otimismo crescente.

Reação ou ação inicial? O que, na verdade, estamos querendo entender quando pensamos sobre isso? Não se trata somente de esclarecer um mecanismo de retroalimentação, com reações e respostas, mas de compreender por que, em primeiro lugar, a situação começou.

A proposta é considerar a possibilidade de que a vivacidade das histórias contadas, e não só os mecanismos de feedback econômico e multiplicadores, adorados pelos modelos econômicos, tenham um papel importante a desempenhar. Novas narrativas podem ser vistas como motores para inovação, surgem como ideias na cabeça de um indivíduo ou grupo e se expandem para a sociedade, passando, paulatinamente, a adquirirem sentido e serem aceitas como verdade.

A mágica da narrativa, ou “boa história”, é seu poder de encantar e impactar quem a escuta e de trazer ao narrador um papel central, um certo poder pessoal, uma vez que ele é o detentor da informação. Isso acontece porque as narrativas são sempre criativas e tratam de temas essencialmente humanos. Ao levar o tópico às conversas ou às mídias sociais, o narrador se conecta às preocupações e emoções do outro e, por ser estimulante e trazer algum interesse pessoal, em geral é uma pedra preciosa em bate papos, em seus vários graus de verdade, e acaba se transformando numa jornada heroica ou piada.

A maioria de nós já brincou de telefone sem fio na infância, e sabe o que acontece com a mensagem quando ela chega ao final da linha. A forma da história varia ao longo do tempo e conforme vai passando adiante, mas mantém seu elemento central de contágio.

O desejo fervoroso de que algo aconteça é um poderoso incentivo para a disseminação da história, de forma que ela se espalha rapidamente e pode até se tornar “viral”. Schiller afirma em seu artigo “Narrative Economics” (A Economia da Narrativa) de janeiro de 2017 que, assim como na biologia evolutiva, as mutações na narrativa vão acontecendo de forma aleatória e, as histórias modificadas a respeito de fatos econômicos, se por um acaso se perpetuarem, podem gerar consequências não previstas na economia como um todo.

O impacto das narrativas, não necessariamente ligadas a fatos concretos, é ainda mais forte nos dias de hoje, em que mídias digitais têm maior poder de influência e todos são autores de notícias. O conceito de “pós-verdade” ganhou o prêmio de “a palavra internacional do ano”, em 2016, pelo Dicionário de Oxford.

E aqui, quero dar uma paradinha para pensarmos em como entender essa narrativa usando o instrumental da Economia Comportamental. O que está em ação aqui?

Ao colocar os óculos da disciplina, a primeira coisa que me salta aos olhos é a relevância das emoções humanas. Precisamos contar com o medo das pessoas a respeito de um futuro incerto para que elas parem de gastar dinheiro; com sua animação ou confiança no futuro para que invistam antes da retomada do crescimento; a narrativa precisa ser aceita para que o contador se sinta participante e importante para o grupo e a história tenha o efeito desejado e se propague.

Estamos falando de alguns vieses comportamentais importantes, ao mesmo tempo em que integramos emoções aos processos cognitivos que levam a tomadas de decisão financeiras. Observamos ao menos os vieses de excesso de confiança e confirmação social. Mais ainda, podemos perceber como, aos poucos, as narrativas vão criando “primings”, ou seja, nos preparam para ver uma situação de determinada forma, ou melhor, da forma embutida na história. Vão formando heurísticas de representatividade, nos dizendo como solucionar problemas baseados nas experiências dos protagonistas da narrativa, e não em bases racionais de probabilidade. A ideia de “framing” também aparece largamente aqui, uma vez que a história estabelece um ponto de vista que influenciará a direção da tomada de decisão. Além de, claro, reformular valores pessoais e culturais.

As narrativas podem ser vistas como roteiros, de forma que, quando em dúvida sobre determinada ação, os seres humanos se voltam às histórias, adotam um papel, e respondem como se fossem os atores de uma peça de teatro. As histórias produzem normas sociais, que orientam, ainda que parcialmente, nossos comportamentos, incluindo os comportamentos econômicos.

Vamos voltar a atenção agora ao começo da nossa história: as criptomoedas e sua crescente presença nas notícias e nas conversas. Quero principalmente pensar sobre a pergunta: são uma bolha?

Numa situação de bolha, a propagação da narrativa é ampliada pela atenção do público voltada ao rápido aumento de preços, por exemplo do bitcoin, o que gera uma expansão na taxa de contágio das histórias populares, justificando parcialmente a subida dos preços, estimulando a demanda e, consequentemente, mais aumento de preços.

Quando pensamos no sistema monetário, – que diz respeito ao funcionamento das moedas – um dos componentes principais é a convenção social que está sustentando o mecanismo. O papel moeda que sai de nossas carteiras e permite transações no mundo real só tem valor porque toda a sociedade concordou em aceitar esse meio de troca para intermediar suas transações.

O que é diferente com as criptomoedas, além do fato de que não há um consenso sobre a adoção da mesma como meio de trocas, é o fato de que qualquer pessoa que tiver acesso à tecnologia de um blockchain – basicamente um livro caixa de registro de todas as transações entre os agentes participantes das trocas efetuadas – pode criar uma moeda nova. O risco é esse processo virar “viral”, de grande contágio, e então surgir uma bolha insustentável.

Mas, qual o ingrediente ou, ingredientes “mágicos” no bitcoin que o tornariam um tema atraente para as narrativas?

Primeiro, precisamos de senhas secretas, que são transformadas em códigos em duas etapas, que, por sua vez, passam por uma criptografia e são verificados milhares de vezes em diversas cadeias de blockchain.

Adicione-se à toda essa complexidade e mistério, um perigo intrínseco ao mecanismo: se você, que é a única pessoa que possui a “chave pessoal” perder essa chave, você perde tudo. GAME OVER. Emoção!!! O cérebro vislumbra novidade e acorda, sente-se vivo!!!!

Além disto, todo esse jogo envolve dinheiro, o que põe lenha na fogueira do entusiasmo. Pronto. Irracionalidade com entusiasmo e adeus à ação do sistema racional e ao tédio da vida cotidiana.

Some-se a isso, ainda, as narrativas envolvendo o bitcoin – desde a sua criação, que ninguém sabe como se deu exatamente e quem é o criador dessa moeda digital – mais as histórias fantásticas disseminadas rapidamente pelo boca a boca a respeito de quem enriqueceu do dia para a noite investindo em bitcoins, e teremos um prato cheio para a criação de uma bolha.

O que quero afirmar com essa observação é que é preciso ter atenção e pensar racionalmente, para não cair desavisadamente no famoso “conto do vigário”.

Esse movimento crescente implica também em uma outra consequência ainda mais traiçoeira: as grandes variações nos preços do bitcoin trazem consigo muitas incertezas e a aparência de um jogo. Lembre-se: há sempre risco envolvido. A emoção e o entusiasmo associados aos jogos dão aos indivíduos (que em geral sentem algo faltando em suas vidas) uma sensação – evidentemente falsa – de propósito de vida. Como um vício. Essa oscilação faz com que os participantes fiquem animados para acompanhar o movimento e se levantem cedo da cama. Cada perda ou ganho provoca uma enxurrada de hormônios no sistema nervoso, atenuando a sensação de depressão e enfado em suas vidas.

O problema é que, como em qualquer jogo ou vício, o vazio interno não é preenchido e volta à tona muito rapidamente, o que, muitas vezes, pode impulsionar a pessoa a tomar atitudes cada vez mais nocivas, a fim de compensar as perdas e na tentativa de preencher o vazio interno, o que pode levá-la a cair, por exemplo, na falácia dos custos irrecuperáveis – mais um viés comportamental mapeado pela economia comportamental –  e se prejudicando, de forma muitas vezes irreversível, não no mundo virtual das criptomoedas e das histórias, mas em suas vidas reais.

Referências Bibliográficas

Akerlof, George A, and Robert J. Shiller. 2009. Animal Spirits: How Human Psychology Drives the Economy and Why this Matters for Global Capitalism, Princeton: Princeton University Press.

Akerlof, George A, and Robert J. Shiller. 2015. Phishing for Phools: The Economics of Manipulation and Deception. Princeton: Princeton University Press.

Costa, Ana Clara. 2018. “O bitcoin é uma bolha clássica”. Revista Veja. Editora Abril.

Shiller, Robert J. 2017. Narrative Economics. Cowles Foundation Discussion Paper no. 2069. Cowles Foundation for research in Economics Yale University.

Shiller, Robert J. 2000, 2005, 2015. Irrational Exuberance. Princeton: Princeton University Press.

Thaler, Richard. 2015. Misbehaving: The Making of Behavioral Economics. New York: W. W. Norton.

Publicado por Renata Taveiros de Saboia para o blog Economia Comportamental:

Renata é economista pela FEA-USP, especializada em Economia Comportamental aplicada à Marketing pela Yale University e pós graduanda em Neurociênca aplicada a Sustentabilidade de Pessoas e Organizações pela Faculdade de Medicina da Santa Casa.

http://www.economiacomportamental.org/nacionais/quem-conta-um-conto-aumenta-um-conto/

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