Corrupção corrompe

Análise Social

Por Flora Finamor Pfeifer em abril 4, 2018

Hoje o Supremo irá votar quanto à prisão de Lula no que diz respeito a sua condenação de segunda instância. Nos últimos anos, transbordam-se os noticiários brasileiros do conteúdos sobre corrupção e as operações e desdobramentos destas investigações. Opiniões conflitam entre os lados do jogo e a condução do processo, mas uma coisa é irrefutável: a corrupção está presente nos mais diversos níveis na sociedade brasileira. É um ciclo que se auto alimenta: nas esferas maiores, poder político anda junto com o poder econômico, em mega esquemas, dignos de filme. Nos atos cotidianos, o comportamento individual na sociedade brasileira muitas vezes foge da transparência e honestidade – pequenos atos corruptos viram “praxe” e toleráveis – bobo é quem não o faz.

 

O tema, pois, vem sendo investigado na Economia Comportamental. O que leva o ser humano a se desvirtuar de certos valores? A sociedade é determinante do caráter individual? É o comportamento individual que leva a instituições corruptas ou o contrário? O paper de Schulz e Gachter, Intrinsic honesty and the prevalence of rule violations across societies (honestidade intrínseca e a prevalência de violação de regras através das sociedades) busca responder estas questões.


Os autores tratam o ato enganoso como parte da natureza humana, e encaram instituições como artifícios das sociedades modernas para evitá-los. Contudo, não são suficientes – perpetuam-se situações em que a única coisa que impede o ato corrupto é a própria honestidade intrínseca. Teorias psicológicas, sociológicas econômicas estabelecem uma relação causal entre um ambiente social corrupto e a honestidade intrínseca individual. Os autores, então, realizaram um experimento em diferentes sociedades – 23 países – buscando evidenciar essa relação. O resultado foi uma conexão robusta entre a prevalência de violações de regras e a honestidade individual.


O experimento realizado foi o seguinte: estabeleceu-se, primeiramente, um índice de prevalência de violação de regras (PRV), baseado nos níveis de corrupção, sonegação de impostos e fraudes políticas de 2003 para cada país. Depois, mediu-se a honestidade intrínseca individual através de um experimento com dados, feitos com 2568 estudantes – que, por sua idade, não poderiam ter influenciado o PRV de seu país (não pagavam impostos ou exerciam cargo políticos). Os estudantes deveriam declarar qual número tinham tirado nos dados a fim de obterem uma recompensa, cujo resultado dependia exclusivamente de sua palavra. Os pesquisadores conseguiam estimar os resultados obtidos pela amostra estatisticamente, evidenciando quando havia, no grupo, resultados muito diferentes do esperado pelo jogo – o que demonstrava a trapaça. No anexo abaixo, podemos observar os resultados para as amostras em diferentes países. Os gráficos em verde mostram os países com baixo PRV e os em vermelho, com alto. Observou-se, pois, que a honestidade intrínseca individual é mais forte entre as amostras de estudante em países com um baixo PRV do que nos de alto PRV.


Conclusão: há uma evolução cultural conjunta entre as instituições e os valores. Instituições fracas e legados culturais que levam à violação das regras culminam não só em consequências econômicas, como também afetam a honestidade individual intrínseca — algo crucial para o bom funcionamento da sociedade.


Pegando o termo emprestado de Shalvi: a corrupção corrompe.

Referências:

GACHTER, S. e SCHULZ, JF. Intrinsic honesty and the prevalence of rule violations across societies. Nature, pg. 531(7595):496-9. 24 Mar, 2016.

SHALVI, Shaul. Behavioral Economics: Corruption corrupts. Nature, 2016.

Anexos:

corruption corruptscorruption corrupts 2

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