Ou isto ou aquilo

Análise Social

Por Flora Finamor Pfeifer em abril 3, 2018

Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

— Cecília Meireles

 

Este poema acompanhou-me por toda minha infância, intrigando uma criança indecisa no que diz respeito a uma das coisas mais presentes da vida — e também um dos principais objetos de estudo da economia: o ato de escolher.

 

Lionel Robbins, em seu ensaio “An Essay on the nature and significance of Economic Science”, definiu economia como “Economics is the science which studies human behaviour as a relationship between ends and scarce means which have alternative uses.” (Economia é a ciência que estuda o comportamento humano como produto da relação entre fins e meios escassos que têm usos alternativos.). Apesar de não abranger a totalidade das ciências econômicas, engloba bem os estudos neoclássicos e aplica-se também à Economia Comportamental.

 

Na E.C., o processo de tomada de decisão é destrinchado a partir da realidade — as suposições não são feitas a partir do modelo, mas sim a partir do observado na realidade e através dos experimentos. E o que se observa é: muitas vezes, a decisão não apresenta o comportamento que se esperaria de uma perspectiva racional. O comportamento humano é influenciado por externalidades e subjetividades.

 

No artigo do The New York Times de David Brooks, The Behavioral Revolution, o autor segmenta o processo de decisão em quatro etapas: primeiro, nós percebemos a situação; depois, analisamos as possíveis opções a serem tomadas; então, calculamos qual deles maximizará nossa utilidade; por fim, tomamos a ação. Brooks salienta que as atenções no universo econômico sempre resumiram-se  ao passo 3, mas que talvez seja hora de voltarmos nosso olhar e dar a devida importância ao primeiro deles: nossa percepção da situação.

 

Vários padrões são observados nos estudos de Economia Comportamental; tendências que afastam as escolhas do modelo clássico de racionalidade dos agentes; princípios que passam a ser utilizados nos estudos de arquitetura de escolha. Falemos sobre os principais.

 

O efeito Framing traduz-se na predileção por determinada opção dependendo na forma das quais foram apresentadas. O experimento de Kahneman e Tversky (1979), comprova este fenômeno.

 

O ser humano, por exemplo, tem aversão à perda. Observado no experimento do economista Jack Knetsch, o Efeito posse ou dotação revelou-se através da disposição a pagar para possuir um bem ser menor do que o quanto estavam dispostos a receber para perdê-lo.  

 

Já o Efeito Âncora, observado por Daniel Kahneman, ocorre quando somos influenciados por um valor ou percepção que nos foi apresentado inicialmente e, por mais que saibamos que ele não é a resposta correta, nossa escolha é delimitada por tal — tendemos a nos aproximar, superestimando ou subestimando nossa escolha, dependendo da âncora, em contraposto com uma escolha sem sermos expostos a tal artifício.

 

O Efeito da Representatividade ocorre quando avaliamos a probabilidade da ocorrência de um evento baseado em nossos estereótipos, ignorando as probabilidades propriamente ditas. O Efeito da Disponibilidade, por sua vez, analisa a frequência ou probabilidade de um evento pelo grau de que este evento está disponível em nossa memória.

 

O Efeito da Confirmação é a tendência de se buscar evidências que confirmam suas hipóteses e ignorar as negativas. E o Efeito da Confiança Excessiva ocorre quando a pessoa, vindo de uma série de sucessos (por vezes ao acaso), exagera as probabilidades do sucesso ocorrer novamente.

 

Efeito Conciliatório traduz que, quando temos que escolher entre três opções, a opção do meio tende a ser escolhida com maior frequência.  E o Efeito Isca expõe os casos em que há uma mudança de preferência entre duas opções ao inserir-se uma terceira opção, dominante de forma assimétrica.

 

O Viés do Status Quo pode bem ser uma aplicação da Primeira Lei da Física de Newton ao comportamento humano: “Todo corpo permanece parado ou em movimento retilíneo uniforme (MRU) a menos que uma força seja aplicada nele”. Tendemos a fazer o que sempre fazemos, e por isso que as regras default funcionam.

 

Simplicidade, Facilidade e Fricção são outras questões que afetam nossas escolhas, relacionadas com o viés do status quo. Tornar uma certa coisa mais fácil de se atingir (ou o contrário), exerce enorme impacto no comportamento individual, com exemplos desde exercer o direito ao voto até o próprio ato do suicídio.

 

O ser humano é um ser social, e as Normas Sociais exercem grande influência em nosso comportamento. Muitas vezes as escolhas são tomadas tendo em vista as escolhas dos outros, e disso decorrem fenômenos como o efeito manada, ações movidas pela reciprocidade, competição, prova social, altruísmo, aversão à injustiça, entre outros.

 

A Intangibilidade também pode afetar as decisões, quando temos que levar em conta fatores como intertemporalidade, riscos e incertezas. Nisso podemos observar o Desconto Hiperbólico, que mostra que valorizamos mais benefícios recebidos agora do que benefícios recebidos no futuro.

 

Todos estes efeitos podem culminar em um resultados que destoam do ótimo do ponto de vista racional e, ainda assim, ocorrem com tanta frequência.

Para entender um pouco mais, confira esse Ted Talk super ilustrativo do Dan Ariely: https://www.ted.com/talks/dan_ariely_asks_are_we_in_control_of_our_own_decisions#t-1021827

Ou isto ou aquilo — escolher nunca foi tão complicado!

 

Referências:

KNETSCH, J. The Endowment Effect and Evidence of Nonreversible Indifference Curves.The American Economic Review, v. 79 (5), p. 1277-1284, 1989.

THALER, R. Some Empirical Evidence on Dynamic Inconsistency. Economic Letters, v. 8 (3), p. 201-207, 1981.

BROOKS, David. The Behavioral Revolution. The New York Times, pg. A31, ed. 27.10.2008.

Blog – Economia Comportamental <http://www.economiacomportamental.org/>

 

 

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